A China irá superar os EUA? – Chris Harman

Em 2013 a China superou os EUA em relação ao volume de comércio internacional. A soma das exportações e importações chinesas atingiu U$ 4,16 trilhões, enquanto os EUA atingiu U$ 3,19 trilhões. Em 2014 os chineses romperam outra barreira, superando os EUA em consumo de energia, e espera-se que outros “recordes” sejam quebrados. Tudo isso parece confirmar a ideia de que a China em breve se tornará a principal potência econômica do planeta. Para muitos esses fatos demonstrariam as virtudes do modelo adotado pelo governo chinês, ainda considerado por alguns setores da esquerda como “comunista”. Neste artigo, publicado em janeiro de 2004 na revista inglesa Socailist Review, Chris Harman discute o ‘modelo’ chinês de desenvolvimento, apontando tanto as causas do seu dinamismo quanto as suas contradições.

A China irá superar os EUA? – Chris Harman   material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,china-supera-eua-e-vira-lider-do-comercio-mundial,175014eO material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,china-supera-eua-e-vira-lider-do-comercio-mundial,175014e

De repente, a China está no centro das discussões sobre o desenvolvimento da economia mundial. Isto não surpreende. Afinal, a economia do país tem crescido continuamente por mais de duas décadas, escapando da crise que atingiu as outras economias “em desenvolvimento” da Ásia Oriental no final dos anos 1990, e ocupa agora a posição de maior produtor mundial de aço. Suas exportações cresceram: enquanto correspondiam aproximadamente a 1,2 % do total mundial em 1980, nos dias de hoje correspondem a cerca de 5% (mais ou menos o mesmo que a Inglaterra). O crescimento contínuo, a uma taxa média anual de 17%, tem levado alguns analistas a apontarem a China como a nova “Oficina do mundo”, e a preverem que o país poderia ultrapassar as exportações dos EUA antes de 2010 (Martin Wolf no Financial Times, 12 de novembro de 2003). Este crescimento está atraindo investimentos estrangeiros a uma velocidade crescente, de modo que agora a China obtém mais investimentos norte-americanos do que o México, apesar deste último fazer parte da Área de Livre Comércio da América do Norte, o NAFTA. Ao mesmo tempo, a necessidade de matérias-primas para alimentar esse crescimento está beneficiando capitalistas em países como o Brasil, reduzindo a sua dependência em relação aos EUA e a União européia (cada um deles importa cerca de U$14 bilhões por ano do Brasil). “A China foi o maior mercado de exportação da Argentina em junho e julho, e as exportações do Brasil para a China aumentaram 136%, alcançando quase US$3 bilhões nos primeiro oito meses de 2003” (Financial Times, 26 de setembro de 2003).

O sucesso industrial

O sucesso da indústria chinesa nos mercados mundiais ocorreu em compasso com a reintrodução de muitos dos mecanismos clássicos do capitalismo de mercado – Bolsas de Valores, a mensuração do sucesso industrial por estatísticas relacionadas ao lucro, e uma carta branca para o investimento direto estrangeiro. Isto desafia uma idéia assumida como profissão de fé por muitos setores da esquerda (embora não apareça em nenhum dos escritos de Lênin e Trotsky): a idéia de que países do Terceiro Mundo não poderiam se desenvolver economicamente enquanto estivessem vinculados ao sistema capitalista mundial.

Os ideólogos do neoliberalismo se agarraram a esse fato, afirmando que a adesão da China ao mercado é um exemplo a ser seguido por outros países do Terceiro Mundo. Supostamente esses países só teriam que terminar de desmantelar o controle estatal para prosperar, superando a pobreza das suas populações. Este argumento tem três grandes erros.

O sucesso do capitalismo de mercado chinês nas últimas duas décadas só foi possível por causa das três décadas anteriores de capitalismo estatal. Assim como nos dois tigres asiáticos mais importantes, Coréia do Sul e Taiwan, o comando estatal foi utilizado para a construção das indústrias de base, ao mesmo tempo em que uma intensa repressão manteve os padrões de vida em um nível baixo. A entrada bem sucedida no mercado mundial não teria sido possível sem este período anterior de acumulação “primitiva” de capital.

Nada disto tinha a ver com socialismo no real sentido da palavra. Em um país muito pobre, onde a maioria das pessoas nunca se afastou muito do limite extremo da miséria, cerca de 30% da renda nacional foram destinados à construção da indústria – frequentemente de forma ineficaz – e para a defesa. O fardo sobre a massa da população era enorme, resultando, no seu ponto mais alto durante o “Grande Salto Adiante” no final dos anos 1950, em cerca de 20 milhões de mortes causadas pela fome. E esse fardo só poderia ter sido imposto por meio de toda a parafernália totalitária e o culto à personalidade, culminando na caça às bruxas da “Revolução Cultural”, período descrito em livros como Cisnes Selvagens.

Sem o crescimento da indústria pesada, o sucesso das indústrias exportadoras da China a partir do final dos 1970 teria sido impossível. Elas dependeram das velhas indústrias estatais do norte para o fornecimento de equipamentos e matérias primas baratas e abundantes para as novas indústrias privadas das regiões costeiras do leste e sudeste.

Em segundo lugar, a exaltação neoliberal do “desenvolvimento” chinês ignora o seu caráter desigual (como muitos modelos estatais de desenvolvimento). Da mesma forma que existem os centros urbanos modernos com seus arranha-céus, há centenas de milhares de aldeias onde as pessoas vivem na miséria. O Banco Mundial estima que 204 milhões de pessoas – uma proporção de uma pessoa em cada seis – vivem com menos de um dólar por dia. A maioria dessas pessoas está nas aldeias. Até mesmo em aldeias situadas relativamente perto de grandes cidades existe miséria. Longe dos centros comerciais e industriais, a situação é pior.

Assim, um relatório de autoria de Yu Jianrong, investigador da Academia Chinesa de Ciências Sociais, afirma: “As autoridades das cidades e aldeias usam o seu poder direta e indiretamente para servir aos seus interesses privados, aceitar subornos, realizar chantagens e extorsões, banquetes e festas regadas a álcool – gerando relações tensas entre as autoridades e as populações locais”.

Um fazendeiro em Henan listou os impostos e taxas que ele teria que pagar – para manutenção da aldeia, para o interesse público, para custos administrativos, para educação, para caridades, para treinamento da milícia, para consertos de estradas e para o controle de natalidade. Ultimamente havia uma taxa para financiar a coleta de impostos (Financial Times, 23 de setembro de 2003).

Alguns funcionários dizem que os níveis de pobreza total não importam, uma vez que uma parte da riqueza gerada pelo crescimento econômico está sendo destinada às aldeias. Zhang Xiaohui, de um ministério de pesquisadores agrícolas, conta como ‘o gasto per capita médio em bem duráveis – refrigeradores, aparelhos de TV, ar condicionado e telefones móveis – nas zonas rurais, cresceu cerca de 33% no último ano, chegando a 89 Remninbis (Financial Times, 23 de setembro de 2003). Mas 89 Remninbis representam apenas 5 libras esterlinas. Dificilmente isso pode ser considerado um exemplo de prosperidade. E mesmo esta quantia não está dividida uniformemente entre as famílias das aldeias, mas sim concentrada “nas mãos das autoridades das aldeias e dos fazendeiros mais prósperos”.

Trabalho temporário

Isto explica por que, apesar das imagens de uma classe média cada vez mais acostumada ao estilo de vida ocidental e aos bens de luxo, ainda existam entre 100 milhões e 150 de milhões de camponeses – como aqueles mostrados no filme chinês Blind Shaft – que a cada ano vão para as cidades em busca de qualquer tipo de trabalho temporário. Uma vez nas cidades, enfrentam a competição de outros 30 milhões de desempregados urbanos. Não há sinais de que este índice vá diminuir. Ao contrário, nas antigas indústrias pesadas ocorrem cortes de mão de obra para aumentar ainda mais a sua capacidade de fornecimento às novas indústrias exportadoras.

Um bom exemplo do que está acontecendo é a PetroChina (ainda 90% estatal). A empresa cortou três quartos de sua mão-de-obra, que no passado chegou a 1,6 milhões de pessoas. Quando os trabalhadores perdem os seus empregos na indústria pesada, também perdem os benefícios sociais mínimos (moradia barata, atendimento médico) – a chamada “tigela de arroz de ferro”.

A grande maioria dos trabalhos novos que vão sendo criados conforme o crescimento de outras indústrias só é atraente em comparação à grande pobreza, que é o destino dos desempregados urbanos e de muitos camponeses. Assim, por exemplo, a companhia de calçados Pou Chen, que emprega 110.000 pessoas, paga a seus trabalhadores aproximadamente £59 por mês, ou 27 pences por hora para uma jornada de trabalho que chega a 69 horas semanais, e proporciona dormitórios para os trabalhadores migrantes que são obrigados a obedecerem ao toque de recolher (Financial Times, 4 de fevereiro de 2003).

A pobreza rural, o desemprego, os cortes de mão-de-obra nas indústrias antigas e os baixos salários não são características acidentais do ‘modelo’ chinês, mas sim características inerentes ao mesmo. O crescimento da produção é baseado em taxas de acumulação até maiores do que as taxas que prevaleceram durante o auge da economia de comando. Estimativas sugerem que não menos que 40% da renda nacional são “economizadas’, isto é, desviadas do consumo para algum tipo de investimento. Isso não é possível sem manter o padrão de vida de grande parte da população em um nível mínimo, mesmo com a multiplicação do número de milionários e com setores da classe média ganhando acesso, pela primeira vez, a bens de consumo ao estilo ocidental. A acumulação de riqueza na China significa acumulação de pobreza, da mesma maneira que na Inglaterra da época de Marx.

Os defensores do “modelo” chinês argumentam que isso é um fenômeno temporário, que a expansão econômica integrará os camponeses no setor moderno, e que os salários nesse setor aumentarão na medida em que crescer a produção nacional total. Eles prevêem um tempo em que a demanda massiva de bens de consumo na China permitirá a outros países (mais pobres) da Ásia seguirem o mesmo caminho rumo à industrialização. Supõem, portanto, que o crescimento chinês se estenderá pelo futuro, sem maiores problemas.

Este é o terceiro erro dos seus argumentos. Não há nada que garanta que o crescimento continuará dessa forma. Na realidade, há elementos embutidos no modelo e na sua articulação com o sistema mundial mais amplo que tornam tais previsões improváveis.

O modelo se baseia em um nível de acumulação que não pode ser sustentado facilmente, mas que também não pode ser abandonado facilmente. O dinamismo das ‘novas’ indústrias está baseado numa competição frenética para construir instalações de produção, uma concorrência entre as empresas locais e entre empresas locais e empresas estrangeiras.

Para o momento atual isto se traduz no crescimento das exportações chinesas e, domesticamente, numa expansão rápida dos bens de consumo disponíveis para os setores da classe média. Assim, as vendas de carro de outubro de 2003 foram 40 por cento maiores do que foi um ano antes, as vendas de móveis aumentaram 40 por cento, e as vendas de produtos de decoração e audiovisuais aumentaram 21,5 por cento.

Mas como no boom capitalista clássico, problemas sérios espreitam sob a superfície.

O primeiro problema é uma tendência ininterrupta para a superprodução. Empresas rivais estão expandindo suas instalações, mesmo que a pressão para manter os salários dos trabalhadores e as rendas dos camponeses achatados, nos interesses da acumulação, impeça um crescimento rápido do mercado interno. De acordo com a Agência Estatística Nacional, “cerca de 90% de todos os produtos manufaturados na China estão em uma situação de super-oferta”. Oficiais do governo chinês reclamam que “o investimento em muitos setores – incluindo propriedade, cimento, aço, carros e alumínio – está sendo exagerado’ (Financial Times, 18 de novembro de 2003)”.

Corte de Preços

As empresas reagiram tentando se livrar de bens de consumo produzidos em excesso, através do corte de preços: “Entre as companhias chinesas, a guerra de preços é particularmente intensa porque os competidores freqüentemente preferem disputar a participação no mercado, do que tentar melhorar a rentabilidade de curto prazo… A competição inexorável entre fornecedores locais mantém margens de lucro quase invisíveis para muitas companhias…” (Financial Times, 4 de fevereiro de 2003).

A rentabilidade de muitas exportações não pode ser muito mais alta, uma vez que as companhias chinesas nos mercados externos não competem somente com bens e produtos mais caros de países já industrializados como a Coréia do Sul, mas com bens baratos de outras empresas chinesas – veja-se a queda dos preços de varejo de produtos eletrônicos de fabricação chinesa.

A tendência à superprodução é acompanhada pelo investimento contínuo em plantas e maquinários capital-intensivos em lugar de trabalho-intensivos. “As companhias frequentemente acham que é mais barato gastar dinheiro na mecanização, em lugar de empregar e treinar novos trabalhadores. Isto tem resultado em uma queda no número de empregos criados enquanto porcentagem do crescimento do PNB nos últimos anos, diz Li Shuguang, da Universidade Zhengfa de Beijing” (Financial Times, 23 de outubro de 2003).

Em outras palavras, a expansão da produção até os limites do mercado é acompanhada por uma elevação na proporção do investimento em relação ao trabalho – o que Marx chamou de “aumento da composição orgânica de capital”. Esses dois fatores conjugados exercem uma pressão sobre os lucros industriais, a qual é ocultada pela boa vontade dos bancos em fornecer crédito.

Mas isto coloca questões sobre os próprios bancos. Calcula-se que os seus empréstimos ‘não executáveis’ correspondam a algo entre 20% e 45% do Produto Nacional Bruto. O jornal Financial Times comenta que “sob qualquer ótica, a China possui o sistema bancário mais débil entre todas as grandes economias.”

O governo poderia – e provavelmente vai – intervir para impedir a falência dos bancos. Mas isso representaria um custo enorme para a receita do governo.

A ampliação das vendas para o exterior é a única maneira de aliviar a pressão sobre a rentabilidade. Mas isto depende, pelo menos em parte, do governo que mantém baixo o preço dos produtos chineses impedindo que o superávit comercial da China conduza a uma elevação do valor em dólar da sua moeda, o Remninbi. Tal elevação, exigida pelo governo dos EUA, elevaria o preço das exportações chinesas e tornaria as importações estrangeiras mais competitivas em relação aos produtos fabricados na própria China.

Em conseqüência, a situação aparentemente absurda de governantes que procuram desesperadamente industrializar e ampliar a indústria através da concessão de vultosas somas ao sistema bancário dos EUA para manter elevado o valor do dólar e baixo o da sua própria moeda. O último absurdo é que parte desse dinheiro está agora voltando para a China, para permitir que multinacionais norte-americanas adquiram o controle de parcelas da indústria chinesa.

Longe de a China estar em um caminho estável para o crescimento, os seus governantes estão envolvidos em uma estratégia elaborada – que em parte depende de outra, levada a cabo pela administração dos EUA, a qual tenta impedir um colapso do dólar mantendo o fluxo de fundos chineses e de outros lugares do leste asiático, ao mesmo tempo em que tenta forçar o governo chinês a modificar o valor de sua moeda para facilitar a vida dos fabricantes norte-americanos.

Essas medidas do governo chinês podem funcionar. Profecias catastróficas de crise econômica iminente na China no início dos anos 1990 e no final da mesma década (por exemplo, uma afirmação na revista The Economist em outubro de 1998 de que “a China está a ponto de pegar a doença japonesa”) se mostraram erradas. Mas ninguém em sã consciência apostaria em um resultado favorável por um futuro indefinido. O fato de que os ciclos de crescimento do capitalismo nem sempre acabem em recessões catastróficas não significa que nunca irão acontecer.

Existe um dinamismo no capitalismo, mesmo em uma fase propensa a crises como a que vivemos no presente. A competição ainda pode significar a ascensão, às vezes de forma inesperada, de alguns capitais, e o declínio igualmente inesperado de outros. Mas o dinamismo gera instabilidade, não uma expansão equilibrada para o sistema como um todo, e isto se traduz em crises políticas e sociais repentinas.

Enquanto isso a expansão da indústria está aumentando o tamanho da força social, a classe trabalhadora. O medo dos governantes chineses em relação a essa força levou-os ao massacre selvagem dos protestos estudantis na Praça da Paz Celestial em 1989. E nos últimos anos a erupção de greves tanto nas indústrias antigas quanto nas novas, mostraram que essa força está começando a desenvolver suas próprias tradições de luta em oposição aos velhos capitalistas estatais e a sua prole capitalista privada.

Publicada em Socialist Review n° 281

Tradução: Rui Polly

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2 respostas para A China irá superar os EUA? – Chris Harman

  1. Sérgio Domingues disse:

    Rui, muito boa a iniciativa de disponibilizar estes textos. Mas seria bom colocar a data em que foram escritos orginalmente. Abraço

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