Como se perdeu a revolução russa – Chris Harman

revol russa

Embora tenha ocorrido há quase cem anos, a revolução russa de outubro de 1917 é ainda o grande divisor de águas na história contemporânea. Mas se sua importância é consensual, reconhecida até mesmo por seus inimigos, o mesmo não ocorre com as análises e avaliações acerca dessa experiência histórica. Mesmo entre aqueles que reivindicam Outubro de 1917, as diferenças de visão são enormes, principalmente sobre o período em que a União Soviética esteve sob o comando de Stalin e sobre o processo que levou o regime soviético  à desintegração, junto com o conjunto de países do Leste europeu que à época da Guerra Fria era chamado de “bloco socialista”. Há, portanto, uma inegável atualidade da revolução russa, ainda que isso não signifique que possa ser tomado como um modelo possível de ser reproduzido nos dias de hoje. O texto de Chris Harman, conciso e escrito em linguagem simples, é uma contribuição valiosa para esse debate. Foi publicado em 1967 na revista International Socialism nº 30, tendo sido posteriormente publicado como caderno em sucessivas edições. O texto em inglês pode ser lido em https://www.marxists.org/archive/harman/1967/xx/revlost.htm. Tradução de Rui Polly. Se preferir é possível baixar o texto em pdf clicando:  Como se perdeu a Revolução Russa.

COMO SE PERDEU A REVOLUÇÃO RUSSA

 Chris Harman

1 – AS DUAS REVOLUÇÕES DE 1917

  O período entre a revolução de fevereiro e a revolução de outubro foi moldado por dois processos convergentes e inter-relacionados. O primeiro deles, que ocorreu nas grandes cidades, foi o rápido crescimento do nível de consciência da classe trabalhadora já pela época das “jornadas de julho”. Pelo menos o proletariado industrial parecia ter chegado à compreensão de que as várias classes sociais tinham interesses divergentes no processo revolucionário. No campo, a divisão crescente entre as classes foi de caráter muito diferente, pois não se deu ali uma divisão entre uma classe constituída de proprietários e outra que nem mesmo poderia alimentar a esperança pela posse da terra. Foi, antes, uma divisão entre duas classes compostas fundamentalmente por proprietários: de um lado, os grandes proprietários de terra, de outro o campesinato, formado na sua maioria por pequenos proprietários ou por pequenos arrendatários que aspiravam a posse da terra. Não se batiam por objetivos socialistas. Seu desejo era apoderar-se das grandes propriedades dos latifundiários e dividi-las numa base individual. A esse movimento puderam dar a sua adesão até mesmo os kulaks, os camponeses ricos.

A Revolução de Outubro só pôde ser vitoriosa porque estes dois processos ocorreram simultaneamente. O que os unia não era, porém, um objetivo final único, e sim o fato de que, por razões históricas contingentes, a burguesia industrial não pôde romper seus vínculos políticos com os grandes donos de terra. A sua incapacidade de levar adiante esta ruptura forçou o campesinato (que incluía efetivamente o exército) e o proletariado a compartilhar uma mesma posição política: “Para a criação do estado soviético, foi necessária a aproximação de dois fatores, cada um dos quais pertencentes a épocas históricas totalmente distintas: uma guerra camponesa, isto é, um movimento que caracteriza a aurora do processo do desenvolvimento burguês, e uma insurreição proletária, o movimento que assinala o seu declínio”. (1)

A insurreição urbana não teria alcançado o sucesso se não tivesse contado com o apoio do exército, composto majoritariamente por camponeses. Nem os camponeses teriam conseguido o êxito que obtiveram com suas lutas, se não tivessem sido liderados por uma força centralizada, exterior a eles, capaz de uni-los. Em 1917, a única força existente, capaz de assumir esse papel, era a classe trabalhadora, já organizada. Esta oportunidade de unir o campesinato na hora da decisão, sob sua influência, foi o que capacitou os trabalhadores a manter o seu domínio nas cidades.

A burguesia e os latifundiários a ela aliados foram expropriados. Mas as classes que participaram nessa expropriação não tinham, a longo prazo, nenhum interesse de classe em comum. Nas cidades, governava uma classe que dependia da ação coletiva para a sua própria sobrevivência. No campo, uma classe que só era capaz de se unir, mesmo para os seus próprios fins, apenas em curto prazo: para se apoderar dos latifúndios, mas que passava a cultivar cada qual a sua terra individualmente, uma vez superada esta etapa. Passados o ato desta toma da terra e a sua defesa, só era possível ligar os camponeses à política de qualquer estado por meio de estímulos externos à sua economia.

Portanto, a revolução foi de fato a ditadura do proletariado sobre as demais classes, nas cidades – nos maiores centros, deu-se o domínio da maioria através dos Sovietes – e a ditadura das cidades sobre o campo. Durante o primeiro período, quando se deu a divisão dos latifúndios, essa ditadura pôde contar com o apoio do campesinato: tanto assim, que foi defendida pelas baionetas empunhadas por camponeses. Mas o que deveria acontecer depois disso?

Este problema vinha preocupando os socialistas russos muito antes da revolução ocorrer. Dando-se conta de que uma revolução socialista na Rússia se veria irremediavelmente perdida no meio da massa camponesa, todos os marxistas russos (incluindo Lenin, mas excluindo Trotsky e inicialmente também Parvus) foram levados a acreditar que a revolução, quando viesse, seria uma revolução burguesa. Quando Parvus e Trotsky sugeriram pela primeira vez que era possível que a revolução resultasse em um Estado socialista, Lenin escreveu: “Isto não pode ser, visto que tal ditadura revolucionária só pode garantir a sua estabilidade (…) na medida em que tenha por base a grande maioria do povo. O proletariado russo é ainda uma minoria na população”.

Lenin manteve esta posição até 1917. Quando ele finalmente chegou à conclusão de que era possível que a revolução tivesse um desfecho socialista e passou a se bater por este objetivo, foi porque a viu como uma etapa de uma revolução em escala mundial, que daria à minoria proletária a proteção necessária contra intervenções vindas do exterior e suficiente auxilio para conseguir que o campesinato aceitasse o domínio dos trabalhadores. Oito meses antes da Revolução de Outubro, Lenin escreveu aos operários suíços: “O proletariado russo não poderá completar a revolução socialista com sucesso, se puder contar apenas com as suas próprias forças”. Meses depois da revolução, em 7 de março de 1918, repetiu: “A verdade nua e crua é que sem uma revolução na Alemanha, seremos derrotados”.

2 – A GUERRA CIVIL

  Os primeiros anos do regime soviético pareceram confirmar esta perspectiva da revolução mundial, já que o período de 1918-1919 foi marcado por conflitos sociais sem paralelo. Na Alemanha e na Áustria, a monarquia foi derrubada logo após as derrotas no campo de batalha. Em todas as partes falava-se de sovietes. Na Hungria e na Bavária governos soviéticos chegaram a tomar o poder, ainda que por pouco tempo. Na Itália, as fábricas foram ocupadas pelos trabalhadores. No entanto, não foi possível fazer desaparecer com tal rapidez as tradições criadas por cinquenta anos de desenvolvimento paulatino. Os velhos líderes sindicais e social-democratas mobilizaram-se para ocupar o vácuo deixado pelos partidos burgueses, então desacreditados. A esquerda comunista não dispunha, no entanto, de suficiente força e organização para fazer-lhes frente: tomava a iniciativa quando lhes faltava o apoio de massas e quando havia o apoio de massas não era capaz de tomar a iniciativa.

Mesmo assim, a estabilidade alcançada na Europa depois de 1919 foi, na melhor das hipóteses, precária. Nos quinze anos que se seguiram, as estruturas sociais de todos os pises europeus viram-se seriamente ameaçadas. Também a experiência dos Partidos Comunistas e da classe operária levara-os a uma maior possibilidade de entender os acontecimentos.

Os bolcheviques, entretanto, não am ficar à espera da revolução no exterior. A defesa da república dos Sovietes e a propaganda em prol da revolução em outros países pareciam-lhes inseparáveis. De qualquer maneira, pelo menos naquele momento, as tarefas imediatas na Rússia foram decididas não pelos líderes bolcheviques, mas pelas potências imperialistas internacionais, que lançaram uma “cruzada” contra a república soviética. Os exércitos brancos e estrangeiros tinham de ser derrotados, antes de se poder sequer pensar nos demais problemas. Para executar esta tarefa, foi preciso utilizar todos os recursos disponíveis.

Com uma mistura de apoio popular, entusiasmo revolucionário e o que por vezes pareceu ser pura determinação, expulsaram-se as forças contrarrevolucionárias (apesar destas terem continuado a operar até 1924 no extremo oriente soviético).

Mas o custo foi colossal.

Não se pode calcular os prejuízos simplesmente em termos materiais, embora só estes tenham sido enormes. O pior impacto ocorreu, sobretudo, na produção industrial e agrícola. Em 1920, a produção de ferro-gusa estava reduzida a cerca de 3% da produção anterior à guerra; cânhamo, 10%; linho, 25%; algodão, 11%; beterraba, 15%. Isso significou privação, pobreza e fome. E mais ainda: o quase desaparecimento da produção industrial resultou também no quase desaparecimento da classe operária, que diminuiu numericamente para 43% do que havia sido antes da guerra. Muitos operários haviam retornado ao campo, ou tombado na guerra. Em termos quantitativos, a classe que havia liderado a revolução, a classe cujos processos democráticos haviam constituído o cerne vivo do poder soviético, tinha se reduzido a menos da metade do que fora. Porém em termos reais, o que se passava era mais sério ainda. O que restava não era mais a metade de uma classe cuja própria vivência social a impelia à ação coletiva. A produção industrial estava reduzida a 18% da produção pré-guerra e a produtividade do trabalho a um terço. Os operários já não conseguiam viver com a produção de seu trabalho coletivo, e muitos se viram forçados a trocar seus produtos – e mesmo peças de suas máquinas – com camponeses, para obter alimentos. Em outras palavras, não só estava dizimada a classe que havia feito a revolução, mas os laços que a uniam estavam se desfazendo rapidamente. Mesmo os indivíduos que trabalhavam nas fábricas já não eram mais os mesmos. Os trabalhadores com mais consciência de classe naturalmente foram os que partiram, em maior número, para frente de combate e, portanto, sofreram as maiores perdas. Os que sobreviveram eram necessários não só nas fábricas, mas também como quadros no exército ou como comissários, para fazer com que os administradores fizessem funcionar a máquina do estado. Camponeses recém-saídos do campo, sem consciência ou aspirações socialistas, vieram substituí-los no trabalho.

Mas qual seria o destino da revolução, agora que a classe que a fizera não existia mais objetivamente? Este problema não pudera ser previsto pelos líderes bolcheviques. Eles haviam sempre dito que se a revolução ficasse isolada, seria derrotada por exércitos estrangeiros e uma contrarrevolução interna. Deparavam-se agora com o sucesso da contrarrevolução que do exterior conseguira destruir a classe que liderara a revolução, mas ao mesmo tempo o aparelho de estado edificado por ela sobrevivera intacto. O poder revolucionário sobrevivera, mas estavam se dando mudanças radicais na sua composição interna.

3 – DO PODER SOVIÉTICO À DITADURA BOLCHEVIQUE

  As instituições revolucionárias de 1917 ligavam-se organicamente à classe que havia liderado a revolução, especialmente no que diz respeito aos Sovietes. Não era possível haver uma defasagem real entre as aspirações e intenções dos seus delegados e as dos trabalhadores que os haviam eleito. Enquanto as massas seguiam a orientação dos mencheviques, os sovietes eram mencheviques. Quando as massas começaram a seguir a orientação dos bolcheviques, o mesmo ocorreu com os sovietes. O Partido Bolchevique era apenas um grupo de militantes com consciência de classe, organizados de tal forma que lhes permitia desenvolver sua política e sugerir formas de ação para implementá-las, lado a lado com outras organizações semelhantes, dentro dos sovietes e das próprias fábricas. A coerência de sua linha e a sua disciplina interna capacitava-os a implementar as suas posições de maneira eficaz – mas só quando a massa dos trabalhadores os apoiava.

Mesmo os adversários dos bolcheviques eram forçados a reconhecê-los. Assim, um importante crítico menchevique escreveu: “Compreenda, por favor, que aquilo que presenciamos é finalmente um levante vitorioso do proletariado. Quase todo o proletariado apoia Lenin e espera que este levante lhe traga a sua libertação social”. (2)

Esta dialética democrática se pôde manter até bem depois do início da guerra civil. Os bolcheviques, como o partido majoritário no seio dos sovietes, detinham o poder, mas outros partidos continuavam a existir. Os mencheviques continuavam a operar na legalidade e a rivalizar com os bolcheviques no apoio do operariado, até junho de 1918.

A destruição da classe operária mudou tudo isto. Tornou-se necessário que os sovietes funcionassem em suspenso, independentemente da classe que os havia criado, pois os operários e camponeses que então combatiam na guerra civil não podiam, é claro, ter um governo coletivo a partir de suas fábricas. Os operários socialistas, espalhados por todas as frentes nas zonas de guerra, tinham forçosamente de ser organizados e coordenados por uma máquina centralizada de governo, independentemente de seu controle direto – pelo menos por algum tempo.

Os bolcheviques acreditavam que tal estrutura de poder não se poderia manter, a menos que fosse composta somente por aqueles que davam a sua completa adesão à revolução, isto é, os próprios bolcheviques. Os socialistas revolucionários de direita instigavam a contrarrevolução. Os socialistas de esquerda tinham recorrido ao terrorismo quando discordaram da política do governo. Quanto aos mencheviques, sua posição era de apoiar os bolcheviques em sua frente de combate à contrarrevolução, mas com a exigência de que entregassem o poder à Assembleia Constituinte, o que era também uma das principais reivindicações dos contrarrevolucionários. Na prática, isto queria dizer que o partido continha tanto gente que apoiava, quanto gente que se opunha ao poder soviético. Muitos mencheviques se passaram para o lado dos Brancos (por exemplo, as organizações mencheviques da região do Volga eram simpatizantes do governo contrarrevolucionário de Sâmara, e um dos membros do Comitê Central menchevique, Ivan Maisky – que mais tarde veio a ser embaixador de Stalin – chegou a participar dele). (3)

A reação dos bolcheviques foi de permitir que os membros do Partido Menchevique continuassem em liberdade (pelo menos a maior parte do tempo, durante este período), mas impedir que pudessem operar como uma força política eficaz. Por exemplo, não permitiram que aparecesse a imprensa menchevique depois de junho de 1918, exceto durante três meses no ano seguinte.

Em tudo o que se passou, os bolcheviques não tiveram outra alternativa. Não podiam se desfazer do poder que detinham simplesmente porque a classe que representavam tinha se dissolvido, lutando para defender aquela mesma conquista do poder. Tampouco podiam tolerar que se propagassem ideias que pudessem minar as bases do seu poder, precisamente porque a classe operária não era mais uma entidade organizada de forma coletiva e portanto torna-se incapaz de decidir quais os seus próprios interesses.

Em decorrência de necessidades históricas, o estado soviético foi substituído, a partir de 1920, pelo estado de partido único. Os Sovietes restantes passaram a ser, cada vez mais, apenas uma fachada da dominação dos bolcheviques, se bem que até 1929 outros partidos continuassem as suas atividades, tal como os mencheviques. Em 1919, por exemplo, começou uma fase durante a qual não houve eleições para o Soviete de Moscou, por um período de 18 meses. (4)

4 – KRONSTADT E A NOVA POLÍTICA ECONÔMICA (NEP)

  No que pode parecer um paradoxo, o fim da guerra civil não atenuou essa contradição, mas pelo contrário a aguçou de várias formas. Tendo passado o perigo imediato da contrarrevolução, rompeu-se o elo que unia os dois processos revolucionários, o poder operário nas cidades e os levantes dos camponeses no campo. Uma vez que se apoderaram da terra, os camponeses passaram a não se interessar mais pelos ideais revolucionários coletivistas de Outubro. Moviam-nos aspirações de caráter individualista, resultantes de sua forma de trabalho individual, cada qual buscando melhorar seu nível de vida por meio do seu trabalho, no seu próprio quinhão de terra. Dada esta situação, a única coisa que era capaz de unir os camponeses e de transformá-los num grupo coerente, era a sua oposição aos impostos e às coletas forçadas de trigo para alimentar as populações das cidades.

O apogeu desta oposição manifestou-se apenas uma semana antes do início do X Congresso do Partido. Irrompeu um levante de marinheiros na Fortaleza de Kronstadt, que controlava o acesso marítimo a Petrogrado. Desde então, muitos autores descreveram o acontecimento como a primeira ruptura entre o regime bolchevique e seus objetivos socialistas. O fato de que os marinheiros de Kronstadt tinham figurado entre as principais forcas motrizes da revolução de 1917 é frequentemente citado como prova. Mas naquela época ninguém no Partido Bolchevique teve sequer sombras de dúvida do que era preciso fazer, inclusive a própria Oposição Operaria, que dizia representar a antipatia de muitos trabalhadores pelo regime. É fácil de se explicar o porque disso: Kronstadt de 1920 já não era mais a Kronstadt de 1917, pois a origem de classe de seus marinheiros mudara. Os melhores quadros socialistas haviam partido há muito, para combater com o exército na linha de frente. Foram substituídos, na maior parte dos casos, por camponeses cujo engajamento na revolução era o mesmo da classe à qual pertenciam. Isto se refletiu nas reivindicações do levante: Sovietes sem os bolcheviques e um mercado livre na agricultura. Os ´lideres bolcheviques não podiam ceder a tais exigências, que teriam levado à liquidação dos objetivos socialistas a que se propunha a revolução, sem sequer uma luta. Apesar de todos os seus defeitos, só o Partido Bolchevique é que tinha dado apoio total ao poder dos Sovietes enquanto que outros partidos, mesmo os partidos socialistas, haviam vacilado entre eles e os Brancos. Foi aos bolcheviques que aderiram os melhores militantes operários. Os Sovietes sem os bolcheviques só poderiam significar os Sovietes sem o único partido que havia procurado incessantemente expressar os objetivos socialistas e coletivistas da classe trabalhadora na revolução. A repressão deste levante não deve ser considerada como um ataque contra o conteúdo socialista da revolução, mas antes como uma tentativa desesperada para evitar pela força que os objetivos coletivistas da revolução fossem destruídos pela crescente oposição camponesa.(5)

Entretanto, o simples fato de que a revolta de Kronstadt pudesse ocorrer era já um mau presságio, pois colocava em questão todo o papel de liderança da classe operária na revolução. Este papel estava sendo mantido não pelo tipo superior de modo de produção que a classe operária representava, nem pela sua maior produtividade no trabalho, mas pela força bruta. Força esta que não era empunhada pelos próprios trabalhadores armados, mas por um partido ligado apenas indiretamente à classe operária por sua posição ideológica e não diretamente como ocorrera em 1917.

Esta política era a única possível, mas era uma linha que em nenhuma outra hipótese poderia ter sido defendida por socialistas. Em vez de ser “o movimento independente e consciente de si, da imensa maioria pelos interesses da imensa maioria”, a revolução na Rússia tinha caído ao ponto de provocar a exploração do campo pelas cidades, defendida pela forca aberta da repressão. Todos os grupos que integravam o Partido Bolchevique viam que a revolução permanecia em perigo de ser derrubada por levantes camponeses.

Uma só opção parecia ser possível, de fazer concessões a muitas das reivindicações camponesas, ao mesmo tempo mantendo um poderoso aparelho de estado centralizado e socialista. A Nova Política Econômica foi um esforço para conseguir a realização desta estratégia. Visava a reconciliação entre os camponeses e o estado, bem como estimular o desenvolvimento econômico por meio de concessões no tocante a uma série limitada de liberdades para a produção privada de bens de consumo. O estado e as indústrias estatais passariam a funcionar como um setor, apenas, dentro de uma economia regida pelas demandas da produção camponesa e o jogo das forças do mercado.

5 – O PARTIDO, O ESTADO E A CLASSE OPERÁRIA, 1921-1928

  No período da Nova Política Econômica, já não se podia mais pretender que a Rússia fosse em algum sentido “socialista”, quer pela relação entre a classe trabalhadora e o estado que no princípio ela havia criado, quer pelo teor das relações econômicas dentro do país. Os operários não detinham o poder, nem se tratava de uma economia planificada. No entanto, o estado, o “corpo de homens armados” que controlava e policiava a sociedade, estava nas mãos de um partido cujas ações eram regidas pelos seus objetivos socialistas. O rumo que tomaria a sua política deveria ser portanto de caráter socialista.

Infelizmente, a realidade concreta era mais complexa. Em primeiro lugar, as instituições do estado que dominavam a sociedade russa, estavam longe de ser idênticas ao partido combativo e socialista de 1917. Na época da Revolução de Fevereiro aqueles que militavam no Partido Bolchevique eram socialistas convictos, que se haviam arriscado muito para propagar as suas ideias diante da opressão czarista. Mesmo com quatro anos de guerra civil e apesar do isolamento crescente das massas trabalhadoras, as suas convicções socialistas não puderam ser facilmente destruídas. Mas já em 1919 eles constituíam apenas um décimo do partido, proporção que em 1921 havia decrescido para um quadragésimo. O partido havia passado por um processo contínuo de aumento numérico durante a revolução e a guerra civil. Isto refletia, em parte, a tendência de todos os operários militantes e socialistas convictos a integrar-se ao partido, mas era também o resultado de outros acontecimentos. O partido fôra obrigado a assumir o controle de todas as áreas sob regime soviético, por causa do destroçamento da classe operária. Para tanto, foi-lhe necessário aumentar o seu efetivo numérico. E também, na medida em que se tornou claro quem haveria de ganhar a guerra civil, muitos elementos com pouca ou nenhuma consciência socialista tentaram ingressar no partido. Por esta razão, o partido estava longe de ser uma força socialista homogênea; o que se pode dizer é que, na melhor das hipóteses, apenas os indivíduos que lideravam e aqueles que militavam mais ativamente pertenciam à corrente socialista.

Dentro do aparelho de estado, ocorria simultaneamente um processo paralelo à diluição interna do partido já descrita. Para manter o seu domínio sobre a sociedade na Rússia, o que implicava necessariamente em um aparelho de estado capaz de funcionar, o Partido Bolchevique fora forçado a lançar mão de milhares de antigos funcionários da burocracia czarista. Teoricamente, caberia aos bolcheviques orientar o trabalho destes, imprimindo-lhe um caráter socialista. Na prática, frequentemente sobreviviam as antigas normas de trabalho e costumes sociais, sobretudo no que se refere a atitudes pré-revolucionárias em relação às massas. Lenin percebeu claramente quais as consequências destes fatos.

“O que nos faz falta está bem claro”, declarou ao congresso do partido em março de 1922. “O que falta à camada dirigente dos comunistas é a cultura. Basta olhar para Moscou. A massa de burocratas que existe aí – quem dirige a quem? São os 4.700 comunistas que dirigem a massa de burocratas, ou vice-versa? Não creio que possamos dizer honestamente que os comunistas estão dirigindo essa massa. Encarando o problema com honestidade, devemos dizer que eles não são os líderes, mas os liderados”.

No fim do ano de 1922, ele descreveu o aparelho de estado como algo “tomado de empréstimo ao czarismo e apenas ligeiramente modificado pela realidade soviética, (…) uma máquina burguesa e czarista”.(6) Na controvérsia sobre o papel dos sindicatos em 1920, ele afirmou que: “O que temos não é de fato um estado dos trabalhadores, mas um estado dos trabalhadores e dos camponeses também (…) mas não se trata só disto. O programa do nosso partido mostra que se trata de um estado operário com deformações burocráticas”.(7)

A verdadeira situação era ainda pior do que isto. Não só havia o problema de os bolcheviques encontrarem-se numa posição em que as pressões conjugadas das forças das classes sociais hostis e da inércia da burocracia criavam condições difíceis para poderem implantar suas metas socialistas. Havia também o fato de que as suas próprias metas tenderiam a se corromper pelo fato de se inserirem num meio hostil. Os problemas que decorriam de se ter tido que formar um exército disciplinado com recrutas de origem camponesa, uma massa que lhes era frequentemente apática, inculcara práticas autoritárias em muitos dos melhores militantes do partido. Com o início da Nova Política Econômica, modificou-se a situação, mas ficava ainda muito aquém daquela dialética entre líderes e liderados que é a qualidade essencial para a democracia socialista. Nesta nova conjuntura, muitos membros do partido viram-se constrangidos a chegar a acordos com pequenos comerciantes, pequenos capitalistas e os kulaks para poder manter a sua posição de controle na sociedade. Tinham de representar os interesses do estado operário em seus contatos com esses elementos, mas não como outrora, por meio de enfrentamentos armados, mas por um certo grau de cooperação com eles. Muitos membros do partido começaram a se deixar influenciar mais por estas relações cotidianas e muito concretas com elementos da pequena burguesia, do que por suas relações muito pouco palpáveis com uma classe operária então fraca e desencorajada.

No entanto, a influência mais forte veio da velha burocracia, na qual se viam inseridos os membros do partido e que por isso penetrou em todos os níveis. O fato de que o partido ficara isolado de qualquer classe social, exterior a ele, que pudesse sustentar o seu regime, levou-o a ter de impor uma disciplina interna férrea. Assim, a formação de facções dentro do partido foi “temporariamente” proibida, apesar de se considerar correto o prosseguimento das discussões internas.(8) Mas esta busca de uma maior coesão interna descambou rapidamente para a aceitação de métodos burocráticos de controle dentro do partido. Já em abril de 1920 elementos de oposição dentro do partido haviam começado a denunciá-los. Mesmo Lenin escreveu em 1922: “Temos uma burocracia não só nas instituições soviéticas, mas nas instituições do partido também”.

A erosão da democracia interna do partido é revelada mais claramente pelo que se passou com as sucessivas oposições à direção do partido, as várias facções que tinham o direito de organizar-se em torno se suas plataformas políticas. O próprio Lenin tomou posições que eram minoritárias dentro do partido, em pelo menos duas ocasiões, quando apresentou suas Teses de Abril e cerca de um ano depois, durante as negociações de Brest-Litovsk. Em novembro (outubro pelo antigo calendário) de 1917, aqueles bolcheviques que discordavam da linha do partido tomar o poder, puderam demitir-se do governo por sua posição sem que nenhuma medida de caráter disciplinar fosse tomada. As divisões no seio do partido, sobre avançar ou não sobre Varsóvia e sobre a função dos sindicatos, foram refletidas e discutidas na imprensa do partido. Até em 1921, o próprio partido mandou imprimir um quarto de milhão de cópias do “Programa da Oposição Operária”, e dois membros da facção foram eleitos para o Comitê Central. Em 1923, quando surgiu a Oposição de Esquerda, foi-lhe possível ainda exprimir as suas ideias no Pravda, se bem que apareciam dez artigos em defesa da direção para cada um que se opunha a ela.

Durante todo este período, no entanto, vinham-se restringindo as oportunidades abertas a qualquer oposição para agir de maneira realmente eficaz. Após o X Congresso do partido foi proibida a Oposição Operária. Já em 1923, a Plataforma dos 46, oposicionista, escrevia que “a hierarquia dos secretários do partido é quem seleciona cada vez mais os participantes de conferências e congressos”.(9)

Mesmo Bukharin, que então apoiava a direção e era editor do Pravda, descreveu o funcionamento típico do partido, que retratou como fundamentalmente antidemocrático: “(…) os secretários dos vários núcleos são, via de regra, nomeados pelos comitês de distrito; e note-se que os distritos nem mesmo tentam apurar se seus candidatos são aceitáveis a estes núcleos, mas considera-se satisfeitos só em nomear os camaradas fulano ou sicrano. Via de regra, os votos são tomados de tal forma que também se considera normal: pergunta-se na reunião: ‘Quem se opõe?’, e como cada qual teme, em geral, opor-se a estes métodos, o candidato nomeado vê-se eleito”.(10)

A extensão real da burocratização revelou-se completamente quando o “triunvirato” que assumira a liderança do partido durante a doença de Lenin, se cindiu. Em fins de 1925, Zinoviev, Kamenev e Krupskaia, passaram a opor-se ao centro do partido, já controlado por Stalin. Zinoviev dirigia o partido em Leningrado, e como tal controlava a máquina administrativa da segunda capital e vários jornais influentes. Todos os delegados de Leningrado ao XIV Congresso do partido apoiaram-no em sua oposição ao centro. Mas apenas algumas semanas após a derrota desta oposição, todas as seções do partido em Leningrado estavam votando a favor de resoluções que apoiavam a linha de Stalin, exceto algumas centenas de oposicionistas arraigados. Só foi necessário remover de seus cargos os dirigentes administrativos do partido na cidade para que se desse esta transformação. Quem controlava a burocracia passara a também controlar o partido: quando Zinoviev a controlava, fora oposicionista; uma vez que Stalin acrescentou a cidade ao aparelho que já controlava no resto do país, passou a se conformar com a sua linha. Com uma mudança de liderança apenas, o bloco monolítico zinovievista foi transformado num bloco monolítico stalinista… Esta ascensão da burocracia dentro do sistema soviético e do partido começara devido à dizimação da classe operária durante a guerra civil, mas continuou, apesar do fato de que a produção industrial havia começado a se refazer, e a classe operária novamente a crescer, com a introdução da Nova Política Econômica. A convalescença econômica, ao invés de melhorar a situação da classe operária dentro do “estado operário”, pelo contrário, a deprimiu.

Em termos puramente materiais, a posição do operário piorava comparativamente, por causa das concessões feitas ao campesinato.

“Aclamado em toda parte como o herói por excelência da ditadura do proletariado sob o comunismo de guerra, ele estava em perigo de ser transformado no enteado da Nova Política Econômica. Durante a crise econômica de 1923, tanto os que defendiam a política oficial como os que a atacavam, em favor do desenvolvimento da indústria, não pensavam ser necessário tratar como assunto de importância as queixas e os interesses do operariado industrial”. (11)

Mas não foi só em relação ao campesinato que a posição do operariado decaiu, mas também em comparação com os diretores e administradores da indústria. Enquanto que em 1922, 65% do pessoal da direção era oficialmente classificado como sendo operário e 35% como não o sendo, no ano seguinte essas proporções já se tinham invertido por completo – 35% classificados como operários e 64% como não-operários.(12) Os “industriais vermelhos” começaram a aparecer como um grupo privilegiado com altos salários e com o direito de contratar e despedir operários como e quando quisesse, por intermédio do novo sistema de “direção única”. Ao mesmo tempo, tornou-se crônico, na economia soviética, um alto nível de desemprego, chegando a um milhão e um quarto em 1923-1924.

6 – AS DIVISÕES DENTRO DO PARTIDO, 1921-29

  Os homens fazem a história, mas em circunstancias não determinadas por sua vontade. Neste processo eles não só mudam aquelas circunstâncias como também a si mesmos. O Partido Bolchevique não era imune a esta realidade, assim como qualquer outro grupo na história. Lançando-se à tarefa de impedir que a sociedade na Rússia fosse totalmente destruída pelo caos da guerra civil, contrarrevolução e da fome, seus objetivos socialistas tornaram-se um fator determinante no curso da história, mas as forças sociais com as quais tinham de lidar para realizar os seus objetivos não podiam deixar de afetar também os membros do partido. A tarefa de conservar unida a Rússia durante o período da Nova Política Econômica forçou-os a mediar entre diferentes classes sociais para evitar que se estampassem conflitos que pudessem destruir o seu trabalho. A revolução só podia sobreviver se o partido e o estado fossem capazes de atender às necessidades de diferentes classes, amiúde antagônicas. Foram tomadas medidas necessárias para satisfazer tanto as aspirações individuais dos camponeses, como os objetivos democráticos e coletivistas do socialismo. Neste processo, o partido que fôra elevado acima das várias camadas sociais, teve necessariamente que refletir as diferenças entre essas classes dentro da própria estrutura. A pressão exercida, pelas diferentes classes, sobre o partido levou a que as suas diversas secções passassem a definir as suas metas em termos que exprimiam os interesses de diferentes classes. A classe operária, a única capaz de fazer pressão numa direção genuinamente socialista, era a mais fraca, a mais desorganizada, a menos capaz de exercer tais pressões.

7 – A OPOSIÇÃO DE ESQUERDA

  A Oposição de Esquerda foi, sem dúvida alguma, a fração do partido que mais próximo se colocou da corrente socialista e revolucionária bolchevique, em termos das ideias pelas quais se bateu. Recusou-se a redefinir o conceito de socialismo que passasse a abarcar tanto uma economia camponesa em um ritmo lento de desenvolvimento, como também o processo de acumulação pela acumulação. Manteve a linha de que a democracia operária era fundamental para o socialismo, e recusou-se a subordinar os interesses da revolução mundial ao slogan chauvinista e reacionário de construir-se o “socialismo num só país”.

No entanto, não se pode dizer que a Oposição de Esquerda representasse, diretamente, uma facção proletária dentro do partido. Na Rússia, durante a década dos vinte, a classe operária foi a menos capaz de exercer pressão sobre o partido. Uma vez que, passada a guerra civil, tinha se recomposto de tal forma que o seu potencial para lutar por seus próprios interesses, estava muito enfraquecido. Havia muito desemprego e os trabalhadores mais conscientes tinham morrido na guerra ou entrado para a burocracia. Uma grande parte da classe operária que agora existia, era constituída por antigos camponeses recém-saídos de suas aldeias. A sua atitude típica não era de apoio à oposição, mas antes de desinteresse por quaisquer discussões políticas, o que facilitava à cúpula poder manipulá-la, pelo menos na maioria das vezes. A Oposição de Esquerda achava-se numa situação na qual todos os socialistas sofreram em alguma época: tinham um programa socialista de ação para o proletariado, numa época em que os próprios operários se sentiam desanimados e cansados para lutar por ele.

Mas não foi só a apatia dos trabalhadores que tinha causado problemas à oposição. A sua própria plataforma reconhecia as realidades da conjuntura econômica e dava ênfase ao fato de que a falta objetiva de recursos implicaria em que a vida ficaria mais difícil, quaisquer medidas que se aplicassem. Insistiam na necessidade de desenvolver a indústria com base nos recursos internos e, simultaneamente, na urgência de se espalhar a revolução, para se poder levar a cabo esse desenvolvimento. Mas, o que era fatal, não tinham muito a oferecer em curto prazo à classe operária, mesmo na hipótese de que uma política socialista correta fosse seguida. Quando Trotsky e Preobrazhensky passaram a exigir maior planificação, ressaltaram que, no entanto, isto não se poderia fazer sem que se desse um aperto nos camponeses, nem sem sacrifícios da parte dos trabalhadores. A oposição conjunta dos “trotskistas” e dos “zinovievistas” de 1926 exigia, como prioridade, que se dessem certos benefícios aos operários, mas foram suficientemente realistas para denunciar como sendo utópicas certas promessas feitas por Stalin aos trabalhadores, promessas estas que iam bem além de suas exigências.

Não se trata agora de discutir em pormenor as várias plataformas produzidas pela Oposição de Esquerda. Podemos, no entanto, dizer que tinham de maneira geral três pontos centrais:

1) A revolução só seria capaz de avançar em direção ao socialismo se se desse mais peso à cidade do que ao campo na esfera econômica, mais importância à indústria do que `agricultura. Isso requeria que a indústria fosse planificada e que medidas discriminatórias fossem tomadas, conscientemente, contra o campesinato rico por meio de impostos. Se não se seguisse essa política, o camponês acabaria por acumular tal poder econômico a ponto de subordinar o Estado aos seus interesses e portanto de causar uma contrarrevolução interna.

2) Esse desenvolvimento industrial teria que ser acompanhado por uma ampliação da democracia operária, de maneira a terminar com as tendências burocráticas dentro do partido e do estado.

3) Essas duas primeiras políticas, por si só, eram capazes de preservar a Rússia como um reduto da revolução, mas não de provocar um aumento suficientemente grande, em nível material e cultural, necessários para se passar ao socialismo. Era necessário que a revolução se estendesse ao exterior.

Em termos puramente econômicos não havia nada neste programa que fosse impossível. Tanto assim, que as demandas para que se planificasse o processo de industrialização e se discriminasse os camponeses ricos, foram postas em prática anos depois por Stalin, embora de uma maneira totalmente oposta à da oposição. Mas aqueles que controlavam o partido de 1923 em diante não quiseram reconhecer o valor desse plano, de maneira que só tomaram medidas de planificação e industrialização porque foram forcados pela aguda crise econômica de 1928. Durante os cinco anos de 1923 a 1928, perseguiram a Esquerda e expulsaram os seus líderes. Porém o segundo ponto central nunca foi implementado, enquanto que o terceiro, que fora a ortodoxia bolchevique em 1923 (13), foi rejeitado para sempre, em 1925, pelos dirigentes do partido.

Não foi a situação econômica que impediu o partido de adotar esse programa. Foi, antes, o equilíbrio que se desenvolvia entre as várias forças sociais no seio do partido. O programa da esquerda exigia que fossem abandonadas as normas de crescimento lento da produção, determinado, por sua vez, pela pressão econômica exercida pelo campesinato rico. Duas forças sociais distintas que se tinham criado no seio do partido impediram que esse plano fosse posto em prática.

8 – A DIREITA E O CENTRO

  A primeira destas facções era a mais simples, integrada por aqueles que pensavam que as concessões aos camponeses não constituíam uma ameaça à estrutura socialista. Desejavam conscientemente que o partido ajudasse o seu programa para atender às necessidades dos camponeses, desejo esse que ia além da teoria. Essa tendência exprimia os interesses daqueles elementos dentro do partido e das instituições soviéticas que se tinham adaptado com facilidade à situação de cooperação com os camponeses, incluindo os kulaks e os fazendeiros capitalistas, e com os homens da NEP. Bukharin deu-lhes expressão teórica, exortando os camponeses a enriquecerem-se.

A segunda facção era constituída por forças sociais tanto internas quanto externas ao partido. Ostensivamente sua preocupação era conservar a coesão social, e portanto opunha-se às tensões sociais que provavelmente seriam criadas, na hipótese de se levar a cabo uma estratégia de subordinar o campo às cidades. No entanto, não tomavam posição, como a direita o tinha feito, em seus pronunciamentos. Pró-camponeses, a maioria desta tendência provinha do próprio aparelho do partido, cuja maior preocupação era a de considerar a unidade do partido como essencial, empregando para tal, meios burocráticos. O seu líder era o chefe da máquina partidária, Stalin.

Naquela época a facção de Stalin se assemelhava a um grupo centrista que oscilava entre as posições tradicionais do partido (incorporadas ao programa da Esquerda) e a direita. Em 1928, quando Stalin subitamente passou a adotar o primeiro ponto da plataforma da oposição, atacando a direita com a mesma violência com que meses antes atacara a esquerda e iniciando o processo de industrialização com a expropriação total do campesinato (a tão chamada coletivização), essa análise foi rudemente abalada. Stalin demonstrou claramente ter sua própria base social e poder sobreviver quando nem o proletariado nem o campesinato exerciam o poder.

Se a Oposição de Esquerda foi a consequência da ação de grupos motivados pelas tradições socialistas e pró-operárias, e a Oposição de Direita a consequência da acomodação às pressões camponesas ao partido, a facção stalinista vitoriosa baseava-se na própria burocracia interna do partido. Essa foi inicialmente mais um elemento secundário, entretanto, no conjunto da estrutura social criada pela revolução; desempenhava então apenas algumas funções elementares para o partido operário. Quando a classe operária foi destroçada no curso da guerra civil, o partido sobreviveu, pairando acima das classes. Assim sendo, tornou-se fundamental a tarefa de manter unidos o partido e o estado. Dentro do estado e do partido isso se fez cada vez mais por métodos de controle considerados burocráticos e que frequentemente eram operados por burocratas vindos da época do czarismo. Pouco a pouco, a máquina do partido passou a ser a verdadeira sede do poder no interior do partido, nomeando funcionários em todos os níveis e selecionando os delegados às conferências. Mas, como era o partido e não a classe operária quem detinha o controle do estado e da indústria, o partido foi quem herdou os ganhos alcançados pelos operários durante a revolução.

A primeira consequência dessa situação refletiu-se ao nível das medidas concretas, na inércia burocrática. Os burocratas resistiam a qualquer política que viesse a prejudicar suas posições e começaram a agir de forma repressiva contra qualquer grupo que se lhes opusesse. Daí a sua resistência aos programas propostos pela esquerda e a sua recusa em permitir que tais medidas fossem discutidas seriamente. Nesta fase em que a burocracia reagia negativamente ao que viam como ameaças de convulsões sociais, ela muito naturalmente aliou-se à direita e a Bukharin. Esta aliança obscureceu o fato de que a burocracia estava começando a existir, e de maneira crescente, como uma unidade social autônoma e com suas próprias relações com os meios de produção. Assim, a repressão contra a oposição dentro do partido pareceu ser uma tentativa por parte da cúpula de impor uma política pró-camponesa sobre a base, e não uma fase de sua campanha para remover todos e quaisquer obstáculos ao seu pleno domínio sobre o estado e a indústria. Mesmo depois de se ter proclamado o “socialismo num só país”, seus fracassos no exterior pareciam ser antes o resultado de sua inércia burocrática e da sua política interna pró-camponesa do que de um papel contrarrevolucionário consciente.

A burocracia durante todo este período estava, de fato, evoluindo de “classe em si” para uma “classe para si”. Na época em que foi lançada a Nova Política Econômica, o poder dentro do partido e do estado estava objetivamente nas mãos de um punhado de funcionários, que estava longe de ter consciência de compartilharem conjuntamente certos objetivos. As políticas que estavam levando à prática eram formuladas por elementos do partido ainda fortemente influenciados pelas tradições do socialismo revolucionário. Apesar das condições objetivas dentro da Rússia terem levado à liquidação da democracia operária, pelo menos havia a possibilidade de que elementos imbuídos daquelas tradições fossem capazes de restaurá-las, dado a recuperação no setor industrial e a revolução em outros países. Em nível mundial o partido certamente continuou a desempenhar um papel revolucionário. É claro que cometia alguns enganos nos conselhos que dava a partidos estrangeiros, alguns dos quais certamente decorrentes de sua própria burocratização, mas o certo é que não cometeu atos criminosos subordinando esses partidos a seus próprios interesses nacionais. Na luta entre as várias facções durante a década de vinte, pode-se vislumbrar o processo subjacente pelo qual esse grupo social despojou-se das posições revolucionárias para assumir um papel autônomo de classe social consciente e agindo em seu próprio interesse.

9 – A CONTRARREVOLUÇÃO

  Tem se afirmado com frequência que a ascensão do stalinismo na Rússia não pode ser chamada de “contrarrevolução”, pela simples razão de que se trata aí de um processo gradual (Trotsky, por exemplo, dizia que esta posição significava dizer que se “rodava o filme do reformismo de trás para diante”). Mas dizer isto não é apenas não entender, é massacrar o método marxista. A transição de uma sociedade a outra não se faz necessariamente sempre através de uma mudança brusca. No caso da transição de um estado capitalista a um estado proletário, há de fato esta mudança; isso porque a classe operária só é capaz de impor o seu regime coletiva e repentinamente. Através de um confronto com a classe dominante em que como ponto culminante de um longo período de lutas, as forças desta dita classe são derrotadas. Por outro lado, na transição do feudalismo ao capitalismo, deram-se muitos casos em que não se deu uma única colisão decisiva e sim, toda uma série de choques de diferentes intensidades, em diferentes níveis, na medida em que a classe economicamente dominante, ou seja, a burguesia, foi forçando políticas que a beneficiavam.

A contrarrevolução na Rússia seguiu-se de acordo com esta última teoria e não com a primeira, pois a burocracia teve que tomar o poder aos operários através de diversos avanços. A consequência da dizimação da classe operária foi que o poder, em todos os níveis da sociedade, passou às mãos da burocracia, e seus membros se viram no controle da indústria, da polícia e do exército. Não lhes foi nem mesmo necessário apoderar-se do aparelho do estado para poder entrosá-lo com o seu domínio na esfera da economia, tal como o fizera a burguesia, com nítido sucesso, em vários países e sem súbitos enfrentamentos. A burocracia precisou tão simplesmente ajustar uma estrutura política e econômica que já estava sob o seu controle, para servir aos seus próprios interesses. Não foi esse, um processo que se deu “gradualmente”, e sim através de uma série de mudanças qualitativas, que tiveram como finalidade alinhar o funcionamento interno do partido com as exigências da burocracia central. Cada uma destas mudanças qualitativas só pôde ser feita depois de um choque frontal com aqueles elementos do partido, que por várias razões, ainda defendiam as ideias do socialismo revolucionário.

O primeiro (e o principal) desses conflitos foi com a Oposição de Esquerda, em 1923. A burocracia reagiu contra esta com uma ferocidade jamais vista, apesar de que a oposição não combatia o que estava se passando no partido de uma maneira inteiramente coerente ou decisiva (basta dizer que o seu líder, Trotsky, havi sido porta-voz de algumas das afirmações mais escandalosamente substituístas durante o debate sobre os sindicatos em 1920; também a primeira declaração pública do grupo, a “Plataforma dos 46”, foi aceita pelos signatários somente após numerosos adendos e com muitas reservas). Com o fim de conservar o seu poder intacto, a cúpula dominante empregou métodos jamais vistos em polêmicas anteriores no seio do Partido Bolchevique. Calúnias usadas sistematicamente para difamar os adversários tomaram o lugar das discussões racionais. O controle que o secretariado do partido detinha sobre as nomeações passou a ser usado abertamente, e pela primeira vez, para demitir de seus cargos aqueles que apoiavam a oposição. Assim, a maioria do comitê central dos “Komsomol” foi demitida e desterrada para o interior, quando responderam a ataques contra Trotsky por parte da burocracia.

Para justificar o emprego de tais métodos, a cúpula dominante inventou duas novas entidades ideológicas, que a seguir contrapôs como completamente antagônicas. Por um lado, iniciaram o culto do “leninismo” apesar dos protestos da viúva de Lenin, propondo-se a elevá-lo a uma posição semidivina, mumificando o seu corpo como se fosse um Faraó egípcio. Por outro lado, inventaram a noção do “trotskismo”, como uma tendência inimiga do “leninismo”. Justificavam essa invenção com certas citações de Lenin, coisas escritas há dez ou vinte anos, e fechando os olhos às últimas declarações de Lenin em seu “Testamento” em que se referia a Trotsky como o “homem mais capaz do Comitê Central” e sugeria que Stalin fosse removido. Os dirigentes do partido cometeram essas falsificações propositalmente para derrotar qualquer ameaça ao seu controle sobre o partido (Zinoviev, que era o elemento mais importante do “triunvirato”, viria a admitir isto anos mais tarde). O que esses acontecimentos revelam é que uma parte do partido passara a considerar que era mais importante conservar o seu poder, do que as tradições socialistas de livres discussões dentro do partido. Pelo seu comportamento, quando reduziram a teoria a um mero objeto, subordinado as suas ambições, a burocracia passara a enfrentar os outros grupos sociais, afirmando a sua existência autônoma.

O segundo grande conflito começou de maneira muito diferente. Não se tratava, a princípio, de um conflito entre membros do partido dotados de princípios socialistas e de uma burocracia que se tornava cada vez mais poderosa. O que se deu foi que Zinoviev, que naquela época era ostensivamente o líder do partido, entrou em choque com a máquina partidária, que era quem realmente detinha o poder. Em Leningrado, Zinoviev controlava um setor da burocracia que gozava de uma larga medida de independência com relação ao resto. Apesar de que a forma como funcionava não diferia muito da maneira com que se comportava a burocracia no resto do país, o fato de ser independente constituía um obstáculo à burocracia central. Representava uma possível fonte de políticas e atividades que poderiam perturbar o domínio da burocracia sobre o conjunto da União Soviética. Por isso, tinha que ser absorvida no âmbito da burocracia central. Ao findar-se esse processo, Zinoviev viu-se excluído de sua posição de direção do partido. Derrotado, voltou novamente às fontes históricas do bolchevismo e às posições de esquerda, embora nunca tenha deixado de desejar o seu retorno ao bloco dominante, vacilando constantemente entre a esquerda e a burocracia durante o curso da década seguinte.

Com a queda de Zinoviev, todo o poder ficou em mãos de Stalin, que exprimia, mais do que ninguém, a nova realidade em que a burocracia se encontrava, cada vez mais consciente de si mesma, por seu uso ilimitado de métodos burocráticos para impor o seu controle dentro do partido, seu desprezo pela teoria, sua hostilidade às posições herdadas e ideias de uma revolução em que desempenhara um papel de pequena importância. Enfim, pelo fato de que se dispunha a empregar quaisquer meios para se livrar daqueles que realmente haviam liderado a revolução. Ele mostrou todas estas qualidades, em sua plena extensão, na luta contra a nova oposição. Reuniões reduzidas a simples formalidades, discursos de oposicionistas impedidos pelas vaias, os oposicionistas mais conhecidos viam-se removidos para postos sem qualquer importância em áreas longínquas. Antigos oficiais czaristas foram usados como agentes provocadores para comprometer grupos oposicionistas. Finalmente, passou a imitar os czares diretamente e a deportar os revolucionários para a Sibéria. Mais tarde, contudo, nem isso lhe bastou; cometeu o que nem os Romanoff tinham sido capazes de fazer: mandou assassinar sistematicamente todos aqueles que haviam constituído o partido revolucionário de 1917.

1928 foi o ano em que a facção stalinista consolidou o seu domínio completo sobre o partido e o estado. Quando Bukharin e a direita romperam, horrorizados pelo que haviam ajudado a criar, viram-se ainda com menos forças do que a oposição de esquerda. No entanto, o partido não controlava todo o corpo social na Rússia, pois as cidades, que era onde realmente detinha o poder, estavam cercadas por um mar de pequenos produtores camponeses. A burocracia usurpava os avanços feitos pela classe operária durante a revolução, mas até então o campesinato não fora atingido de maneira fundamental. Isso foi demonstrado claramente à burocracia quando, em 1928, houve uma recusa em massa da parte dos camponeses de vender o seu trigo.

A sua resposta foi impor o domínio das cidades sobre o campo, coisa que a Oposição de Esquerda vinha exigindo há anos. Isso levou vários oposicionistas, como Preobrazhensky e Radek, a fazer as pazes com o regime de Stalin. Essa política, porém, era precisamente o contrário do que propusera a esquerda, que insistira em subordinar a produção camponesa à indústria urbana, mas uma indústria controlada pelos operários. No entanto, a indústria já não era mais da posse dos operários, tendo passado ao controle da burocracia, que detinha o controle do estado. A imposição do domínio das cidades sobre o campo representava, dada esta situação, não a dominação do campesinato pela classe operária, mas a vitória da burocracia contra o último setor da sociedade que ainda escapava ao seu controle. Esta dominação foi imposta com toda a ferocidade que caracteriza as classes dominantes. Não só os kulaks (camponeses ricos) foram perseguidos, mas todas as camadas da população do campo, vilas camponesas inteiras. A guinada à “esquerda” que se deu em 1928 finalmente liquidou a Revolução de 1917, no campo como nas cidades.

Não há dúvida que no ano de 1928 uma nova classe assumiu o poder na Rússia. Não teve de se engajar num conflito militar frontal contra os operários para tomar o poder, pois os operários não exerciam o poder diretamente desde 1918. Mas teve que expurgar o partido, que se conservava no poder, de todos aqueles que ainda possuíam elos com posições socialistas bolcheviques, por mais tênues que fossem. Quando entrou novamente em conflito com a classe operária, já então refeita, como em Berlim (1953) e Budapeste (1956), empregou os tanques que não tivera que utilizar em 1928.

A Oposição de Esquerda não tinha uma ideia clara sobre o fenômeno contra o qual lutava. Até o dia de sua morte, Trotsky acreditou que o aparelho de estado que o caçava e que haveria finalmente de conseguir assassiná-lo, era um estado operário “degenerado”. No entanto, foi essa mesma oposição de esquerda, e ela só, que lutou no dia a dia contra a destruição da revolução, dentro da Rússia, e a sua obstrução no exterior, pela máquina stalinista. Não nos ocupamos aqui das oposições anteriores, como a oposição operária e a democrática centralista. Se bem que estas tenham surgido para começar a contestar o processo de burocratização e degeneração da revolução, era também uma reação utópica contra a realidade objetiva (ou seja, a força real dos camponeses e a fraqueza igualmente real da classe operária). Os elementos que continuaram em oposição e era o que realmente importava na oposição operária, se uniram depois à Oposição de Esquerda, enquanto os seus lideres, Kollontai e Shliapnikov, renderam-se a Stalin. Durante toda uma fase histórica, a Oposição de Esquerda lutou sozinha contra as influências deformadoras do movimento stalinista e da social-democracia. Suas próprias teorias sobre a União Soviética dificultavam em muito sua tarefa, mas mesmo assim, a levaram adiante. É por isso que hoje em dia, qualquer movimento genuinamente revolucionário tem que se posicionar a partir da linha daquela corrente.

 NOTAS

1 – Trotsky, A História da Revolução Russa (edição inglesa) p.72

2 – Martov e Axelrod (17 de novembro de 1917), citado por Israel Gettler in Martov, Cambridge (1967)

3 – Israel Gettler, op.cit p. 183

4 – Ibid. p. 199.

5 – Ver Trotsky, Hue anda Cry over Kronstadt.

6 – Citado por Max Schachtman, The Struggle for the New Course, New York 1943 p.150.

7 – Lenin, Collected Works vol 32, p.24 (ed. Inglesa)

8 – Note-se a resposta de Lenin à exigência de Riazanov de que se proibisse a prática no partido de diferentes grupos apresentarem suas “plataformas”: “Não podemos privar o partido e os membros do Comitê Central do direito de fazer apelos ao Partido, quando surgem divergências quanto a questões fundamentais. Não consigo nem pensar em como poderíamos fazer uma coisa destas!” Lenin, Collected Works vol. 32 p. 261.

9 – Apêndice a E.H. Carr, The Interregnum , p. 369.

10 – Citado por Schachtman, op. cit., p. 172.

11 – E.H.Carr, op. cit., p. 39.

12 – Ibidem.

13 – Veja-se Stalin, Lenin and Leninism, edição russa de 1924, p.40: “A vitória final do socialismo num só país poderá ser conseguida sem os esforços conjugados dos proletários de vários países avançados? Não, isso é impossível”. (Citado por Trotsky em The Third International after Lenin, p. 36).

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3 respostas para Como se perdeu a revolução russa – Chris Harman

  1. Muito obrigado. O artigo reúne, sobretudo, informações, posicionando-se ma medida certa, isto é, sem constituir-se em discurso, que sempre prejudica o debate. A proximidade dos 100 anos da Revolução de outubro de 1917 certamente é um momento importante do embate ideológico, que melhor poderá servir à causa socialista se souber tirar lições e aprender com os desafios e erros do passado.

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    • R. Polly disse:

      Obrigado pelo comentário. Você tem razão, Elias. Os 100 anos da revolução russa será um momento de enorme importância para refletirmos não apenas sobre 1917, mas para discutirmos a questão da estratégia socialista nos dias de hoje. Planejamos criar uma seção especial sobre o tema. Abraço. Rui

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      • A seção, sem dúvida, será bem-vinda, e é urgente, pois em geral, a Revolução de Outubro será lembrado pelos detratores como oportunidade para execração do socialismo, e pelos adeptos do stalinismo, como oportunidade de afirmação de que não poderia ter sido diferente, tanto pelas circunstâncias, como pelas “leis férreas da história”. Ambas as perspectivas de justificam mutuamente, em prejuízo da busca pela liberdade. Ha história da liberdade não é a dos que se curvam às circunstâncias ou às leis, mais é dos que se atrevem a romper as barreiras do possível e a fazer as leis que subvertem e presente e constroem o futuro.

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