Lenin e o nascimento do bolchevismo – John Molyneux

Resgatar criticamente o legado teórico e político de Lenin é ouma tarefa importante para os socialistas. Principalmente, considerando as deformações decorrentes da tentativa de transformar suas ideias em dogmas intocáveis ou, contrariamente, na tentativa de estabelecer uma ligação com o stalinismo. Um dos aspectos mais controversos da obra de Lenin é a chamada “concepção leninista de partido”. O texto de John Molyneux é uma contribuição importante para uma reflexão crítica sobre esse tema importante, principalmente nos dias de hoje em que testemunhamos o fortalecimento do sentimento anti-partido. 

Lenin e o nascimento do bolchevismo (*)

John Molyneux

Embora o marxismo seja, como afirmou Gramsci, uma ‘filosofia da práxis’, e seja, portanto, hostil ao fatalismo, o próprio Marx (como vimos), devido às condições predominantes e à sua determinação de evitar o sectarismo, nunca se libertou completamente de uma concepção fatalista de organização política. O partido político do proletariado emergiria gradualmente, espontaneamente, da ampla luta da classe operária. Na social-democracia essa tendência fatalista consolidou-se profundamente na esfera da organização, e depois se estendeu à teoria do desenvolvimento capitalista, da revolução proletária e da natureza da própria atividade humana. A prática do bolchevismo e as idéias de Lenin sobre a organização marcaram uma ruptura com esse fatalismo e constituíram, assim, um tremendo passo adiante para a teoria marxista não só em relação à social-democracia, mas também em relação a Marx. Somente com Lenin a concepção de um amplo partido que representa, ou então é a classe operária, foi substituída por uma concepção de um partido de uma minoria (no período pré-revolucionário) que é a vanguarda da classe e que, desde que é a encarnação organizativa do futuro socialista dessa classe, tem o dever de se defender e lutar contra todas as manifestações de oportunismo.

1. A origem do bolchevismo

O bolchevismo não nasceu pronto, mas desenvolveu-se e cresceu através de uma série de lutas internas e externas. Nem pode ser visto simplesmente como produto do gênio organizativo de Lenin. A idealização de Lenin, tão comum nos círculos marxistas, combinada com a tendência dos teóricos stalinistas a escrever a história revolucionária da Rússia como se houvessem somente dois protagonistas – o povo da Rússia e Lenin (eliminando todos os demais indivíduos e personalidades) -, criou uma imagem do bolchevismo como uma invenção de Lenin, do mesmo modo que a máquina a vapor foi uma invenção de Watt. De fato, a própria ruptura com o gradualismo na esfera da organização foi um processo gradual e semiconsciente, embora marcado por muitas lutas agudas e conscientes. O leninismo foi o produto de uma resposta contínua e em permanente desenvolvimento a uma situação concreta, e para compreendê-lo devemos analisar os elementos da situação que o tornaram possível.

O primeiro fator que vem à mente como uma fonte do bolchevismo é o que Tony Cliff chama de “tradição substituísta do movimento revolucionário russo” (1). Essa tradição era, de fato, muito forte. Nos anos 60 e 70 do século passados dezenas, ou ocasionalmente centenas, de intelectuais heróicos e idealistas (os ‘populistas’ ou narodniks) opunham-se à autocracia, ‘indo ao povo’ como seus educadores e iluminadores, atuando ‘em nome do povo’ com audazes atos de terrorismo. E ao fazer isso esses narodniks ganhavam o respeito e a admiração dos revolucionários russos, inclusive de Lenin, que se refere várias vezes à sua “devotada determinação e vigor” (2). Para reforçar esse argumento vários fatos de evidência biográfica podem ser colocados: a influência na formação de Lenin de escritores basicamente elitistas como Chernichevsky e Tkatchev (3) e, é claro, o destino de seu irmão, executado pelo regime czarista por terrorismo.

Mas esse argumento, embora seja atraente à primeira vista, não resiste a um exame crítico. Ele ignora o fato de que Lenin afirmou seu instrumental teórico precisamente na luta contra os narodniks, que ele se opôs ao terrorismo individual por toda sua vida, que recusou a tomada do poder em 1917 até que os bolcheviques tivessem maioria nos sovietes, e ainda que ele lançou a luta mais vigorosa contra todas as formas de ‘puchismo’, de tentativas de sublevação por minorias, no terceiro congresso da Internacional Comunista (1921).

Não o terrorismo, mas sim a situação que o produziu, foi um fator importante no desenvolvimento das idéias de Lenin. Ele podia romper decisivamente com as teorias românticas e utópicas dos terroristas, podia aderir absolutamente à teoria da luta de classes como alavanca da revolução social, mas não poderia ter rompido com a realidade da polícia czarista. Sob o czarismo a repressão política permaneceu virtualmente absoluta, assim como a proibição a qualquer atividade sindical e grevista.

Numa tal situação o modelo social-democrata de um amplo partido que representasse toda a classe operária era simplesmente impossível.”Somente um incorrigível sonhador teria uma ampla organização de trabalhadores… sob a autocracia”.(4). De fato, no tocante ao combate à polícia czarista, quanto menor fosse a organização, melhor era. Indissoluvelmente ligada à questão do tamanho e do caráter secreto estava a necessidade de um treinamento eficiente e vigoroso. A necessidade de eficiência, que é martelada repetidas vezes em Que fazer? e que foi quase certamente o principal fator objetivo a determinar o sucesso do trabalho na época, deu lugar ao surgimento da concepção do revolucionário profissional como base da organização revolucionária. Resumindo suas idéias sobre isso, Lenin escreveu:

“em um Estado autocrático, quanto mais limitamos o quadro de membros de uma tal organização a pessoas que estejam profissionalmente engajadas na atividade revolucionária e que tenham sido treinadas profissionalmente na arte de combater a polícia política, mais difícil será para organização ser descoberta.” (5)

A eminente praticidade dessa ênfase no segredo, no treinamento e profissionalismo, deve estar clara. Mas esse elemento de pura praticidade ou necessidade na teoria de Lenin sobre a organização pode facilmente ser exagerada. Se a conveniência imediata fosse a única coisa a ser levada em consideração, então seria correto afirmar, como Leonard Schapiro (e muitos outros), que “as concepções de Lenin tinham talvez se aproximado mais das idéias conspirativas dos Narodnaya Volya [‘Os Amigos do Povo’ grupo narodnik] e se afastado da concepção de Marx da missão histórica de toda a classe” (6). Na realidade, isso não era assim. O núcleo central de revolucionários profissionais não era visto como um fim em si, mas como um meio. Lenin enfatiza que quanto mais firme o núcleo do partido, “maior será o número de pessoas da classe operária e de outras classes sociais que serão capazes de aderir ao movimento e realizar um trabalho ativo nele” (7). A perspectiva de Lenin era sempre a de um movimento de massas da classe trabalhadora contra a autocracia, dirigida por um partido de vanguarda.”Nós somos o partido de uma classe e, portanto, quase toda a classe (e em tempos de guerra, num período de guerra civil, toda a classe) atuará sob a direção de nosso partido” (8). Mais ainda, se apenas a necessidade prática tivesse determinado pensamento de Lenin, então suas idéias possuiriam significado apenas local e temporário. O bolchevismo teria provado ser um fenômeno especificamente russo, uma exceção à regra, e não a base para um vasto movimento e uma tradição de caráter internacional. De fato, os elementos conspirativos na concepção de Lenin são historicamente limitados, e Lenin reconhece isso:

“Sob condições de liberdade política nosso partido será construído inteiramente sobre o princípio eletivo. Sob a autocracia isso é impraticável para o coletivo de milhares de trabalhadores que formam o partido.” (9)

Se o que tornou impossível uma do partido do tipo europeu ocidental foi o nível de repressão sobre a autocracia, foi a particularidade da conjuntura social e política da Rússia e o curso do movimento revolucionário que estimularam Lenin a avançar novas descobertas e intuições teóricas, capacitando-o a dar um passo adiante em relação ao modelo social-democrata, ao invés de um passo para trás em direção à conspiração. Essa situação deve, portanto, ser examinada.

A distinção básica entre as tarefas do movimento revolucionário na Europa ocidental e na Rússia era que o capitalismo havia sido firmemente estabelecido no Ocidente, ao passo que na Rússia o capitalismo era ainda nascente e a revolução burguesa ainda não havia sido realizada. Assim, enquanto na Europa ocidental o marxismo apresentava-se aberta e diretamente como a teoria da derrocada do capitalismo pelo proletariado, na Rússia o marxismo aparecia para muitos como a teoria da inevitabilidade do desenvolvimento capitalista. Uma vez que as autoridades consideravam os terroristas como o perigo principal, e os terroristas argumentavam que a Rússia poderia saltar o capitalismo através de uma revolução imediata, a crítica marxista do terrorismo e a ênfase na inevitabilidade do capitalismo foi, por um período, saudada, ou pelo menos considerada como um mal menor. Isso levou ao que se tornou conhecido como ‘marxismo legal’, transformando o marxismo numa verdadeira moda:

“Revistas e jornais marxistas eram fundados, quase todo mundo tornou-se marxista, marxistas eram lisonjeados, marxistas eram cortejados, e os editores de livros regozijavam-se com a rápida venda de literatura marxista”.(10)

Inevitavelmente, em tal situação ocorria uma coalizão de “elementos manifestamente heterogêneos” (11). Em particular, entre aqueles que se denominavam marxistas estavam os que consideravam o capitalismo como inevitável e progressista, mas ao mesmo tempo queriam combatê-lo e destruí-lo, e também havia aqueles que na realidade apoiavam o capitalismo enquanto tal, para os quais o socialismo era uma retórica obscura por um futuro distante e nebuloso (o principal representante desta última corrente era Pyotr Struve, originalmente um colaborador de Lenin e Plekhanov, e fundador, em 1905, do partido democrata burguês Cadete). Isso significou que desde o início Lenin viu-se obrigado a selecionar rigorosamente, dentre um grande número de pessoas que pronunciavam frases radicais, aqueles que realmente queriam lutar. Isso foi um fator da maior importância para condicionar a intransigência doutrinária de Lenin, especialmente a sua insistência de distinguir entre o que as pessoas falavam e o que elas estavam realmente preparadas para fazer. Esta última faculdade, que foi tão agudamente desenvolvida por Lenin e é uma das características mais notáveis de todos seus escritos, jogou um enorme papel no desenvolvimento do bolchevismo enquanto partido independente.

A resposta marxista revolucionária ao problema de considerar o capitalismo como um fator progressista e, ao mesmo tempo, manter a completa independência do proletariado na luta contra o capitalismo, é a teoria da hegemonia do proletariado na revolução burguesa. Formulada originalmente por Plekhanov (“a revolução russa será vitoriosa como uma revolução dos trabalhadores ou não será vitoriosa em absoluto”) (12), embora mais tarde abandonada por ele, essa teoria tornar-se-ia uma marca do bolchevismo no período pré-1917. A essência dessa teoria é que a burguesia russa surgira tardiamente, muito depois de a burguesia ter deixado de ser uma força revolucionária em escala mundial. Conseqüentemente, a tarefa de dirigir uma revolução contra a autocracia recairia sobre o proletariado que, embora pequeno, estava se desenvolvendo rapidamente na moderna indústria de larga escala, e que podia se aliar à tremenda força natural da revolta camponesa (13). Para cumprir essa tarefa o proletariado teria que adotar a derrubada do czarismo como sua primeira e mais importante tarefa, e colocar-se na vanguarda de cada luta pela democracia e por liberdade política.

2. A crítica do ‘economicismo’

Foi essa teoria que levou Lênin ao conflito com várias correntes, as quais ele agrupava sob o termo ‘economicismo’. Os principais representantes do ‘economicismo’ na época eram o Rabochaya Mysl (‘O Pensamento dos Trabalhadores’), um jornal publicado em São Petersburgo [antigo nome da cidade de Petrogrado] de 1897 a 1903, e Rabocheye Dyello (‘A Tarefa dos Trabalhadores’), órgão da União dos Social-democratas Russos no Estrangeiro de 1899 a 1903, – este último assumindo uma posição que podia ser descrita mais estritamente como semi-’economicista’. A posição básica dessas tendências era que a social-democracia deveria concentrar seu trabalho não na luta política contra a autocracia, mas sim no trabalho de ajudar e desenvolver a luta econômica dos trabalhadores. Das controvérsias com o ‘economicismo’ nascerão muitas das idéias fundamentais do bolchevismo. Para entender e avaliar essas idéias será necessário, portanto, examinarmos as controvérsias num certo nível de detalhe – mas antes é necessário vermos o contexto no qual as divergências ocorreram, e indagar por quê elas foram tão importantes.

Basicamente, para Lenin o ‘economicismo’ levava inevitavelmente ao abandono da hegemonia do proletariado na revolução democrática vindoura, instituindo uma divisão de trabalho na qual os trabalhadores se limitariam à luta sindical, deixando a política para a burguesia. De fato, foi a defesa aberta de uma tal divisão no documento conhecido como ‘O Credo’, escrito por Y. D. Kuskova da União dos Social-democratas Russos no Estrangeiro, que primeiro motivou Lenin a investir contra o ‘economicismo’ com o seu ‘Protesto dos social-democratas russos’, em agosto de 1899 (14). Em ‘O Credo’ Kuskova havia escrito que “para os marxistas russos há somente um caminho: a participação e assistência à luta econômica do proletariado, e participação na atividade da oposição liberal” (15).

Para Lenin tal caminho significava traição a revolução, pois a “atividade da oposição liberal” (isto é, burguesa) era completamente incapaz de realizar uma oposição revolucionária conseqüente à autocracia. Ele achava que qualquer tentativa de estreitar as tarefas do proletariado e do movimento social-democrata significaria cair nas mãos da burguesia, e considerava qualquer concessão ao ‘economicismo’ como um passo nessa direção. Desse modo, o debate sobre o ‘economicismo’ antecipou a questão que viria a ser central para os marxistas russos durante os 17 anos seguintes – o papel e as tarefas correspondentes à burguesia e ao proletariado na revolução -, tendo havido uma continuidade fundamental entre o ‘economicismo’ e o posterior menchevismo na defesa do papel dirigente da burguesia na revolução.

Disso pode-se perceber que Lenin estava correto quando estabeleceu uma ligação entre o ‘economicismo’ e a tendência internacional ao reformismo ou ‘revisionismo’ na social-democracia, ligação que ele faz bem no começo do livro Que fazer?. Os ‘economicistas’ compartilhavam na prática a divisão entre o político e econômico, e defendiam, tal como Bernstein, a importância do ‘movimento’ (as reivindicações imediatas) como algo oposto ao ‘objetivo final’ (o socialismo ou, neste caso, a derrubada do czarismo).

Para Lenin, a luta polêmica implicava em ir à raiz das questões em disputa, perseguindo sem trégua a lógica dos argumentos, tanto dos seus quanto dos seus oponentes. Assim, essas polêmicas, embora enraizadas em questões concretas, invariavelmente possuíam um certo significado universal (16). O produto da luta contra os ‘economicistas’ foio Que fazer?. Essa obra teve uma imensa e merecida influência sobre a teoria e a prática marxistas por todo o mundo, mas na minha opinião, tem sido considerado incorretamente como o texto marxista padrão sobre a teoria do partido. Portanto, qualquer estudo crítico da teoria marxista do partido deve certamente examinar essa obra.

Que fazer? resume todos os argumentos de Lenin contra o ‘economicismo’ e em defesa de uma organização revolucionária de caráter nacional baseada em um quadro de revolucionários profissionais e um jornal para toda a Rússia. Assim, muitos dos pontos estabelecidos nessa obra são de natureza prática, mas seu tema central é a relação entre a espontaneidade e a consciência no desenvolvimento do movimento revolucionário. Os ‘economicistas’, acreditando que “o político sempre segue obedientemente o econômico” (17) e, portanto, que a consciência política cresceria organicamente das lutas econômicas, afirmava que a principal tarefa dos marxistas era ajudar a luta econômica, e que Lenin e os iskristas “menosprezavam o elemento espontâneo” e “superestimavam a consciência”. Mas para Lenin, mesmo esse método de apresentar o problema era completamente insatisfatório. Não era que a revolta espontânea dos trabalhadores não fosse importante (pelo contrário, era profundamente importante), mas que a sua importância estava precisamente nas exigências que colocava quanto à consciência e à organização.

O programa do Rabocheye Dyelo afirmava:

“Nós consideramos que o fenômeno mais importante na vida da Rússia, aquele que determinara principalmente as tarefas e o caráter da atividade da publicação da União, é o movimento de massas da classe operária que tem surgido nos anos recentes.”

E Lenin comenta:

“Que o movimento de massas é um fenômeno da maior importância está fora de discussão. Mas o xis da questão é, como se pode compreender a afirmação de que o movimento da classe operária “determinará as tarefas”? Ela pode ser interpretada de duas maneiras. Ou significa curvar-se diante da espontaneidade desse movimento, isto é, reduzir o papel da social-democracia à mera subserviência ao movimento da classe operária enquanto tal, ou significa que o movimento de massas coloca diante de nós novas tarefas teóricas, políticas e organizativas, muito mais complexas do que aquelas que nos teriam bastado no período anterior ao da ascensão do movimento de massas.” (18)

Essa concepção dialética da relação entre espontaneidade e consciência, entre o movimento de massas e o partido, representam tremendo passo adiante para a teoria marxista e é um avanço em relação a qualquer contribuição anterior a esse problema (incluindo as contribuições do próprio Marx e especialmente as da social-democracia alemã). Essencialmente, ela é o ponto de partida necessário para uma teoria verdadeiramente revolucionária de partido, porque é uma ruptura radical com o fatalismo (19). “Nós, social-democratas revolucionários, pelo contrário, estamos insatisfeitos com esse culto da espontaneidade, isto é, daquilo que existe ‘no presente momento’ “.[Nossa ênfase – J.M.] (20)

Para Lenin o desenvolvimento da própria luta de classes, mesmo na sua forma econômica, é um processo de mudança da ‘espontaneidade’ à ‘consciência’.

“Greves ocorreram na Rússia nos anos 70 e 60(e mesmo na primeira metade do século XIX), e foram acompanhadas pela ‘espontânea’ destruição de máquinas, etc. Comparadas com essas ‘revoltas’, as greves dos anos 90 poderiam até ser descritas como ‘conscientes’, tal a medida em que elas marcam o progresso do movimento operário naquele período. Isso mostra que o ‘elemento espontâneo’, em essência, representa nada mais e nada menos do que a consciência em sua forma embriônica.(21)

Lenin vê, portanto, como um dever dos revolucionários auxiliar o elemento consciente e trabalhar para superar a espontaneidade.

Mas Lênin não está argumentando simplesmente a favor da organização e contra a falta de organização, a favor de ser direção e contra o ‘seguidismo’ dos ‘economicistas’. O que é central no seu ataque aos ‘economicistas’, e também na sua visão sobre a natureza das tarefas do partido, é a sua rejeição da idéia de que a consciência da classe proletária possa desenvolver-se gradualmente, sobre a base de um acúmulo de lutas econômicas.

Como Lukács escreve:

“A impossibilidade da evolução econômica do capitalismo ao socialismo foi claramente provada pelos debates contra Bernstein. Todavia, o seu equivalente ideológico permanecia sem questionamento nas mentes de muitos honestos revolucionários europeus e, além disso, não era nem sequer reconhecido como um problema ou perigo.” (22)

A posição de Lenin sobre essa questão era irredutível:

“A consciência da classe operária não pode ser uma genuína consciência política a menos que os trabalhadores sejam treinados para responder a todos os casos de tirania, opressão, violência e abuso, não importa qual classe seja afetada – a menos que eles sejam capacitados, além do mais, a responder de um ponto de vista social-democrata e de nenhum outro. A consciência das massas trabalhadoras não pode ser genuína consciência de classe a não ser que os trabalhadores aprendam dos fatos e eventos concretos, sobretudo dos fatos políticos atuais, a observarem cada uma das demais classes sociais em todas as manifestações de sua vida intelectual, ética e política; a menos que aprendam a aplicar na prática a análise e a avaliação materialistas de todos os aspectos da vida e da atividade de todas as classes, estratos e grupos da população.” (23)

E, portanto,

“a consciência política de classe pode ser trazida aos trabalhadores somente a partir de fora, quer dizer, somente de fora da luta econômica, de fora da esfera das relações entre trabalhadores e patrões.” (24)

Em termos práticos isso significava que para os social-democratas não bastava “ir ao meio dos trabalhadores”. Era necessário “ir ao meio de todas as classes da população, e despachar unidades de seu exército em todas as direções(25). Os trabalhadores devem se mobilizar para atuar em apoio a todas as vítimas da autocracia, incluindo grupos como minorias religiosas e estudantes.”O ideal dos social-democratas não é o secretário do sindicato, mas sim o tribuno do povo… capaz de aproveitar cada evento, por menor que seja, para colocar diante de todos suas convicções socialistas e suas reivindicações democráticas” (26). Elemento essencial a essa estratégia era um jornal para toda a Rússia, mantendo um olhar vigilante sobre cada aspecto da vida política e social, e capaz de realizar denúncias políticas de caráter nacional.”Um movimento político digno desse nome é inconcebível na Europa de hoje sem um órgão político.” (27)

Talvez seja necessário realçar, de passagem, que Lenin não considerava de modo algum essa diversificação de forças como uma modificação ou um comprometimento da base de classe do partido. Pelo contrário, isso era possível somente sobre a base de um prolongado período de ampla agitação econômica na classe operária.”No período inicial, de fato, nossas forças eram espantosamente pequenas, e era perfeitamente natural e legítimo que então nos devotássemos exclusivamente a atividades entre operários e condenássemos qualquer desvio desse curso. Toda a tarefa consistia, então, em consolidar nossa posição na classe operária” (28). E em qualquer caso todo o propósito da estratégia era assegurar a hegemonia do proletariado na luta contra a autocracia.

O que é específica e caracteristicamente leninista nessa abordagem e o que a distingue dos métodos da social-democracia e da II Internacional não é que os marxistas lutam por direitos democráticos e por reformas. Isso era comum a ambos, e era, de fato, algo quase que instintivamente óbvio para a social-democracia alemã. Mas os social-democratas lutavam por reformas porque elas eram “progressistas” e eram parte do desenvolvimento do capitalismo rumo ao socialismo. Em outras palavras, eles lutavam por reformas como reformistas. Ao passo que, para Lenin, todo o processo era parte da batalha pela consciência de classe do proletariado, para capacitá-lo a compreender na ação as relações entre todas as classes e grupos sociais, e assim preparar-se para a tomada do poder. Dessa forma, para social-democracia um profundo abismo se desenvolvia entre os programas mínimo e máximo (entre as que reivindicações imediatas e o objetivo final). Enquanto isso, para Lenin, a agitação política multilateral era um meio para transpor esse abismo e assegurar a predominância do objetivo final revolucionário.

 3. Socialismo a partir de fora?

 Até este ponto resumimos os principais avanços no Que fazer? em relação à teoria do partido tal como a podemos encontrar em Marx e que prevalecia sob uma forma mais dogmática no ‘economicismo’ russo e, em certa medida, na social-democracia européia. Mas permanece um importante aspecto do argumento de Lenin, ainda não discutido -importante não por causa de sua centralidade na teoria e na prática de Lenin, mas por sua influência em muitos de seus seguidores até os dias de hoje. Estamos nos referindo à tese de que a ‘consciência política’ só pode ser introduzida no movimento operário “a partir de fora”, colocada para dar justificação teórica ao ataque contra o espontaneísmo. Essa tese aparece em Que fazer? sob duas formas. Uma delas, que já citamos antes, é a que se segue:

“A consciência política de classe pode ser levado os trabalhadores somente a partir de fora, quer dizer, somente de fora da luta econômica, de fora da esfera de relações entre trabalhadores e patrões.”

A outra é:

“Nós temos dito que não poderia ter havido consciência social-democrata entre trabalhadores. Ela só poderia ter sido levada a eles a partir de fora. A história de todos os países mostra que a classe operária, exclusivamente pelo seu próprio esforço, só pode desenvolver uma consciência “trade-unionista” [sindical], isto é, a convicção de que é necessário juntar-se em sindicatos, combater os patrões e esforçar-se para obrigar o governo a aprovar leis trabalhistas necessárias, etc. A teoria do socialismo, entretanto, cresceu das teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por representantes cultos das classes proprietárias, pelos intelectuais. Por seu status social, os próprios fundadores do socialismo científico, Marx e Engels, pertenciam à intelectualidade burguesa. De modo exatamente igual, na Rússia a doutrina teórica da social-democracia surgiu de modo absolutamente independente do crescimento espontâneo do movimento da classe operária; ela cresceu como resultado do desenvolvimento do pensamento entre a intelectualidade socialista revolucionária.” (29)

Há uma clara distinção entre as duas formulações. A primeira é apenas uma maneira exagerada e desajeitada de dizer que os trabalhadores precisam compreender a totalidade das relações sociais e todas as formas de opressão, conhecimento que vem de uma esfera muito mais abrangente do que a fábrica (“a partir de fora”). Tal como está expressa, poderíamos apresentar objeções quanto às palavras utilizadas, mas não quanto ao seu conteúdo. Mas na segunda formulação “a partir de fora” significa de fora da classe operária, especificamente a partir da intelectualidade burguesa e, além do mais, traz uma tentativa de explicação das origens e do desenvolvimento da teoria do socialismo científico. Isso coloca problemas de considerável importância teórica, especialmente para a teoria do partido, e por isso torna-se necessário realizar uma análise crítica detalhada da concepção de Lenin nessa questão.

O primeiro ponto que deve ser colocado é que Lenin estava expressando aí idéias tomadas diretamente de Karl Kautsky e, de fato, utiliza uma citação de Kautsky para se investir de autoridade teórica.

“Mas o socialismo e a luta de classes surgem lado a lado e não o um do outro; cada um surge sob diferentes condições. A consciência socialista moderna pode surgir somente sobre a base de um profundo conhecimento científico. Na verdade, a moderna ciência econômica é uma condição tão necessária para a produção socialista como o é, por exemplo, a tecnologia moderna. E o proletariado não pode criar nem a uma nem a outra, não importa o quanto deseje fazê-lo. Ambas nascem do processo social moderno. O veículo da ciência não é o proletariado, mas a intelectualidade burguesa.” (30)

Esse recurso a Kautsky, dado a versão mecanicista de marxismo desse teórico e seu posterior desenvolvimento político, é claramente um sinal de alarme para aqueles dentre nós que trabalham com o benefício da experiência passada, e vários leninistas posteriores tem sido críticos quanto a esse ponto. Trotski comenta que o próprio Lenin “reconheceu mais tarde a natureza parcial e, portanto, equivocada dessa teoria” (31). Lucio Magri em um artigo recente chama a citação de Kautsky de “esquema iluminista” (32), e Nigel Harris refere-se a ela como uma “formulação elitista”. (33)

O problema fundamental é que se alguém aceita literalmente a formulação de Lenin e Kautsky de que a consciência política deriva da intelectualidade burguesa e, ao mesmo tempo, que a luta política deve predominar sobre a luta econômica, então sobra muito pouco do lema fundamental de Marx de que “a emancipação da classe operária deve ser obra da própria classe operária”. Pelo contrário, a classe operária ficaria reduzida a um papel estritamente subordinado. A classe verdadeiramente revolucionária seria não a classe operária, mas a intelectualidade descontente, confirmando implicitamente a imagem típica utilizada pela burguesia de que os movimentos radicais são constituídos por malévolas direções de classe média e ‘inocentes’ operários manipulados. A divisão entre trabalho intelectual e manual inerente à sociedade de classes, longe de ser superada, é transposta para o movimento socialista e santificada no partido revolucionário.

Na verdade toda a apresentação da ciência, teoria e consciência socialistas (as quais são igualadas) é completamente não-marxista, e tem mais em comum com o positivismo e o idealismo do século XIX. A ciência é concebida como se apresentasse um desenvolvimento completamente isolado da vida social, da prática. No que concerne às ciências naturais, a filosofia e a ciência social burguesas, isso parece ser verdade tanto quanto o pensador tenha uma tendência ao isolamento da torre de marfim. Mas na realidade isso é somente uma ilusão, uma mistificação produzida pela sociedade de classes. Por essa razão Marx recusou-se a reconhecer à filosofia ou a qualquer outra disciplina uma história própria e independente da atividade humana na sociedade. Para que a teoria do socialismo possa ser de fato revolucionária, ela não pode e nem deve ser considerada como possuidora de uma autonomia relativa ilusória do tipo que a ciência burguesa defende e reivindica. Pelo contrário, ela deve estar intimamente relacionada, influenciada e baseada na atividade da classe operária. Assim, Marx escreve:

“Assim como os economistas são os representantes científicos da burguesia, os socialistas e comunistas são os teóricos do proletariado. Tanto quanto o proletariado não esteja suficientemente desenvolvido para se constituir enquanto classe, tanto quanto a luta do proletariado contra a burguesia não tenha adquirido um caráter político, enquanto as forças produtivas não estiverem suficientemente desenvolvidas no interior da sociedade burguesa para dar um indício das condições materiais necessárias para a emancipação do proletariado e a constituição de uma nova sociedade, esses teóricos permanecem utopistas que, para aliviar o sofrimento das classes oprimidas, inventam sistemas e perseguem uma ciência regenerarativa. Mas à medida em que a história avança, e a luta do proletariado ganha forma mais clara, eles não têm mais necessidade de procurar uma ciência em suas próprias cabeças. Eles têm somente que observar o que está acontecendo diante de seus olhos e tornarem-se eles próprios o seu veículo de expressão.” (34)

Um exame da história do pensamento socialista e marxista também refuta claramente a teoria de “Lenin-Kautsky” do “desenvolvimento separado”. A própria idéia de socialismo e revolução socialista não foi algo inventado ou descoberto por Marx. Antes, ela surgiu das lutas das massas mais radicais nas revoluções burguesas na Inglaterra e na França -exemplo disso são os levellers na revolução inglesa e, na França, a “Conspiração dos Iguais” de Babeuf (Marx se referiu a esta última como o primeiro partido comunista do mundo). Raya Dunayevskaya em Marxism and Freedom registra o impacto da guerra civil americana e da luta dos operários ingleses por menor jornada de trabalho sobre a estrutura de O Capital. Ela escreve:

“Ninguém é mais cego à grandeza das contribuições de Marx do que aqueles que o glorificam por seu gênio, como se esse gênio houvesse amadurecido fora das lutas reais no período em que ele vivia. Como se ele tivesse adquirido os impulsos a partir do puro desenvolvimento de seus pensamentos, ao invés de tê-los adquirido dos trabalhadores de carne e osso transformando a realidade viva através de suas ações.” (35)

Realmente, foi dos operários insurgentes de Paris que Marx aprendeu que a classe operária não pode simplesmente tomar a máquina estatal existente, mas deve destruí-la.

A história também fornece numerosos exemplos de trabalhadores ascendendo, espontaneamente, a alturas muito mais elevadas do que as do sindicalismo e da política sindical: os “cartistas” na Inglaterra, a revolução de 1848 na França, os trabalhadores russos em 1905 e em fevereiro de 1917, a revolução húngara de 1956, e assim por diante.

Mas essa crítica da justificativa teórica utilizada por Lenin não solapa (como poderiam sustentar alguns leninistas dogmáticos e apologetas) toda a base da teoria de partido de Lenin. O fato dos trabalhadores alcançarem espontaneamente uma consciência socialista não significa um retorno a uma visão gradualista social-democrata, pois essa consciência não se desenvolve gradualmente, num processo de acumulação uniforme e inevitável. Pelo contrário, ela realiza saltos repentinos e gigantescos, e pode sofrer naufrágios catastróficos. Nem a consciência desenvolve-se de modo igual no interior da classe, e é por isso que a consciência dos trabalhadores avançados e socialistas deve ser organizada e centralizada, para aumentar ao máximo sua influência dentro da ideologicamente heterogênea classe como um todo. Essas idéias serão discutidas e desenvolvidas mais adiante, especialmente quando tratarmos de Rosa Luxemburgo.

 4. A divisão entre bolcheviques e mencheviques

 Por causa de sua grande importância teórica, histórica e prática, Que fazer? tende a ser considerado como o documento fundador do bolchevismo. Num certo sentido isso é correto, daí porque o tenhamos sujeitado a uma análise tão detalhada. Mas não foi o Que fazer? que ocasionou a divisão do Partido Operário Social-democrata da Rússia (POSDR) nas facções bolchevique e menchevique. Pelo contrário, o texto atuou como um foco de unidade para a luta pelo segundo congresso do partido, unindo os militantes de toda a Rússia e tendo, aparentemente, o apoio dos líderes intelectuais do marxismo russo – Plekhanov, Martov, Axelrod, Trotski, etc. Foi a tentativa de pôr em prática o programa do Que fazer? que produziu a divisão. Aqueles que pensavam estar de acordo no plano teórico viram-se num violento desacordo quando aquelas teorias foram traduzidas em regras e decisões práticas no segundo congresso realizado em Londres em 1903.

A história do desenvolvimento da divisão é tão obscura quanto complicada. Um relato passo a passo das divergências no congresso foi feito por Lenin em Um passo adiante, dois passos atrás, escrito imediatamente após a divisão em 1904. De um modo resumido, o que ocorreu foi o seguinte. A tendência do Iskra, anteriormente unida (e dominante), dividiu-se quanto à formulação do parágrafo um dos estatutos. A formulação de Martov era: “Um membro do POSDR é aquele que aceita seu programa, apóia financeiramente o partido, e dá sua contribuição pessoal sob a direção de uma de suas organizações”. Ao passo que na proposição de Lenin lia-se: “Um membro do partido é aquele que aceita seu programa e apóia o partido tanto financeiramente quanto pela participação pessoal em uma das organizações do partido” [grifos nossos – J.M.]. Sobre essa questão os iskristas se dividiram em duas facções distintas. Plekhanov apoiou Lenin, mas quando se procedeu a votação Martov, com a ajuda de elementos ‘economicistas’ ainda presentes no partido, contrários à centralização, ganhou uma maioria. Mas com a saída dos ‘economicistas’ do Rabocheye Dyelo e do Bund numa sessão posterior, a maioria passou à facção de Lenin, o que lhe permitiu fazer passar a sua lista de candidatos para o conselho editorial do Iskra. Isso levou à substituição do conselho editorial anterior de seis pessoas (Plekhanov, Axelrod, Zasulich, Lenin, Martov, Potressov) por um outro de três (Lenin, Martov e Plekhanov). Martov e seus apoiadores recusaram-se a aceitar essa decisão, e Martov demitiu-se do Iskra. Os termos ‘bolchevique’ e ‘menchevique’ (significando “maioria” e “minoria”) referem-se à votação do conselho editorial, mas como as duas facções permaneceram oficialmente como parte de um mesmo partido, os nomes acabaram se firmando e passaram para a história.

Para o propósito desse estudo é necessário indagarmos duas coisas. Em primeiro lugar, qual era o significado real dessas divergências, aparentemente uma querela em cima de palavras? E em segundo lugar, qual foi o impacto dessa divisão no desenvolvimento da teoria leninista de partido? Para entender o verdadeiro sentido de cada divergência no movimento marxista é necessário enxergá-la sempre em seu contexto.”A verdade é concreta”, como Lenin gostava de afirmar. Dentro desse espírito está análise de Paul Frölich, que resume a situação do seguinte modo:

“Para compreender esses debates é necessário ter sempre em mente a situação do movimento social-democrata daquela época, com sua rede de círculos instável e anárquica, e as condições nas quais uma organização partidária ilegal tinha que atuar sob o absolutismo. Ao mesmo tempo, é preciso entender que profundos antagonismos políticos estavam emergindo à superfície nas discussões sobre os estatutos – antagonismos que eram mais sentidos do que claramente expressos em qualquer argumento singular. Lenin pressentia graves perigos pela frente, e queria evitá-los organizando o partido mais solidamente. Ele tinha consciência das enormes tarefas que o partido enfrentaria na revolução que se aproximava, e queria forjá-lo num instrumento de aço. E, finalmente, ele reconhecia que era o único do grupo Iskra capaz de dirigir o partido com a necessária confiança e determinação. O modo muito impessoal e objetivo pelo qual ele chegou a essa conclusão explica sua obstinação sobre essa questão.

A redação das duas propostas para o parágrafo primeiro dos estatutos dá menos do que uma vaga idéia do antagonismo. É certo que Martov queria um partido com fronteiras mal definidas, em consonância com o real estágio do movimento, e com forte autonomia dos grupos individuais; um partido de agitação que abraçasse ampla e afrouxamento todo mundo que se auto-denominasse socialista. Lenin, todavia, sentiu que era importante superar a autonomia e o isolamento dos grupos locais, evitando assim os perigos inerentes às suas idéias simplistas e fossilizadas, para não falar de seu desenvolvimento político atrasado. Ele queria um partido firme e solidamente organizado, o qual, enquanto vanguarda, estaria fortemente ligado à classe, mas que ao mesmo tempo seria claramente distinto dela.” (36)

Havia, entretanto, um outro aspecto do debate sobre o qual o Lenin insistiu. Havia uma segunda interpretação possível da formulação de Martov; “que uma organização do partido (teria) direito a considerar como membro do partido todo aquele que lhe dá uma contribuição pessoal regular sob sua direção” e “que um comitê atribuiria funções e supervisionaria seu cumprimento”. Lenin comenta:

“Tais atribuições especiais nunca serão feitas, é claro, à massa dos operários, aos milhares de proletários (de que falam os camaradas Axelrod e Martynov) – elas serão freqüentemente dadas precisamente a… catedráticos… estudantes de segundo grau… e a juventude revolucionária… Em outras palavras: a fórmula do camarada Martov ou permanecerá letra morta, uma frase vazia, ou beneficiará principalmente e quase exclusivamente os “intelectuais que estão completamente imbuídos de individualismo burguês” e que não desejam entrar numa organização. Em palavras, a formulação de Martov defende os interesses das amplas camadas do proletariado, mas de fato ela serve aos interesses dos intelectuais burgueses, que fogem da disciplina e da organização proletárias.” (37)

Raya Dunayevskaya também enfoca esse ponto com a questão central na disputa.

“A disciplina pelo núcleo partidário era tão crucial para a concepção de Lenin que era mais importante do que a adesão verbal à teoria marxista, do que fazer propaganda sobre as posições marxistas, e possuir um cartão de membro do partido… Lenin insistia que o intelectual marxista precisava da disciplina ideológica dos proletários no núcleo partidário, pois de outro modo estaria resistindo não somente à disciplina do núcleo, mas também resistindo a ser teoricamente disciplinado pelo conteúdo econômico [de classe] da revolução russa.” (38)

Provavelmente foi essa atitude branda de Martov com os intelectuais burgueses a principal causa da sua hostilidade em relação a Lenin (e isso se encaixa muito bem no padrão das futuras diferenças entre bolcheviques e mencheviques). Mas para se contrapor a esse desvio em particular, Lenin não precisava abandonar o terreno da ortodoxia social-democrata kautskysta. As posições mencheviques sobre organização podiam ser tomadas juntamente às de Bernstein, Jaurés e da tendência oportunista geral na social-democracia internacional (39), e havia até mesmo uma longa citação do próprio Kautsky para servir de ilustração (40). O que foi crucial para o desenvolvimento do pensamento de Lenin – isto é, que capacitou-o a avançar a uma nova abordagem marxista sobre organização – foi a questão da distinção entre o partido da classe e a própria classe, questão que Lenin foi obrigado a clarificar pelo debate sobre as condições para se tornar um membro do partido.

“Quanto mais fortes forem as nossas orientações partidárias, consistindo de verdadeiros social-democratas, menos vacilação e menos instabilidade existirá dentro do partido, e mais amplo, variado, rico e frutífero será a influência do partido sobre os elementos das massas operárias que o cercam e que são guiadas por ele. O partido, como a vanguarda da classe operária, não deve ser confundido, no fim das contas, com a classe como um todo.” (41) [grifos meus, J.M.]

É essa última afirmação que representa a ruptura com a concepção organizativa de Marx (na qual a distinção entre partido e classe permanece nebulosa) e, mais decisivamente, com a concepção ortodoxa social-democrata do partido como representante da classe. O que dá a essa ruptura um significado permanente e não temporário, universal e não meramente russo, é que Lenin a fundamenta não em necessidades práticas do segredo (embora, claro, elas não tenham sido esquecidas), e nem numa teoria errada de introdução da consciência “a partir de fora”, mas sim na situação objetiva do proletariado sob o capitalismo:

“Precisamente porque existem diferentes graus de consciência e de atividade, deve ser feita uma distinção quanto ao grau de proximidade ao partido… Seria… ‘seguidismo’ pensar que toda a classe, ou quase toda a classe, possa alguma vez sob o capitalismo, ascender ao nível de consciência e de atividade de sua vanguarda, de seu partido social-democrata.” (42)

De grande importância nessa passagem é a acusação de ‘seguidismo’ dirigida ao seus oponentes. ‘Seguidismo’ é o termo figurativo e polêmico de Lenin para o ‘fatalismo’ que provaria ser o calcanhar de Aquiles da II internacional. Percorrendo como um fio vermelho por toda a obra Um passo à frente, dois passos atrás está o contraste entre a visão de mundo bolchevique, ativista e revolucionária, e a complacência fatalista, ‘seguidista’, dos mencheviques. Nada ilustra isso melhor do que uma das polêmicas com Trotski:

“A essa categoria de argumentos, que inevitavelmente surgem quando se tenta justificar a formulação de Martov, pertence – em particular- a afirmação do camarada Trotski de que “o oportunismo é produzido por causas mais complexas (ou: é determinado por causas mais profundas) do que uma ou outra cláusula dos estatutos: é a conseqüência do nível relativo de desenvolvimento da democracia burguesa e do proletariado”. Não é questão de que cláusulas estatutárias possam produzir o oportunismo, mas que com a ajuda delas pode ser forjada uma arma mais poderosa ou menos poderosa contra o oportunismo. Portanto, justificar uma formulação que abre a porta ao oportunismo argumentando que o oportunismo tem “causas profundas” é “seguidismo” de primeira categoria.” (43)

Trotski analisa e explica o fenômeno, mas não vai além disso. Lenin aceita a explicação mas quer tirar uma conseqüência prática dela.

Notas

 (*) Este texto é a tradução de Lenin and the birth of Bolshevism, capítulo do livro “Marxism and the Party”, editora Bookmarks, Londres, segunda ediçào de 1.985. John Molyneux é membro do Socialist Workers’ Party da Grã-Bretanha e autor de inúmeros livros e ensaios. Tradução de Rui Polly.

1. Tony Cliff, ‘Trotsky on substitutionism’, in Duncan Hallas et al, Party and Class, Londres (s/ data), p.28. Por ‘substituismo’ Cliff se refere à tendência de indivíduos ou partidos substituírem a ação das massas.

2. Lenin, What Is To Be Done?, Moscou 1969, p. 29.

3. Leonard Schapiro, The communist Party of Soviet Union, Londres 1970, pp 2 e 5.

4.Lenin, What Is To Be Done?, op.cit., p.117.

5.Ibidem, p.121.

6.Leonard Scahpiro, op. cit., p. 40.

7.Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 121.

8.Lenin, One StepForward, Two steps Back, Moscou, 1969, p.58.

9.Lenin, Collected Works, vol.8, Moscou 1962, p. 196.

10.Lenin, What Is To Be Done?,op. cit., p. 17.

11.ibid. p. 17.

12.Esta foi a afirmação de Plekhanov no primeiro congresso da II Internacional em 1889.

13.A melhor explicação desta teoria e da sua base sócio-econômica na história russa encontra-se no primeiro capítulo de A História da Revolução Russa de Trotski, capítulo 1.

14. Embora o economicismo tenha surgido de fato em 1897. Ver Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 46.

15. Lenin, collected Works, vol. 4, op. cit., p. 174.

16. Mas isto não quer dizer que eles possam ser retirados de seu contexto e aplicados acriticamente em todos lugares, tempos e épocas, usando assim a letra do leninismo contra o espírito do leninismo, como freqüentemente ocorre.

17.Citado em Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 37.

18.Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 46.

19.O fatalismo levado à sua conclusão lógica exclui a necessidade de um partido revolucionário, ou mesmo de qualquer atividade revolucionária. Mas o problema com o fatalismo no movimento marxista é que ele nunca é anunciado abertamente, mas sempre permaneceu mitigado, de modo a paralisar a intervenção revolucionária em momentos cruciais, mas sem expor o seu caráter absurdo e fraudulento.

20.Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 23.

21.Ibidem, p. 131.

22. Georg Lukács, Lenin, Londres 1970, p. 24.

23. Lenin, What Is To Be Done?, op. cit., p. 69.

24. Ibidem, p. 78.

25. Ibidem, p. 79.

26. Ibidem, p. 80.

27. Ibidem, p. 88.

28. Ibidem, p. 86. Uma análise excelente desse período pode ser encontrada em Tony Cliff, ‘From a Marxist Circle to Agitation’, International Socialism, 52.

29. Lenin, Ibidem, pp. 31-32.

30. Ibidem, p. 40.

31. Trotsky, Stalin, Londres 1968, p. 58.

32. Lucio Magri, ‘Problems of the Marxist Theory of the Revolutionary Party’, New Left Review, 60, p. 104.

33.Nigel Harris, Beliefs in History, Londres 1971, p. 156.

34.Marx, Selected Writings on Social Philosoophy, in T. Bottomore and M. Rubel (eds.), Londres 1963, pp 80-81.

35.Raya Dunayevskaya, Marxism and Freedom, Londres 1972, p. 81.

36.Paul Frölich, Rosa Luxemburg, Londres 1972, pp. 82-83.

37. Lenin, One Step Forward, Two Steps Back, op. cit. p. 66.

38. Raya Dunayevskaya, op. cit. pp. 180-81.

39. Lenin, One Step Forward, Two Steps Back, op. cit. p. 199. .

40. Ibidem, p. 121-23.

41. Ibidem, p. 57.

42. Ibidem, p. 58.

43. Ibidem, p. 71.

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