Estratégia e Tática em Lenin, por Tony Cliff

lenin

Nos dias de hoje, marcada pela crise política do governo Dilma e pela confusão generalizada na esquerda, a questão da estratégia e da tática ganha relevância. Diante da importância desse tema, divulgamos este importante texto de Tony Cliff, extraído da sua importante biografia de Lênin em três volumes. A presente tradução foi feita há alguns anos, com o único intuito de utilizá-lo em um curso de formação, o que explica (embora não justifique) algumas imperfeições na forma. Decidimos divulgá-lo mesmo assim, por acreditarmos que a sua contribuição para o debate político atual supera eventuais imprecisões na tradução. De toda maneira, quaisquer equívocos ou falhas são de nossa inteira responsabilidade. Tony Cliff foi um marxista judeu palestino que viveu a maior parte de sua vida na Grã-Bretanha, tendo sido figura central na fundação do Socialist Workers’ Party (GB) e da corrente internacional International Socialists Tendency.

R. Polly

Estratégia e Tática

(Lenin Aprende de Clausewitz)

Tony Cliff

O período de vinte anos entre 1894 e 1914 presenciou um enorme avanço na maturidade do movimento operário russo. Este desenvolvimento foi uma escola viva de tática e estratégia. Lênin cresceu junto com o movimento, influenciou-o e foi influenciado por ele. Essas duas décadas constituíram uma preparação longa, para ele e para a classe trabalhadora como um todo, para o maior teste, tanto da tática quanto da estratégia – a terrível carnificina da guerra e o seu término pela revolução. As lições mais intensivas deste período preparatório foram proporcionadas pela Revolução de 1905 e o período subsequente.

Marxismo, ciência e arte

Como afirmamos, quando a Revolução de 1905 eclodiu de maneira inesperada, Lenin estudou os escritos militares de Karl von Clausewitz, que o influenciaram consideravelmente na formulação de sua tática e estratégia política.

Clausewitz, o grande filósofo de guerra, que se inspirou em Napoleão, definia a tática como “a teoria do uso de forças militares em combate”, e a estratégia como “a teoria do uso do combate para o objetivo da guerra.” Lenin definiu a relação entre a tática revolucionária e a estratégia revolucionária em termos bem parecidos aos de Clausewitz. O conceito de tática se aplica a medidas que servem a uma única tarefa ou a um único setor ou ramo da luta de classes. Consequentemente, Lenin falava sobre táticas precisas, como durante os dias de janeiro de 1905 ou em relação a Gapon. Ele também falou sobre tática sindical, tática parlamentar, e assim por diante. A estratégia revolucionária abrange uma combinação de táticas que, por sua associação e crescimento, levam à conquista do poder pela classe trabalhadora.

A II Internacional, que surgiu durante o período de crescimento lento, orgânico e sistemático do capitalismo e do movimento operário, limitou-se na prática à questão da tática: as tarefas cotidianas por reformas nos sindicatos, no parlamento, nos governos locais, cooperativas, etc. O movimento revolucionário russo, que se desenvolveu em períodos tempestuosos, quando ao rumo dos acontecimentos frequentemente mudava com rapidez, teve que enfrentar a questão mais ampla da estratégia e a sua relação com a tática. Ninguém foi mais competente para desenvolver esta questão do que Lênin, que soube elevar o marxismo do nível de uma ciência para o nível de uma arte.

O marxismo é constantemente chamado de uma ciência, mas como um guia para ação, deve também ser uma arte. A ciência lida com o que existe, enquanto a arte nos ensina como agir. A contribuição principal de Lênin está no desenvolvimento do marxismo enquanto arte. Se Marx tivesse morrido sem ter participado da fundação da I Internacional, ainda seria Marx. Mas a importância de Lênin não teria sido a mesma caso tivesse morrido sem construir o Partido Bolchevique, sem cumprir o papel dirigente na Revolução de 1905 e mais tarde em 1917, e sem ter fundado a Internacional Comunista.

Para avançar da teoria à pratica, da ciência à arte, Lênin teve que demonstrar a relação dialética entre elas – o que é comum a ambas e o que distingue uma da outra.

Marx e Engels sempre enfatizaram que a teoria desenvolvida por eles “não é um dogma, mas um guia para a ação”, e ridicularizavam a simples memorização e repetição de ‘fórmulas’ que, no melhor dos casos, são capazes apenas de traçar tarefas gerais, as quais são necessariamente modificáveis pelas condições econômicas e políticas concretas de cada período particular do processo histórico.

Existe uma diferença enorme entre as leis gerais de movimento de sociedade e as condições históricas reais concretas, pois a vida é infinitamente mais complexa do que qualquer teoria abstrata. Com tantos fatores interagindo, apenas o conhecimento não proporciona nenhuma base para um conhecimento da realidade. Lênin adorava repetir: “A teoria, meu amigo, é cinzenta, mas verde é a eterna árvore de vida.” A realidade viva é sempre mais rica em desenvolvimentos, em probabilidades, em complicações do que qualquer conceito ou prognóstico teórico. Lênin zombava daqueles que transformavam o marxismo em um ícone: “Um ícone é algo para o qual você reza, diante do qual você se curva; mas um ícone não tem nenhum efeito na vida prática e na política prática”, Ele escreveu com amargura, em uma carta para Inessa Armand: “As pessoas, em sua maioria (99% da burguesia, 98% dos liquidacionistas, mais ou menos 60-70% dos bolcheviques) não sabem como pensar, elas só decoram as palavras”,

O obstáculo principal para uma compreensão não dogmática do marxismo, para seu uso como um guia para a ação, é a inclinação para substituir o abstrato pelo concreto. Isto é um dos erros mais perigosos, especialmente em uma situação pré-revolucionária ou revolucionária, quando o desenvolvimento histórico é irregular, cheio de saltos, recuos, e viradas bruscas.

Verdades abstratas não existem. A verdade é sempre concreta. [4]

“… qualquer verdade abstrata se torna uma frase vazia se for aplicada a qualquer situação concreta. É inquestionável que “toda a greve esconde a hidra da revolução social.” Mas é tolice pensar que podemos andar a passos largos diretamente de uma greve à revolução.” [5]

“… toda declaração histórica geral aplicada a um caso particular, sem uma análise especial das condições daquele caso particular, se torna uma frase vazia.” [6]

Ao mesmo tempo uma compreensão científica clara dos contornos gerais do desenvolvimento histórico da luta de classe é essencial para um dirigente revolucionário. Ele não será capaz de manter seu rumo e sua confiança através das mudanças e viragens da luta a menos que tenha um conhecimento geral de economia e política. Assim, Lenin repetia seguidamente que a estratégia e a tática devem estar baseadas “em uma avaliação exata da situação objetiva” [7], e ao mesmo tempo ser “modeladas após uma análise das relações de classe em sua totalidade.” Em outras palavras, devem ser baseadas em uma análise teórica clara e confiante – ou seja, na ciência.

O ceticismo teórico é incompatível com a ação revolucionária. “O importante é estar confiante de que o caminho escolhido é o correto, e esta confiança multiplicar por cem a energia e o entusiasmo revolucionários, o que pode realizar milagres.” [9]

Sem entender as leis de desenvolvimento histórico, não se pode manter uma luta persistente. Durante os anos de dureza e decepção, isolamento e sofrimento, os revolucionários não podem sobreviver sem a convicção de que suas ações são adequadas às exigências do avanço histórico. Para não se perder nos giros e viradas do longo caminho, deve-se permanecer firme ideologicamente. O ceticismo teórico e a firmeza revolucionária não são compatíveis. A força de Lênin estava na capacidade de sempre relacionar a teoria aos processos do desenvolvimento humano. Ele julgava a importância de cada noção teórica em relação às necessidades práticas. Do mesmo modo, testava cada passo prático em sua adequação à teoria marxista. Ele combinou de maneira perfeita a teoria e a prática. Segundo o historiador bolchevique M.N. Pokrovsky: “Você não achará em Lênin um único trabalho puramente teórico; cada um dos seus trabalhos tem um aspecto de propaganda.” [10]

Lênin acreditava na improvisação. Mas para que esta não degenere simplesmente em um impressionismo inconstante, deve estar integrada em uma perspectiva geral baseada em uma reflexão teórica clara. Prática sem teoria leva a incerteza e erros. Por outro lado, estudar o marxismo separadamente da luta significa divorciá-lo da sua razão principal – a ação. A prática é clarificada pela teoria revolucionária, e a teoria é verificada pela prática. As tradições marxistas são assimiladas pelos corações e mentes das pessoas somente através da luta.

A teoria é a generalização da prática do passado. Consequentemente, como Gramsci expôs tão bem, “as ideias não nascem de outras ideias, filosofias de outras filosofias; são expressões continuamente renovadas do desenvolvimento histórico real.” [11] Para adaptar-se a qualquer nova situação sem perder a sua própria identidade, é absolutamente necessária a unidade entre teoria e prática.

Lênin sabia que nenhuma organização revolucionária pode sobreviver sem um criativo laboratório ideológico. Ele sempre procurou encontrar um eventual uso político para as suas pesquisas. Mas quando realmente se envolvia nessa tarefa, não hesitava em se ausentar durante meses da política prática, para mergulhar em estudos no Museu Britânico ou na Bibliothèque Nationale. [12]

O programa do partido – seus princípios básicos – toma como ponto de partida as potencialidades históricas da classe trabalhadora, quer dizer, deriva-se das condições materiais da sociedade em geral e, em particular, da posição que nela ocupa a classe trabalhadora. A estratégia e a tática, porém, tomam como ponto de partida não o mundo material como tal, mas a consciência dos trabalhadores. Se a consciência – que Marx chamou de superestrutura ideológica – refletisse diretamente a base material, nesse caso a tática e a estratégia poderiam ser derivadas diretamente do programa do partido. Porém, a derivação é na verdade indireta, complexa, influenciada pelas tradições e experiências dos trabalhadores, inclusive pelas atividades do próprio partido. Um partido revolucionário, em princípio, opõe-se ao sistema de salários, mas taticamente está longe de ser indiferente à luta dos trabalhadores por salários mais elevados.

Uma direção revolucionária precisa não só de uma compreensão da luta como um todo, mas precisa ser capaz de apresentar as bandeiras corretas em cada momento de virada. Estas não derivam simplesmente do programa do partido, mas devem estar adequadas às circunstâncias, sobretudo ao estado de espírito e o sentimento das massas, de forma que possam ser utilizadas para o avanço da classe trabalhadora. As bandeiras e slogans devem ser apropriados não só para a direção geral do movimento revolucionário, mas também para o nível de consciência das massas. Somente pela aplicação da linha geral do partido o seu valor real se tornar claro. A unidade orgânica entre a teoria geral e as táticas particulares estava no coração da luta e do estilo de trabalho de Lênin.

Sem um programa um partido não pode ser um organismo político integral capaz de perseguir a sua linha e seus objetivos diante de quaisquer mudanças na situação. Sem uma linha tática baseada em uma avaliação da situação política real, e sem proporcionar respostas claras aos problemas do nosso tempo, podemos ter um círculo de teóricos, mas não uma entidade política efetiva. [13]

O único meio para verificar a justeza de um plano estratégico, ou de uma tática, é pelo teste da prática, checando-o à experiência do desenvolvimento real da luta de classes:

“… decisões tomadas em relação à tática devem ser verificadas, tão frequentemente quanto possível, à luz dos novos acontecimentos políticos. Tal verificação é necessária tanto do ponto de vista da teoria quanto da prática: do ponto de vista da teoria, para averiguar se de fato as decisões tomadas são corretas, e que emendas às decisões políticas se tornam necessárias em função dos novos acontecimentos; do ponto de vista da prática, para aprender como usar as decisões como um guia adequado, aprender a considerá-las como diretivas para a aplicação prática.” [14]

Trotsky expressou a mesma ideia quando disse: “O preconceito bolchevique fundamental consiste justamente na ideia de que uma pessoa só aprende a montar um cavalo quando estiver firmemente sentado sobre um cavalo.” [15] Somente na própria luta pode se aprender a estratégia e a tática. Repetidamente Lênin citava Napoleão:

On s’engage et puis… on voit.” Em tradução livre: “Primeiro tomemos parte de uma batalha séria, e então vejamos o que acontece.”

Na guerra, e especialmente na guerra de classes em um período revolucionário, os elementos desconhecidos que existem não só no campo inimigo, mas também no seu próprio campo, são tão numerosos que uma análise sóbria tem que ser acompanhada pela improvisação ousada, baseada amplamente na intuição e numa imaginação ativa e criativa.

O marxismo difere de todas as outras teorias socialistas pelo modo notável como combina a completa sobriedade científica na análise da situação real objetiva e o curso objetivo da evolução, com o reconhecimento mais enfático da importância da energia revolucionária, do gênio revolucionário criativo e a iniciativa revolucionária das massas – e também, é claro, de indivíduos, grupos, organizações e partidos que possuem um contato ativo com uma ou outra classe. [16]

Lênin enfatizava constantemente que era necessário ter consciência dos pensamentos e sentimentos das massas. Como Trotsky afirmou, “A arte de direção revolucionária em seus momentos mais críticos consiste nove décimos em saber como sentir o humor das massas. O maior poder de Lênin era a sua capacidade insuperável de detectar o sentimento das massas.” [17]

Somente na própria luta o partido pode descobrir o que as massas realmente pensam e são capazes de realizar. O marxismo não aceita nem o determinismo mecanicista, nem o fatalismo e nem o voluntarismo. Sua base é a dialética materialista e o princípio de que as massas descobrem suas próprias capacidades através da ação. Não existe nada em comum entre o realismo de Lênin e a passiva Realpolitik. Contra esta deve se contrapor, como Lenin afirmou, “a dialética revolucionária do realismo marxista, que enfatize as tarefas urgentes da classe avançada, e descubra no estado existente de coisas os elementos que levarão à sua subversão.” [18] Ele era ciente de que uma avaliação sóbria das forças reais é necessária, e que o próprio partido revolucionário é um fator central na correlação de forças. A audácia do partido dá confiança aos trabalhadores, enquanto a falta de resolução pode levar as massas à passividade e a sentimentos de depressão. O único caminho para determinar a correlação de forças, e a vontade das massas para lutar, é pela ação na qual o partido tem um papel dirigente.

Na medida em que a luta revolucionária se desenvolve e se modifica, é preciso cuidado para não ficar amarrado a táticas que perderam a eficácia e a utilidade. O erro mais perigoso e devastador que um dirigente revolucionário pode cometer é o de ficar preso a fórmulas que até ontem eram apropriadas, mas que já não são adequadas à nova correlação de forças de hoje. Isso ocorre com muita frequência, principalmente em momentos de viradas históricas bruscas. Mesmo partidos revolucionários se mostram momentaneamente incapazes de se adaptar à nova situação e continuam repetindo bandeiras que eram corretas anteriormente, mas que na nova situação perderam todo o sentido, de uma maneira tão brusca como se deu a virada história.

Na vida revolucionária, a questão do timing é crucial. Deve se determinar tão exatamente quanto possível o passo em que a revolução está se desenvolvendo. Sem isso, nenhuma tática realista é possível. Na realidade, a perspectiva que se tem em relação ao tempo dos acontecimentos nunca será absolutamente precisa, e se terá que introduzir, tão depressa quanto possível, a necessária correção no timing.

Para que a tática e a estratégia estejam ajustadas aos princípios gerais do partido, elas devem ser claras e diretas. Para que as massas possam entender a política do partido revolucionário, elas não devem ser inundadas com detalhes, distraindo a atenção do núcleo central da política do partido. A política do partido deve ser expressa em um número pequeno de slogans simples e claros. “Uma política direta é a melhor política. Uma política baseada em princípios é a política mais prática.” [19]

“Em uma análise final, a política ampla, de princípios, é a única política real, prática… Qualquer um que agarre os problemas parciais sem ter previamente situado os problemas gerais, se chocará inevitavelmente e a cada passo com aqueles problemas gerais, sem se dar conta disto. Chocar-se com eles cegamente em cada caso individual é conduzir a política à pior vacilação e falta de princípios.” [20]

“Uma linha de conduta pode e deve estar baseada na teoria, em referências históricas, em uma análise de toda situação política, etc. Mas em todas estas discussões o partido de uma classe engajado em uma luta nunca deve perder de vista a necessidade de oferecer respostas absolutamente claras – que não permitam uma interpretação dupla – para questões concretas de nossa conduta política: “Sim” ou “não”? Isto deve ser feito agora mesmo ou não?” [21

Deve se calcular a relação de forças de maneira extremamente sóbria e realista e então, uma vez que uma decisão tenha sido tomada, agir de maneira decidida. “Não existe nenhum homem com menos coragem do que eu quando estou trabalhando em um plano militar”, assim escreveu Napoleão para o General Berthier. “Eu exagero todos os perigos e todos os infortúnios possíveis… Quando minha decisão é tomada tudo é esquecido, exceto o que pode assegurar seu sucesso.”

Após fazer essa citação, Trotsky comenta,

“Com a exceção do inadequado termo “falta de coragem”, a essência deste pensamento se aplica perfeitamente a Lênin. Na decisão de um problema estratégico ele começava vestindo o inimigo com a sua própria resolução e capacidade de previsão. Os erros táticos de Lenin eram, na maior parte, subprodutos de seu poder estratégico.” [22]

A formulação de um projeto audacioso com base em premissas não favoráveis era uma característica de Lênin.

                                                   “Agarrando o elo principal”

Lênin nos mostra que na complexa cadeia da ação política se deve sempre identificar o elo central no momento em questão, a fim de agarrá-lo e dar uma direção à cadeia inteira.

“Cada questão ‘corre em um círculo vicioso’ porque a vida política como um todo é uma cadeia infinita que consiste em um número infinito de elos. Toda a arte da política está em encontrar e tomar, da maneira mais firme possível, o elo menos provável de ser tirado de nossas mãos, aquele que é o mais importante em um dado momento, aquele que, acima de tudo, garante a seu possuidor a posse de toda a cadeia.” [23]

Ele retornou com frequência a esta metáfora, e na prática sempre obedeceu à regra que ilustrava. Durante os períodos mais críticos, foi capaz de deixar de lado os fatores secundários e agarrar o fator central. Ele abandonava qualquer coisa que pudesse direta ou indiretamente desviá-lo do tema principal. Sobre isso Trotsky disse:

“… Quando o obstáculo crítico era felizmente clareado, Lênin ainda exclamaria: “E no entanto esquecemos de fazer isto ou aquilo (…)” Ou “Nós perdemos uma oportunidade porque nós estávamos preocupados demais com a questão principal (…)” Alguém lhe responderia: “Mas esta questão tinha sido colocada, e esta proposta foi feita, só você não quis escutar!” (…) “Não? Impossível! (…) eu não me lembro de nada.” Responderia Lênin.

A essa altura ele começaria a rir. Um riso malicioso de quem admitia a “culpa”. Faria um gesto característico de levantar o braço e deixá-lo cair, como se estivesse resignado: bem, não se pode fazer tudo… Esta sua “negligência” era apenas o reverso de seu talento para mobilizar, ao grau extremo, todas suas forças internas. Justamente este talento tornou-o o maior revolucionário da história.” [24]

Novamente Trotsky escreve:

“Vladimir Ilyich era frequentemente criticado por muitos camaradas, inclusive eu, por não prestar atenção a questões secundárias e outros assuntos laterais. Eu devia pensar que em tempos de desenvolvimento lento e ‘normal’ isto poderia ser um defeito em um dirigente político. Mas nisto estava a preeminência do camarada Lênin como dirigente de uma nova época, na qual tudo que é secundário, tudo que é incidental e secundário permanece ao fundo, obscurecido, permanecendo apenas o básico e irreconciliável antagonismo de classes na forma aguda de guerra civil. Era o talento peculiar do Lênin, o qual possuía no mais alto grau, que com seu intenso olhar revolucionário pudesse enxergar e apontar aos demais o que era mais importante, mais necessário, e mais essencial. Aqueles camaradas que, como eu próprio, tiveram a chance de observar de perto a atividade de Lênin e a sua mente em ação, não podiam senão admirar entusiasticamente – sim, eu repito, admirar entusiasticamente – a perspicácia, a agudez de seu pensamento que rejeitava tudo que era externo, acidental, superficial, e atingia o centro da questão e compreendia os métodos essenciais de ação.” [25]

Ele cometeu erros táticos – em grande medida por causa da sua concentração sobre o elo essencial e por suas longas ausências do cenário da ação. Mas o outro lado da moeda era seu magnífico senso estratégico. A estratégia do partido era implacavelmente definida à distância, mesmo com erros táticos de avaliação.

Em princípio, Lênin estava certo quando insistia em “esticar o bastão” um dia em uma direção, outro na oposta. Se todos os aspectos do movimento operário se desenvolvessem igualmente, se o crescimento equilibrado fosse a regra, nesse caso o ato de “esticar o bastão” teria um efeito danoso ao movimento. Mas na vida real, predomina a lei do desenvolvimento desigual. Um aspecto do movimento é decisivo em um momento particular. O obstáculo principal para o avanço pode ser a falta de quadros partidários ou, pelo contrário, o conservadorismo dos quadros do partido pode levá-los a ficar na retaguarda da seção avançada da classe. Uma perfeita sincronização de todos os elementos tornaria desnecessário “esticar o bastão”, mas também tornaria supérflua a existência de um partido revolucionário ou de uma direção revolucionária.

Intuição e Coragem

A mais sóbria avaliação da situação objetiva não é o bastante para o desenvolvimento de uma estratégia e tática revolucionárias. Acima de tudo, um dirigente revolucionário deve ser dotado de uma intuição muito aguda.

Em uma situação revolucionária, quando os fatores desconhecidos e imponderáveis são muitos, e tudo está sujeito ao acaso e complicações, uma vontade forte não é suficiente. O que é necessário é a capacidade para entender rapidamente a totalidade da situação, distinguir o essencial do secundário, preencher as partes que faltam do quadro. Toda revolução é uma equação com muitos fatores desconhecidos. Consequentemente, um líder revolucionário tem que ser dotado de uma imaginação altamente realista.

À parte uma breve interrupção em 1905, Lênin passou no estrangeiro os 15 anos que precederam a revolução. Seu sentido de realidade, sua capacidade de sentir o humor dos trabalhadores, não diminuiu com o passar do tempo, mas aumentou. Sua imaginação realista estava enraizada numa profunda compreensão teórica, uma boa memória e pensamento criativo. Era alimentada por reuniões ocasionais com pessoas que iam encontrá-lo no exílio.

Sua intuição revolucionária era fantástica. Aqui está apenas um exemplo, mostrando como ele conseguiu visualizar toda uma situação política social a partir de uma única frase pronunciada por um trabalhador, frase que provavelmente teria passado desapercebida por uma outra pessoa.

“Após as jornadas de julho, graças à atenção extremamente solícita com que o governo de Kerensky me honrou, fui obrigado a ir para a clandestinidade… Em uma casa de uma família em um subúrbio operário distante de Petrogrado, o jantar está sendo servido. A anfitriã põe pão na mesa. O anfitrião diz: ‘Olhe que pão bom. ‘Eles’ não ousam nos dar pão ruim agora. E quase desistimos até mesmo de pensar que um dia voltaríamos a ter bons pães em Petrogrado’.”

“Eu estava pasmo com esta avaliação de classe das jornadas de julho. Meus pensamentos estavam analisando o significado político daqueles eventos, pesando o seu papel no curso geral dos acontecimentos, analisando a situação que causou este zigue-zague na história e a situação que criaria, e como nós devíamos mudar nossos slogans e alterar nosso aparato partidário para adaptá-lo à nova situação. Com relação ao pão, sequer havia pensado a respeito. Eu tomava o pão como algo garantido…”

“Este membro da classe oprimida, porém, embora um dos trabalhadores bem pagos e bastante inteligente, agarra o touro pelos chifres com aquela simplicidade e franqueza surpreendente, com aquela determinação firme e clareza surpreendente de avaliação de que nós, intelectuais, estamos tão distantes quanto as estrelas no céu. O mundo inteiro é dividido em dois campos: “Nós”, as pessoas que trabalham, e “eles”, os exploradores. Não há uma sombra de embaraço sobre o que havia ocorrido. Era apenas uma das batalhas na longa luta entre o Trabalho e o Capital. Quando se derruba árvores, voam lascas.”

“Que coisa dolorosa é a ‘situação excepcionalmente complicada’ criada pela revolução”. É assim que o intelectual burguês pensa e sente.”

“Nós apertamos ‘eles’ um pouco. ‘Eles’ não ousam nos dominar como antes. Nós os apertaremos novamente – e os expulsaremos completamente”. É assim que o trabalhador pensa e sente.” [26]

Krupskaya estava absolutamente certa quando escreveu: “Ilyich sempre teve um instinto um tanto especial – uma compreensão profunda sobre o que a classe trabalhadora estava passando em um dado momento.” [27] A intuição é especialmente vital para apreender os sentimentos das massas nos momentos mais dramáticos da história, e nisso Lênin era excepcional. “A capacidade de pensar e sentir pelas e com as massas era uma característica que Lênin possuía no mais alto grau, especialmente nos grandes momentos políticos decisivos.” [28]

Uma vez que a decisão sobre certas táticas for tomada, o dirigente revolucionário não deve demonstrar nenhuma vacilação. Deve ter uma coragem suprema. E isso não faltava a Lênin. M.N. Pokrovsky descreve bem esta qualidade característica.

“Agora, examinando o passado, me parece que uma das características básicas de Lênin era a sua tremenda coragem política. A coragem política não é o mesmo que bravura e desafio do perigo. Entre revolucionários não têm faltado pessoas valentes sem medo da forca ou dos cárceres da Sibéria. Mas essas mesmas pessoas tinham medo de assumir o fardo de tomar grandes decisões políticas. Era sempre claro que Lênin nunca temia assumir a responsabilidade pelas decisões, não importa que pesado. Neste aspecto ele nunca correu de qualquer risco e assumiu a responsabilidade por movimentos que envolviam não só a sua pessoa e o destino de seu partido, mas também o destino de todo o país e, em certo grau, o destino da revolução mundial. Este era um fenômeno tão peculiar que ele sempre teve que começar a sua ação com um grupo muito pequeno de pessoas, porque só muito poucos eram corajosos o suficiente para segui-lo desde o começo.” [29]

Muitos “marxistas” tentaram evitar a obrigação de alcançar decisões importantes, atribuindo ao marxismo uma natureza fatalista. Esta era a característica dos mencheviques. Em toda as crises, demonstraram dúvida, vacilação e medo. Uma revolução, porém, é o método mais impiedoso de resolver questões sociais. E a indecisão é a pior condição possível em uma época de revolução. Lênin foi o mais consistente de revolucionários. Era supremo em sua coragem de decisão, em sua prontidão para assumir a responsabilidade pelas ações mais importantes.

Sonho e Realidade

Para levar adiante e executar a estratégia e tática revolucionárias, deve-se ser não só um realista, mas também um sonhador. Muitos escritores descrevem Lênin como um realista e não como um romântico, e isso é uma injustiça. Não se pode ser um revolucionário sem a inspiração de um grande sonho.

“Existem distâncias e distâncias,” escreveu Pisarev sobre a distância que separa sonho e realidade. “Meu sonho pode correr à frente da marcha natural dos acontecimentos ou pode desprender-se pela tangente em uma direção que nenhuma marcha natural dos acontecimentos prosseguirá. No primeiro caso meu sonho não causará qualquer dano. Pode até apoiar e aumentar a energia dos trabalhadores… não há nada em tais sonhos que possa distorcer ou paralisar o poder dos trabalhadores. Pelo contrário, se os homens fossem completamente destituídos da capacidade de sonhar dessa maneira, se não pudessem de vez em quando correr adiante e conceber mentalmente, em um quadro inteiro e completo, o produto que suas mãos estão apenas começando a moldar, então não posso imaginar que estímulo haveria em induzir os homens a empreender e realizar um trabalho extenso e extenuante na esfera da arte, da ciência, esforços práticos… A distância entre sonhos e realidade não causa nenhum dano se somente a pessoa que sonha acredita seriamente em seu sonho, se observar atentamente a vida, se compara suas observações com os castelos erguidos no ar, e se, falando de modo geral, trabalha conscientemente para a realização de suas fantasias. Se existe alguma conexão entre os sonhos e a vida, então tudo está bem.” Este tipo de sonho existe, infelizmente, muito pouco em nosso movimento. E as pessoas mais responsáveis por isso são aqueles que ostentam suas visões sóbrias, sua “proximidade” com o “concreto”. [30]

Lênin subordinou sua própria veia romântica à necessidade de ação. Menosprezou o desinteresse da intelligentsia russa. Novamente, ele se referiu desdenhosamente a Oblomov, o herói da famosa novela de Goncharov, um “homem supérfluo”, sempre sonhando com grandes ações, mas muito preguiçoso e fraco para realizá-las.

Ferdinand Lassalle expressou bem o requisito fundamental da política revolucionária. “Toda grande ação começa com uma declaração do que é.” Lênin frequentemente costumava repetir em inglês, “Fatos são coisas teimosas.” O marxismo, disse, “toma posição a partir dos fatos, e não em possibilidades. Um marxista deve, como fundamento de sua política, colocar apenas fatos precisa e indiscutivelmente demonstráveis.” [31] Lênin sempre procurava a ponte entre o real e o possível. Ele não tinha medo de olhar diretamente o abismo entre a grandeza das tarefas que se colocavam diante do movimento, e a pobreza real do mesmo movimento. Seus pés estavam no chão, mas sua cabeça estava no céu.

O partido como escola de estratégia e tática

As questões de estratégia e tática revolucionárias tinham um significado para Lênin somente se a possibilidade de concretizá-las, através do partido revolucionário, fosse real. Ele via o partido como uma escola de estratégia e tática, uma organização de combate para a conquista do poder pela classe trabalhadora.

Como a direção revolucionária pode aprender das massas e saber o que elas pensam e sentem, se não for uma parte integral destas massas, escutando-as em seus locais de trabalho, nas ruas, nos lares, nos refeitórios? Para ensinar as massas, a direção deve aprender com elas. Lênin acreditou nisso e praticou-o durante toda a sua vida.

O partido não deve ficar atrás da seção avançada da classe. Mas ele não deve estar tão distante a ponto de ficar fora de alcance. Deve estar enraizado na linha de frente:

“Para ser bem sucedido, todo trabalho revolucionário sério exige que a ideia de que os revolucionários devem cumprir o papel de vanguarda da classe verdadeiramente viril e avançada dever ser compreendido e traduzido em ação. Uma vanguarda realiza sua tarefa como vanguarda somente quando for capaz de evitar o seu isolamento em relação à massa de pessoas que dirige e ser realmente capaz de fazer avançar o conjunto das massas.” [32]

A necessidade de um partido revolucionário, como já assinalamos, é um reflexo do nível desigual da consciência na classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, porém, a partido existe para apressar a superação desta desigualdade, elevando ao máximo o nível de consciência. A adaptação à consciência média ou ao nível mais baixo de consciência da classe faz parte da natureza de oportunismo. A independência e o isolamento organizativo em relação ao setor mais avançado do proletariado, por outro lado, é a estrada para sectarismo. Elevar o setor avançado ao nível mais elevado possível sob as circunstâncias prevalecentes – este é o papel de um partido realmente revolucionário.

Para aprender com as massas, o partido deve também ser capaz de aprender de seus próprios erros, ser bastante autocrítico.

“A atitude do partido político em relação aos seus próprios enganos é uma das maneiras mais importantes e seguras de julgar o quão sério é o partido e como realiza na prática as suas obrigações junto à sua classe e os trabalhadores. Reconhecendo sinceramente um erro, averiguando as razões do erro, e discutindo de que maneira retificá-lo – esta é a legitimidade de um partido sério. É como deve desempenhar seus deveres e como deve educar e treinar a sua classe, e então as massas.’ [33]

“O partido de combate da classe avançada não precisa temer erros. O que deve temer é a persistência em um engano, a recusa em admitir e corrigir um erro por causa de uma falsa sensação de vergonha.”

As massas devem ser envolvidas na correção dos erros do partido. Deste modo, em 21 de janeiro 1905, Lênin escreveu:

“Nós, socialdemocratas, recorremos ao segredo em relação ao Czar e seus cães de guarda, enquanto lamentamos que as pessoas deveriam saber tudo sobre nosso partido, sobre as opiniões existentes em seu interior, sobre o desenvolvimento de seu programa e política, que eles deveriam conhecer até o que este ou aquele delegado do Congresso de Partido disse no Congresso em questão.” [35]

O debate aberto é ainda mais vital e essencial durante um período de luta revolucionária direta, como Lênin escreveu em um folheto em 25-26 de abril de 1906.

“Em uma época revolucionária como esta, todos os erros teóricos e divergências táticas do partido são criticadas de maneira mais impiedosa pela própria experiência, que ilumina e educa a classe trabalhadora com rapidez sem precedentes. Em tal época, o dever de todo socialdemocrata é se esforçar para assegurar que a luta ideológica dentro do partido em questões de teoria e de tática seja conduzida da maneira mais aberta, extensa e livre possível, mas sem criar obstáculo, em hipótese alguma, à unidade da ação revolucionária do proletariado socialdemocrata.” [36]

Ele repetiu de maneira urgente que o debate não deveria ser limitado aos círculos internos do partido, mas deveria ser realizado publicamente, para que as pessoas de fora do partido pudessem acompanhar.

“A enfermidade séria de nosso partido são as dores crescentes de um partido de massas. Pois não pode haver nenhum partido de massas, nenhum partido de classe, sem clareza das diferenças essenciais, sem luta aberta entre as várias tendências, sem informar as massas sobre quais líderes e organizações do partido estão seguindo esta ou aquela linha. Sem isto, um partido merecedor deste nome não pode ser construído.” [37]

Novamente:

“A crítica dentro dos limites dos princípios do programa do partido deve ser bastante livre (lembramos ao leitor sobre o que Plekhanov disse acerca deste assunto no II Congresso do RSDLP) não só nas reuniões de partido, mas também em reuniões públicas. Tal crítica ou “agitação” (pois a crítica é inseparável da agitação) não pode ser proibida.’ [38]

“Existe uma relação dialética entre a democracia interna do partido e as raízes do partido na classe. Sem uma política de classe correta e um partido composto de proletários, não existe nenhuma possibilidade de uma democracia partidária saudável. Sem uma firme base operária, toda conversa de democracia e disciplina no partido é verborragia sem sentido. Ao mesmo tempo, sem democracia partidária, sem autocrítica constante, é impossível o desenvolvimento de uma correta política de classe.”

“Já declaramos mais de uma vez nossa visão teórica sobre a importância da disciplina e em como este conceito deve ser entendido no partido da classe trabalhadora. Nós a definimos como: Unidade de ação, liberdade de discussão e crítica. Só tal disciplina é merecedora do partido democrático da classe avançada.’ [39]

“(…) o proletariado não reconhece a unidade de ação sem a liberdade para discutir e criticar.” [40]

Se a democracia é essencial para que possamos assimilar a experiência da luta, o centralismo e a disciplina são necessários para dirigir a luta. A coesão organizativa firme possibilita ao partido agir, tomar iniciativas, dirigir a ação das massas. Um partido que não tem confiança nele mesmo não pode conquistar a confiança das massas. Sem uma direção de partido forte, com poder para agir prontamente e dirigir as atividades dos militantes, não pode haver um partido revolucionário. O partido é uma organização centralizada que leva uma luta determinada pelo poder. Como tal, o partido necessita de uma disciplina de ferro na ação.

Clausewitz sobre a Arte da Guerra

No princípio deste capítulo dissemos que o conceito de Lênin sobre estratégia e tática estava profundamente influenciado pelos escritos de Clausewitz. É necessário apenas citar Clausewitz para perceber uma semelhança surpreendente tanto na formulação quanto na atitude.

Clausewitz começa o seu livro “Sobre a Guerra” argumentando que existe uma diferença radical entre o conceito abstrato de guerra e as guerras concretas reais. A guerra real é diferente de guerra abstrata, diz Clausewitz, porque as condições idealizadas nunca se realizam. Os acontecimentos são governados não só pela simples causalidade, mas pela interseção de cadeias diferentes de causas e efeitos. O acaso desempenha um grande papel, os fatores psicológicos são importantes para determinar as decisões tomadas pelos homens. E assim por diante. Clausewitz classifica todas estas circunstâncias sob o termo “fricção”, uma referência óbvia ao conceito análogo da física que explica a discrepância entre processos mecânicos reais e idealizados. Só levando em conta a “fricção” é que se pode apreender a relação entre a guerra real e a abstrata, entre experiência e teoria. Esta é a fonte da “diferença entre a realidade e a concepção” da guerra e “a influência de circunstâncias particulares”. [41]

Para trazer o conceito em linha com o mundo real, é preciso “recuar nos resultados correspondentes de experiência; pois da mesma maneira que muitas plantas só carregam frutos quando não crescem demais, também nas artes práticas as folhas e flores teóricas não devem ser feitas para brotar demasiado longe, mas devem se manter perto da experiência, que é o seu solo adequado.” [42]

A arte da guerra depende de muitas ciências – física, geografia, psicologia, etc. –, mas não obstante é uma arte. O grande líder de uma guerra é aquele que consegue aprender como usar estas ciências para a tarefa específica de esmagar o inimigo. Por causa da complexidade da guerra, o comandante precisa, acima de tudo, de experiência e força de vontade, de um lado, e de intuição e imaginação, de outro.

“… Toda guerra é rica em fatos particulares, enquanto ao mesmo tempo cada um deles é um mar inexplorado, cheio de rochas sobre as quais o general pode ter uma suspeita, mas as quais ele nunca viu com seus próprios olhos, e que, além disso, devem ser contornadas durante a noite. Se um vento contrário também surgir, isto é, se qualquer grande evento acidental mostrar-se como uma adversidade, então torna-se necessária a mais consumada habilidade, presença de mente e energia… O conhecimento desta fricção é uma parte essencial da tão falada experiência em guerra, que se exige de um bom general. (…) Mas um general deve ter ciência de que pode superá-la, deve saber onde isto será possível, e que não pode esperar um grau de precisão nos resultados(…) Além disso, nunca pode ser teoricamente aprendido.” [43]

Clausewitz formulou muito bem a relação entre tática e estratégia.

“A estratégia é o emprego da batalha para ganhar o fim da guerra. Deve, portanto, proporcionar uma meta para toda a ação militar, e que deve estar em conformidade com o objeto da guerra. Em outras palavras, a estratégia forma o plano da guerra, e para este fim ela vincula as séries de atos que levarão à decisão final, quer dizer, faz os planos para as campanhas separadas e regula os combates para serem travados. Como todas estas coisas, em grande medida, só podem ser determinadas em conjeturas, algumas das quais incorretas, enquanto vários outros arranjos relacionados a detalhes não podem ser feitos antecipadamente, segue, como de costume, que a estratégia deve ir com o exército para o campo de batalha para organizar pormenores naquele mesmo lugar, e fazer as modificações no plano geral que são incessantemente necessárias em uma guerra. A estratégia nunca pode deixar de operar por um momento sequer.” [44]

A tática deve ser subordinada à estratégia. Uma série bem sucedida de movimentos táticos pode, porém, necessitar de uma mudança na estratégia.

“(…) o grande ponto é manter as relações predominantes de ambos as partidos à vista. Fora deles um centro de gravidade, um centro do poder e de movimento se formará, do qual tudo depende. E contra este centro de gravidade do inimigo, o golpe concentrado de todas as forças deve ser dirigido.”

“O pequeno sempre depende do grande, o que é sem importância do importante, e o acidental do essencial. Isto deve guiar nossa visão.” [45]

“(…) A superioridade no ponto decisivo é uma questão de importância capital e (…) este tema, na generalidade de casos, é decididamente o mais importante de todos. ‘

A mente não dogmática de Clausewitz possibilitou-o de apreender claramente a relação entre o modelo idealizado e a realidade que se pretende representar. Entendeu as relações orgânicas entre teoria e prática no desenvolvimento de ambos. Ele sublinhou a conexão entre as ciências cuja adaptação é necessária para direção bem sucedida em guerra, e a arte de guerra. Acima de tudo, entendeu a grande importância do gênio da intuição apoiada por uma noção conceitual científica clara.

As ideias de Clausewitz influenciaram os escritos militares de Frederick Engels, e ambos – Clausewitz e Engels – influenciaram muito Lênin. A genialidade de Lênin está no fato de que estes conceitos de tática e estratégia, com sua integração complexa de experiência, ciência e arte, não só se tornaram parte de seu pensamento, mas também penetraram em seu sangue. Instintiva e rapidamente Lênin desenvolveu a estratégia e tática mais efetivas, e a sua força de vontade esteve à altura de seu intelecto.

A sua capacidade enquanto estrategista e tático floresceu durante a revolução de 1905, e demonstrou a sua força e maestria doze anos depois, com a vitória da Revolução de outubro de 1917. 

Notas

  1. Lenin, Collected Works, vol.24, p.43.
  2. ibid., vol.30, p.356.
  3. ibid., vol.35, p.131.
  4. ibid., vol.9, p.86.
  5. ibid., vol.7, p.65.
  6. ibid., vol.27, p.48.
  7. ibid., vol.26, p.135.
  8. ibid., p.56.
  9. ibid., vol.9, p.103.
  10. Molodaia gvardiia, Fevereiro-Março 1924, p.248.
  11. Gramsci, op. cit., p.201.
  12. Em suas reminiscências, M.N. Pokrovsky relata como os bolcheviques em 1908 enviaram uma delegação a Lenin, da qual ele mesmo fazia parte, pedindo-lhe para desistir de seus estudos filosóficos e retornar à política prática. Lenin, porém, recusou. Ver I. Deutscher, Stalin, London 1949, p.116.
  13. Lenin, Collected Works, vol.17, p.280.
  14. ibid., vol.9, p.146.
  15. Trotsky, Terrorism and Communism, University of Michigan Press 1961, p.101.
  16. Lenin, Collected Works, vol.13, p.36.
  17. Trotsky, History of the Russian Revolution, op. cit., p.138.
  18. Lenin, Collected Works, vol.9, p.149.
  19. ibid., vol.12, p.22.
  20. ibid., p.489.
  21. ibid., vol.9, p.262.
  22. Trotsky, History of the Russian Revolution, op. cit., p.978.
  23. Lenin, Collected Works, vol.5, p.502.
  24. Trotsky, On Lenin, London 1971, pp.124-5.
  25. ibid., pp.193-4.
  26. Can the Bolsheviks retain state power?, in Lenin, Collected Works, vol.26, p.120.
  27. Krupskaya, op. cit., p.106.
  28. Trotsky, Diary in Exile, London 1958, p.81.
  29. T. Deutscher, ed., Not by Politics Alone, London 1973, p.71.
  30. Lenin, Collected Works, vol.5, pp.509-10.
  31. ibid., vol.35, p.242.
  32. ibid., vol.33, p.227.
  33. ibid., vol.31, p.57.
  34. ibid., vol.26, p.58.
  35. ibid., vol.8, p.523.
  36. ibid., vol.10, pp.310-1.
  37. ibid., vol.13, p.159.
  38. ibid., vol.10, pp.442-3.
  39. ibid., vol.11, p.230.
  40. ibid., vol.11, p.321.
  41. Carl von Clausewitz, On War, London 1971, pp.164-5.
  42. ibid., p.91.
  43. ibid., p.166.
  44. ibid., p.241.
  45. ibid., p.389.
  46. ibid., p.266.

 

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