Carta de rompimento de Natalia Sedova Trotsky com a IV Internacional

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Esta carta de Natalia Sedova à direção da IV Internacional data de 1951. Foi publicado em junho daquele ano na Revista Labor Action. Natalia foi companheira de Trotsky de 1903 até o seu assassinato em 1940. Ela foi militante revolucionária desde a juventude até seus últimos dias em México. Nesta carta, Natalia Sedova aponta as contradições da política da IV Internacional, especialmente na caracterização dos regimes stalinistas surgidos durante e após a II Guerra como “Estados operários degenerados”.

Carta de rompimento de Natalia Sedova Trotsky com a IV Internacional

Ao Comitê Executivo da Quarta Internacional

ao Comitê Político do Socialist Workers Party

Camaradas,

Vocês sabem muito bem que não tenho estado de acordo politicamente com vocês durante os últimos cinco ou seis anos, desde o final da guerra e até mesmo antes. As posições tomadas por vocês sobre os importantes acontecimentos dos últimos tempos, demonstram que, em vez de corrigirem seus erros anteriores, vocês persistem neles e os aprofundam. Na rota que vocês assumiram, atingiu-se um ponto em que já não me é possível permanecer silenciosa ou me limitar a protestos privados. Devo expressar agora minhas opiniões publicamente.

Sinto­-me obrigada a dar um passo grave e difícil para mim, e só posso lamentá­-lo sinceramente. Mas não há outra via. Após muitas reflexões e hesitações sobre um problema que me afligiu profundamente, acredito que não há outra maneira senão dizer-­lhes abertamente que nossos desacordos não me permitem permanecer mais tempo em suas fileiras.

As razões para esta minha atitude final são conhecidas pela maioria entre vocês. Eu as repito aqui brevemente somente para aqueles que não estão familiarizados com as mesmas, mencionando apenas nossas diferenças fundamentais e não as diferenças sobre questões de política cotidiana que estão relacionadas àquelas ou que delas decorrem.

Obcecados por fórmulas velhas e ultrapassadas, vocês continuam considerando o estado stalinista como um Estado operário.

Eu não posso e não seguirei vocês nesse ponto. Depois do começo da luta contra a burocracia deslocando para a direita, sob as condições de retardo da revolução mundial e da conquista de todas as posições políticas na Rússia pela burocracia. Repetidas vezes ele sublinhou que a consolidação do stalinismo na Rússia conduzia a uma deterioração das posições econômicas, políticas e sociais da classe operária, e ao triunfo de uma aristocracia tirânica e privilegiada. Se esta tendência continuar, disse ele, a revolução chegará a um fim e o capitalismo será restaurado. 

Infelizmente, isso é o que aconteceu, ainda que em formas novas e inesperadas. Dificilmente há um país no mundo onde as ideias e defensores autênticos do socialismo sejam perseguidos de maneira tão bárbara. Deveria estar claro para qualquer um que a revolução foi completamente destruída pelo stalinismo, não obstante vocês ainda continuarem a dizer que sob este regime inominável, a Rússia é ainda um Estado operário. Considero isto como um golpe desfechado ao socialismo. O stalinismo e o Estado stanilista não têm absolutamente nada em comum com um Estado operário e com o socialismo. Eles são os mais perigosos inimigos do socialismo e do proletariado.

Vocês consideram agora que os Estados da Europa Oriental, sobre os quais o stalinismo estabeleceu sua dominação durante e após a guerra, são igualmente Estados operários. Isto é equivalente a dizer que o stalinismo preencheu um papel socialista revolucionário. Eu não posso e não quero segui­-los neste ponto. Após a guerra e antes mesmo que terminasse, houve um movimento revolucionário ascendente das massas nestes países. Mas não foram as massas que tomaram o poder e não foram estabelecidos Estados operários pelas suas lutas. É a contrarrevolução stalinista que se apossou do poder, reduzindo esses países ao estado de vassalos do Kremlin, estrangulando as massas trabalhadoras, as suas lutas e aspirações revolucionárias. Ao considerar que a burocracia stalinista estabeleceu Estados operários nesses países, vocês lhe atribuem um papel progressista e até mesmo revolucionário. Ao propagarem esta inverdade monstruosa vocês negam à IV Internacional qualquer razão fundamental de existência como partido mundial da revolução socialista. No passado, nós sempre consideramos o stalinismo como uma força contrarrevolucionária em todos os sentidos do termo. Vocês já não o fazem, mas eu continuo a fazê-­lo.

Em 1932 e 1933, para justificar a capitulação desavergonhada diante do hitlerismo, os stalinistas declararam que pouco importava se os fascistas chegassem ao poder, porque o socialismo viria depois e através do domínio do fascismo. Só brutos desprovidos de humanidade sem uma gota de pensamento e espírito socialistas poderiam se expressar assim. Hoje, independentemente dos objetivos revolucionários que animam vocês, pretendem que a reação stalinista despótica triunfou na Europa Oriental é uma das vias pelas quais o socialismo eventualmente virá. Este ponto de vista marca uma ruptura irremediável com as convicções mais profundas que nosso movimento sempre defendeu e que continuo a partilhar.

É impossível segui­los na questão do regime de Tito na Iugoslávia. Toda a simpatia e todo o apoio dos revolucionários, e até de todos os democratas, deveriam ser levados ao povo iugoslavo na sua resistência determinada aos esforços de Moscou para reduzir­-lhes e reduzir seu país à servidão, é necessário aproveitar cada concessão que o regime iugoslavo é agora obrigado a fazer ao seu povo. Mas toda a sua imprensa agora está consagrada a uma indesculpável idealização da burocracia titoísta, para a qual não há nenhuma base nas tradições e princípios de nosso movimento. Essa burocracia não é mais que uma réplica, sob uma nova forma, da velha burocracia stalinista. Ela foi educada nas ideias, na política e na moral da GPU. Seu regime não difere em nada de fundamental do regime de Stalin. É absurdo crer ou ensinar que a direção revolucionária do povo iugoslavo desenvolver­-se­-á desta burocracia ou por outras vias que não a de uma luta contra ela.

O que é mais insuportável que tudo é a posição sobre a guerra com a qual vocês se comprometeram. A terceira guerra mundial que ameaça a humanidade põe o movimento revolucionário diante dos problemas mais difíceis, as situações mais complexas, as decisões mais graves. Nossa posição pode ser tomada apenas após discussões feitas da maneira mais séria e mais livre. Mas face aos acontecimentos dos anos recentes, vocês continuam a preconizar a defesa do Estado stalinista e engajando todo o movimento operário nela. Vocês apóiam inclusive agora os exércitos do stalinismo na guerra à qual está submetido o crucificado povo coreano. Eu não posso e nem quero segui­los neste ponto. Em 1927 que Trotsky, em uma resposta a uma questão desleal dirigida a ele no Burô Político, expôs suas posições como segue: Pela pátria socialista, sim! Pelo regime stalinista, não! Isso foi em 1927! Hoje, vinte e três anos depois, Stalin nada deixou da pátria socialista. Ela foi substituída pela escravização e pela degradação do povo pela autocracia stalinista. Este é o estado que vocês propõem defender na guerra, que vocês já estão defendendo na Coréia. Sei muito bem que vocês dizem seguidamente criticar o stalinismo e que o estão combatendo. Mas o fato é que a sua crítica e sua luta perderam o seu valor e não podem dar resultados, porque são determinadas pela posição de defesa do estado stalinista e subordinadas a ela. Quem quer que defenda esse regime de opressão bárbara abandona, independente dos seus motivos, os princípios do socialismo e do internacionalismo.

Na mensagem que me foi enviada pelo último congresso do SWP, está escrito que as ideias de Trotsky continuam a guiá­los. Devo dizer­-lhes que li estas palavras com muita amargura. Como puderam constatar pelo que acabo de escrever, não vejo as ideias dele nas suas políticas. Eu tenho confiança nessas ideias. Permaneço convencida de que a única saída para a situação atual é a revolução social, a auto-emancipação do proletariado mundial.

Natalia Sedova Trotsky

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Uma resposta para Carta de rompimento de Natalia Sedova Trotsky com a IV Internacional

  1. Aqui um texto anterior assinado por Sedova, Muniz e Péret (La IV Internacional en peligro, México, D.F., 27 junio 1947)

    http://marxists.catbull.com/espanol/peret/1947_iv_pel.htm

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