Luta de Classes – Colin Barker

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Este texto de Colin Barker é mais do que uma introdução à importância vital do conceito de “luta de classes” para o marxismo. Ele introduz debates e questões que aprofundam nossa compreensão sobre o tema, evitando o reducionismo economicista comum às leituras esquemáticas e apressadas de Marx e demais teóricos marxistas. Mas a relevância do texto de Barker não é puramente teórico. Ao contrário do academicismo, introduz elementos valiosos para a ação revolucionária. O texto original, “Class Struggle”, pode ser acessado em http://goo.gl/gziHS8. Colin Barker é um professor aposentado de sociologia na Manchester Metropolitan University (Inglaterra). Veterano militante socialista, produziu um grande número de ensaios e livros. O texto pode ser baixado em pdf clicando Colin Barker – Luta de classes.

Luta de Classesi

Colin Barker

Luta de classes é uma das noções centrais do marxismo. No entanto, Marx negou qualquer crédito na descoberta das classes ou da luta entre as mesmas. Escritores burgueses já haviam descrito o desenvolvimento desta luta e a anatomia econômica das classes.

O que de novo eu fiz, foi: 1) demonstrar que a existência das classes está apenas ligada a determinadas fases de desenvolvimento histórico da produção; 2) que a luta das classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; 3)que esta mesma ditadura só constitui a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes. […]” (Carta a J Weydemeyer, 5 de março de 1852) ii

Luta de classes possui um significado complexo para Marx: define simultaneamente uma dinâmica-chave nas sociedades ‘civilizadas’ e um meio decisivo para a futura transformação e auto-abolição da sociedade moderna. Desde o desenvolvimento da agricultura, a luta de classes tem caracterizado a história humana. Nas palavras do Manifesto do Partido Comunista de 1848:

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo [Leibeigener], burgueses de corporação [Zunftbürger] e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.”iii

A luta de classes é um princípio intrínseco a qualquer sociedade humana baseada na exploração, ainda que suas manifestações variem imensamente. Para Marx, a chave para entender qualquer tipo de sociedade (de classes) é a forma predominante em que uma classe extrai o trabalho excedente não pago de outra classe (Capital, Volume IIIiv; ver também Capital, Volume 1v). A extração de excedente – i.e. exploração – envolve a sujeição da vontade e atividade da maioria ao controle de uma minoria, limitando os meios da maioria no suprimento de suas necessidades cotidianas. Tal situação de sujeição e limitação leva à resistência da maioria explorada, o que, por sua vez, provoca ações de contenção e repressão por parte da minoria.

A luta de classes não é algo em que somente as classes subordinadas se envolvem. Ambos os lados em luta são ativos, cada um deles atuando para bloquear as necessidades e desejos do outro, cada lado estabelecendo estratégias de maneira mais ou menos consciente, cada um registrando vitórias e derrotas. As classes dominantes organizam-se ativamente para conseguir a subordinação dos explorados, para assegurar que o trabalho excedente seja convertido em riqueza e poder para si. Os oprimidos resistem, desenvolvendo suas próprias formas de organização.

O uso do termo classe por Marx é diferente do uso predominante na sociologia moderna, que segue a Max Weber. Webervi vinculou as “classes” a mercados, tratando a divisão social nas sociedades desprovidas de mercado como sendo baseada no privilégio arraigado no pertencimento a “estamentos” em vez de “classes”. Marx aplica o mesmo termo, luta de classes, para todas as sociedades – antiga, feudal e capitalista – sem levar em consideração as relações de mercado. Pois todas são moldadas pela luta sobre a extração de trabalho excedente – uma noção ausente na maior parte da sociologia. A concepção sociológica não envolve nenhuma suposição sobre relações sociais entre classes, além do tipo ‘escalar’, como as marcas encontradas em uma régua. Ao contrário, para Marx as classes só podem ser definidas na relação entre ambas, no antagonismo e dependência recíprocos que surgem da opressão e exploração. Em um aspecto importante, como E. P. Thompson (1978) notou, o termo marxista “luta de classes” precede a “formação de classe”, tanto conceitual quanto historicamente.

Enquanto Marx e Engels, assim como autores marxistas posteriores, exploraram a luta de classes na história antiga e medieval, a luta de classes no capitalismo tem importância especial, não só pelo seu papel projetado na destruição final da sociedade de classes. Marx nunca apresentou uma abordagem conclusiva da sua visão sobre as classes no capitalismo. O manuscrito de O Capital Volume 3 termina quando estava por abordar de forma direta essa questão. No entanto, toda a “crítica da economia política” de Marx está fundamentada em uma compreensão da luta de classes. O processo central do capital como movimento e relação social é a “acumulação” baseada na extração do trabalho excedente e sua conversão em valor em processo de autoexpansão. A acumulação – seja na sua forma dita “original”, baseada na violência, ou em sua forma estabelecida como reprodução ampliada – é um processo de luta entre capital e trabalho.

Todas as múltiplas necessidades dos trabalhadores – materiais, sociais e intelectuais -, chocam-se com o impulso inerente ao capital em se expandir, do mesmo modo como a fome sempre renovada do capital por mais-valia é contraditada pela resistência dos trabalhadores. No interior e ao redor dos circuitos de reprodução do capital, a reprodução da força de trabalho segue seu próprio caminho e seus próprios motivos opostos (Lebowitz, 2003). Em sua análise sobre a luta acerca da jornada de trabalho na Inglaterra, Marx sugeriu (O Capital vol. 1)vii que a mesma envolvia um choque entre dois direitos opostos, o direito à propriedade capitalista e o direito dos trabalhadores à preservação de suas próprias vidas. Entre esses direitos opostos, a “força decide”. Essa força é o poder relativo das partes em choque na luta de classes.

Essa luta, nas palavras do Manifesto, assume formas “ora francas, ora disfarçadas”. Roubo de bens, “corpo mole”, sabotagem, faltas, indisciplina, piadas e blasfêmias podem ser manifestações de luta de classes a partir de baixo tanto quanto campanhas e revoltas abertas. Nem todas as formas são necessariamente coletivas. Os que estão embaixo podem responder individualmente à sua própria opressão e exploração, mas podem também desenvolver formas de resistência mutuamente organizadas. Quando isso ocorre, são capazes de utilizar os recursos que as sociedades existentes lhes proporcionam – habitações de escravos, vilas camponesas, locais de trabalho e as comunidades urbanas – como base para sua própria auto-organização.

Nos modos de produção anteriores, a exploração podia alcançar um tipo de “equilíbrio” e estabilidade, sobre a base da tradição incrustada. No capitalismo, tal equilíbrio social é difícil de se manter. A própria classe capitalista está internamente dividida pela competição, o que resulta em uma pressão constante para acumular e inovar, conferindo às sociedades modernas um dinamismo incessante que não deixa nada intocado por muito tempo. É uma condição para o próprio desenvolvimento do capital que deva minar e remodelar continuamente suas próprias fundações, reproduzindo suas condições de existência em formas modificadas. O capital está, assim, provocando permanentemente novas formas de resistência, tanto a partir de suas próprias fileiras na forma de competição, quanto daqueles cujas vidas deve controlar através de formas renovadas de subordinação.

Enquanto as questões imediatas em qualquer conflito podem estar limitadas a detalhes da exploração cotidiana, a luta de classes sempre contém o potencial para provocar questionamentos mais gerais dos arranjos sociais existentes. Onde os explorados organizam suas forças para se engajar na luta coletiva, eles começam a desenvolver novas formas de associação humana cujos princípios, ainda que em forma embriônica, desafiam as relações existentes e revelam os esboços de novas constituições sociais. Na moderna sociedade capitalista, diz o Manifesto, o verdadeiro fruto das batalhas dos trabalhadores não está em suas vitórias ocasionais e frequentemente temporárias, mas na “união cada vez mais ampla dos trabalhadores”.viii Essa “união” assenta a base para uma forma de sociedade nova e superior.

O desenvolvimento da sociedade capitalista é marcado por “guerras de forma”, cujos resultados não estão preestabelecidos, mas estão em aberto, e em cujo desenrolar a possibilidade de desafiar os princípios e a dominação do capital está sempre presente. A discussão de Marx sobre a luta em torno da jornada de trabalho é um relato de uma “guerra de forma”. Enquanto Marx ligou esta luta ao desenvolvimento da mais-valia relativa e a subsunção real do trabalho, ele também a apresentou como uma batalha política para impor uma “economia política do trabalho” alternativa, em que o movimento dos trabalhadores contrapôs um conjunto de necessidades bastante diferentes às do capital.ix

Nas “guerras de forma” não estão em jogo apenas as formas políticas (Estado, lei, etc.) sob as quais a acumulação capitalista pode prosseguir, mas também a própria formação, consciência e organização dos movimentos de oposição, incluindo centralmente, mas não se limitando, a classe trabalhadora. Onde movimentos e partidos “subalternos” são permitidos (uma questão que é ela própria determinada através de lutas), as formas reais que os mesmos assumem e as atividades nas quais se engajam são matérias de disputa. Uma parte de seu desenvolvimento deriva de seus debates internos e das lições tiradas de erros e sucessos anteriores. Mas as ordens dominantes também intervêm ativamente para moldar e limitar o desenvolvimento das formas de oposição, através de uma variedade de meios. No capitalismo, todo o padrão é moldado por tendências contraditórias: de um lado, a tendência à unificação e à solidariedade diante do poder da classe dominante; de outro, refletindo as relações de mercado, uma tendência à desunião competitiva nas fileiras dos explorados e oprimidos. Esta última tendência pode ter múltiplas expressões, como nacionalismo, racismo, sexismo, carreirismo, localismo, etc. A história real dos movimentos revela a dialética entre esses polos.

Assim, a luta de classes não ocorre simplesmente entre as classes, mas também ocorre no interior das mesmas, em torno do sentido prático e teórico diante de situações concretas e sobre formas apropriada de atividade, organização e lealdade. É realizada, além disso, em um terreno político que inclui debates sobre como se relacionar às lutas de outras classes e agrupamentos. Assim, da mesma forma que os círculos das classes dominantes devem debater como reprimir, controlar, cooptar ou negociar com as forças sociais de “baixo”, a política da classe trabalhadora envolve respostas às lutas dos camponeses, imigrantes ou estudantes.

Lutas sobre “forma” são igualmente lutas sobre sentidos, sobre infundir cultura e linguagem (Volosinov, Williams). Em apoio à ideia de Marx, da luta de classes como meio para abolir as divisões de classe, há a sua abordagem dos seres humanos como seres que se autotransformam, e cujas atividades produtivas incluem a formação das relações sociais e de si próprios. Este tema, central às Teses sobre Feuerbach, síntese da visão filosófica de Marx, ressoa com força em A Ideologia Alemã de 1846. Aqui, Marx e Engels explicaram a necessidade da revolução popular, não simplesmente como a única forma efetiva para remover a classe dominante, mas igualmente como um meio pelo qual as classes insurgentes poderiam transformar-se em seres capazes de governar a sociedade.x A mesma ideia de “autotransformação através da luta” está presente nas palavras iniciais do esboço de Marx para o Estatuto da I Internacional: “… a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra da própria classe trabalhadora.” Mais tarde, na Revolução russa de 1905, o mesmo impulso levou Lenin a escrever sobre a “energia festiva dos trabalhadores”xi e Rosa Luxemburgo a registrar os enormes saltos espirituais e organizativos que o movimento dos trabalhadores havia conquistado com suas lutas de massas.xii

Nem Marx e nem os historiadores posteriores sugeriram em algum momento que os processos históricos pelos quais um modo de produção foi suplantado por outro foram processos plenamente conscientes e deliberados. A humanidade, poderia ser dito, “entrou” na sociedade de classes, no feudalismo ou no capitalismo, com o surgimento e consolidação de novas maneiras de organização da via social produtiva, que então se disseminaram abarcando áreas geográficas mais amplas. Contudo, Marx propôs que direções conscientes cumprirão um papel muito maior nas futuras revoluções sociais que transcenderão o capitalismo. Revoluções socialistas devem envolver um grau qualitativamente diferente de consciência e organização. Uma vez que o capitalismo forma uma totalidade, deve ser desafiado como um todo, o que requer uma compreensão desenvolvida da natureza do próprio sistema, assim como das forças que poderão destruí-lo. Uma política de ideais e teoria deve ter um papel muito maior.

Mas como isso deve ser pensado? Aqui a própria teoria e a prática de Marx parecem inconclusas, ambíguas. Existem momentos, por exemplo, em que o Manifesto apresenta o desenvolvimento histórico em termos de alternativas, ao lado de outros em que parecem expor uma projeção teleológica da organização e consciência da classe trabalhadora, conduzindo à vitória final do proletariado. Entre essas duas possibilidades, a única solução possível é a proposta por Richard Johnson (1982), de “ler o melhor Marx”. Toda a obra de Marx simplesmente tem mais sentido como uma teoria não teleológica, que trata a atividade humana e não alguma outra força extra-humana – seja a “história” ou “necessidade” ou “inevitabilidade” – como a força crucial na transformação social.

Está claro que Marx e Engels rejeitaram de maneira inequívoca o Blanquismo e todos os esquemas de revolução esquematizadas e iniciadas por minorias. Insistiam que a revolução socialista era o ato consciente da grande maioria.xiii Daí que, para Marx e Engels e para toda a tradição por eles inaugurada, questões sobre a consciência e a organização popular, os meios e formas de seu desenvolvimento eram de importância vital.

A tarefa dos comunistas era se envolver diretamente na “organização geral do proletariado revolucionário” e seu “esclarecimento teórico”. Eles não deveriam, como o Manifesto afirmava, formar um partido separado do movimento de classe, mas ser diretamente parte dele – “a seção mais resoluta e avançada”.xiv

Deveriam, como Engels escreveu sobre a esquerda norte-americana nos anos 1880, “ir para qualquer movimento operário real, aceitar seu ponto de partida real como tal e trabalhá-lo gradualmente ao nível teórico apontando como cada erro cometido, cada revés sofrido, era uma consequência necessária de visões teóricas equivocadas no programa original” (Carta a Florence Kelley-Wischnewetzky, 28 de dezembro de 1888). Isso implica em um diálogo ativo e constante entre os marxistas e os movimentos reais, em que se espera – como em todos os diálogos reais – que ambas as partes estejam preparadas para aprender e ensinar de maneira recíproca.

Esta visão significa que os socialistas devem desenvolver críticas não apenas às formas existentes de sociedade, mas igualmente aos próprios movimentos que desafiam seus efeitos. E a partir do interior desses movimentos. Assim, por exemplo, vemos que Marx apoiou e celebrou tanto o movimento cooperativo quanto os sindicatos, ao mesmo tempo em que também criticou essas formas de ação e organização coletivas por seus limites inerentes. Enquanto as cooperativas haviam provado na prática que a produção moderna podia ser realizada sem uma classe de senhores, e que os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como meio de dominação sobre o trabalhador, elas não podiam por si sós desafiar o crescimento global do monopólio na sociedade.xv Quanto aos sindicatos e greves, Marx (ao contrário de muitos outros socialistas de sua época) tinha uma visão muito positiva, especialmente porque elevavam o nível de organização e consciência da classe trabalhadora. Ao mesmo tempo, ele criticou o sindicalismo por se limitar à “guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente”, em vez de utilizar seu poder organizado para pôr um fim ao próprio sistema de salários. O movimento dos trabalhadores precisaria ir além das lutas econômicas, transformando-se em movimento político, “um movimento da classe, com o objetivo de forçar seus interesses em uma forma geral, em uma forma com força geral, socialmente coercitiva” (Carta a F Bolte, 23 de novembro de 1871). Assim, Marx e Engels apoiaram firmemente o desenvolvimento de movimento geral da classe trabalhadora que se envolvesse na política nacional, um passo que contava com a oposição de várias escolas socialistas e anarquistas do século 19.

Como tais avanços poderiam ocorrer? Uma maneira de ver, teorizada por marxistas, é através da distinção entre a “classe em si” e a “classe para si”. A “classe em si”, definida em termos de suas relações antagônicas com outra classe, é parte de um sistema de relações sociais considerada abstratamente pela economia política, onde os indivíduos aparecem somente como “portadores de relações sociais”. A “classe em si” não implica em um padrão organizado de relação entre seus próprios membros, e não precisam compartilhar nada por meio de noções subjetivas. Ao contrário, uma “classe para si” implica em projetos comuns e organização conjunta, interações mútuas ativas entre seus membros, compreensões comuns e compromissos mútuos. “Classe para si” requer subjetividade, comunicação dialógica ativa e ação coletiva. Há uma descontinuidade radical entre as duas categorias e os tipos de análise que elas requerem, e a transição da primeira para a segunda envolve uma importante distinção e ruptura.

Marx, discutindo épocas de revolução social, distinguiu entre as transformações das condições materiais de produção e as formas ideológicas pelas quais os seres humanos se tornam conscientes e enfrentam os conflitos subjacentes.xvi De maneira semelhante, em cada modo de produção podemos distinguir entre processos fundamentais de luta de classes ao lado de questões primordiais ao redor dos quais necessariamente orbitam, e as formas política, legal, filosófica, religiosa e estética nas quais as pessoas realmente vivem e enfrentam esses processos e questões.

Um tema se torna rapidamente aparente. Não há identidade imediata entre o pertencimento à “classe em si” e a “classe para si”. Movimentos trabalhistas reais não envolvem igualmente todos os trabalhadores – de fato, muitos lidam com oponentes que são eles próprios trabalhadores –, tampouco a maior parte dos movimentos é constituída apenas por membros de uma classe. Classes simplesmente não se alinham de maneira automática em lados opostos na hora da luta. A distinção feita acima entre categorias, ou níveis de análise, é também uma distinção entre formas de organização e de pessoal.

Foram discutidos pelo menos dois caminhos pelos quais a disjuntiva entre níveis analíticos poderia ser superada. O primeiro envolve um obscurecimento real da distinção, na medida em que realmente uma “classe em si” se torna uma “classe para si”. Nesta visão, a classe trabalhadora tenderá, com o tempo, a se tornar mais e mais consciente de si como protagonista político, com os antagonismos de classe sendo ‘simplificados’ tanto quanto o desenvolvimento capitalista posterior alinha sujeitos-classe para a batalha final e decisiva entre a maioria proletária e a minoria burguesa. Existe algo inelutável nesta noção, que assume que a análise abstrata necessariamente se torna mais e mais imediatamente real.

Este tipo de ideia era popular nos partidos da II Internacional antes de 1914. O meio para a conquista prática do socialismo exigia somente que a crescente classe trabalhadora primeiro conseguisse e depois exercesse seu poder de voto para capacitar seus parlamentares a legislarem uma nova sociedade. A “luta de classes” se tornara uma luta para desenvolver uma classe trabalhadora que atuaria como um sujeito eleitor. Questões sobre “consciência” popular tornaram-se secundárias. Era suficiente que os trabalhadores tomassem parte dos sindicatos e, através deles, do mundo da social-democracia para se tornarem apoiadores do partido nas eleições. A “luta de classes no parlamento” tornou-se a arena realmente importante da mudança política e social, com os sindicatos restritos à defesa dos salários e das condições de trabalho dos trabalhadores. Na prática, era uma visão altamente de “cima para baixo” do “socialismo a partir de cima” (Draper), que acompanhava o desenvolvimento extensivo das formas burocráticas de organização partidária e sindical, registradas com aprovação por escritores alemães como Max Weber e Robert Michels. Diante da crise política da I Guerra Mundial, a retórica de classe daqueles partidos foi substituída pelo apoio à nação e ao Império, enquanto milhões de trabalhadores eram tragados na guerra intercapitalista mais sangrenta que o mundo havia experimentado até aquele momento.

Contra essa visão, uma esquerda no interior do marxismo lutou para desenvolver uma visão alternativa da luta de classes e do socialismo, com profundas consequências políticas e teóricas. Haviam diferenças de ênfase entre esses pensadores, mas todos envolviam uma reafirmação da ênfase filosófica de Marx sobre a atividade humana. Rosa Luxemburgo (em Greve de Massas) apontou para um modelo bastante diferente de mudança de consciência, através da luta de massas aberta, na qual a as barreiras – cuidadosamente preservadas pela social-democracia – entre “político” e “econômico” eram superadas, e os próprios trabalhadores elevavam sua consciência cultural. Rosa ofereceu uma nova concepção do movimento dos trabalhadores enquanto uma rede complexa e vibrante desenvolvendo-se através da interação mútua de suas várias partes. Seu pensamento ainda continha elementos teleológicos, na medida em que contava com os desenvolvimentos “espontâneos” para proporcionar a energia revolucionária que atropelaria as camadas conservadoras no movimento dos trabalhadores. Esse cenário otimista foi testado duramente em 1919, quando aquelas mesmas camadas conservadoras tramaram o assassinato de Rosa Luxemburgo.

O pensamento de Lenin era mais decididamente anti-teleológico: para ele a própria consciência dos trabalhadores era um permanente campo de batalha entre espontaneidades rivais: entre impulsos no sentido do socialismo e da revolta, e impulsos para a contenção nos limites do pensamento burguês.xvii Isso implicava em uma diferente concepção do papel da organização do partido socialista, não simplesmente como um agente de propaganda socialista geral, mas como um instrumento ativo de intervenção nas lutas de classes de todos os tipos. O pensamento de Lenin foi também marcado por sua atenção à necessidade de atrair para o movimento dos trabalhadores aqueles que sofriam de todas as formas de opressão, ligadas apenas secundariamente ao antagonismo entre capital e trabalho. Implícito no pensamento de Lenin, o reino da “política” assumiu uma vida independente mais poderosa, conectado ainda aos antagonismos estruturais do capitalismo, mas com sua própria “autonomia relativa”. Aqui questões sobre “estratégia e táctica” assumem uma nova importância.

Trotsky, Lukács e Gramsci foram todos pupilos da escola de Lenin, explorando ainda mais a lógica da política de uma estratégia e tática, uma compreensão da complexidade interna de movimentos reais, e a rejeição das versões “cientificistas” passivas do marxismo propagado pela II Internacional (e por alguns pensadores da III Internacional).

O trabalho desta segunda geração de marxistas revolucionários assenta-se em alguns pressupostos fundamentais, que nunca foram afirmados por Marx ou Engels. Em primeiro lugar, classes não são atores políticos homogêneos, tanto quanto o são os vários outros movimentos que atraem e buscam organizar seus membros em projetos comuns. Em segundo lugar, a classe trabalhadora não é nem inevitavelmente revolucionária nem inerentemente integrada, mas em vez disso envolve maiorias e minorias em mudança, movendo-se entre esses polos. Em terceiro lugar, as formas de atividade, ideias e organização adotadas por movimentos sociais são moldadas não somente por seus membros e suas experiências, mas também pelos seus oponentes. Disso decorre que as formas, alcance e propósitos dos movimentos estão abertos à influência “de fora” e objeto de constante diálogo “por dentro”. Quarto, a luta de classes não pode ser concebida de maneira “estreita” como se envolvesse apenas temas como salários e condições de trabalho. Questões relacionadas a identidade étnica e racial e opressão, relações de gênero, nacionalismo e internacionalismo, paz e guerra, ou degradação ambiental são todas moldadas pela luta subjacente entre capital e trabalho, ao mesmo tempo em que a afetam. O mesmo ocorre com lutas aparentemente distintas dos movimentos trabalhistas, como as que envolvem camponeses e estudantes, pois a questão das alianças a serem feitas necessariamente afeta a capacidade do movimento de dirigir uma luta geral contra a opressão.

À luz dessas questões, a ‘classe em si’ nunca se torna uma “classe para si”, exceto metaforicamente. A luta de classes é conduzida na “superfície” da sociedade por entidades mediadas como movimentos e partidos. A transformação social depende do grau em que tais entidades desenvolvem novos tipos de instituições sociais (como a “Comuna” ou “Soviete’) capazes de começar a instalar novos tipos de relações sociais e novas formas de poder social, econômico e político.

NOTAS

i Tradução de “Class Struggle”, texto de Colin Barker. Texto original disponível em http://goo.gl/gziHS8 . Tradução de Rui Polly.

iv Cap. 47, seção 2.

v Cap. 9, seção 1.

vi Max Weber, Economia e Sociedade.

vii Cap. 10, fim da seção 1.

viii Manifesto Comunista.

ix Marx, Mensagem Inaugural da I Internacional, 1864.

x Marx & Engels, A Ideologia Alemã, parte 1.

xi Lenin, As duas táticas da social-democracia na revolução democrática.

xii Rosa Luxemburg, Greve de massas, partido e sindicatos.

xiii Manifesto Comunista de 1848, cerca de uma página após o fim da seção I

xiv Manifesto de 1848, começo da seção II.

xv Inaugural Address of the International Workingmen’s Association, 1864

xvi Marx, Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política (1859)

xvii Lenin, Que Fazer?.

REFERÊNCIAS

Engels, Carta a Florence Kelley-Wischnewetzky, 28 de dezembro de 1888
Marx, Teses sobre Feuerbach
Marx, Letter a J Weydemeyer, 5 de março de 1852
Marx, Capital Volume 1 Penguin edition 1976
Marx, Capital Volume 3 Penguin edition 1981
Marx, Estatutos da Associação Internacional dos Trabalhadores
Marx, Mensagem Inaugural da Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864
Marx, Carta a F Bolte, 23 de novembro de 1871
Marx e Engels, The German Ideology 1846
Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, 1848
Hal Draper, ‘The two souls de socialism’
Michael A Lebowitz, Beyond Capital: Marx’s Political Economy of the Working Class, 2nd ed., Macmillan, 2003
Rosa Luxemburg, Greve de Massas, Partido e Sindicatos
E P Thompson, 1978, Eighteenth century English society: class struggle without class?, Social History,
3.2

V N Volosinov, 1986, Marxism and the Theory de Language, translated by Ladislav Matejka e I R Titunik, Cambridge, Mass.:Harvard University Press
Raymond Williams. 1977. Marxism e Literature. Oxford: Oxford University Press.

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