Um toque de mágica – Mike Gonzalez

Em homenagem ao grande escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez, falecido recentemente, publicamos um breve texto de Mike Gonzales, para quem “um dia a sua literatura proporcionará os meios não apenas para ridicularizar ou parodiar a história dos poderosos, mas para colocar os que foram marginalizados por tanto tempo no coração mesmo da história.”

UM TOQUE DE MÁGICA

Mike Gonzalez

Os escritos de Gabriel Garcia Márquez foram traduzidos para as principais línguas e obtiveram um enorme êxito editorial – em particular, o seu romance Cem anos de solidão. No entanto, ele insiste em dizer que eles são simplesmente as estórias que a sua avó contou-lhe quando era criança na cidade provinciana de Aracataca na Colômbia.

Seria fácil ver Márquez como um tipo de folclorista tentando redescobrir um mundo perdido de inocência rural, algum tipo de “tempo de sonhos” há muito perdido. E é verdade que a sua obra está cheia de acontecimentos extraordinários: lindas meninas com longos cabelos verdes, outros que à sua morte levitam em meio a nuvens de borboletas, garotos tatuados com enorme longevidade sexual, doutores que comem grama. Talvez esses personagens tenham sido parte do repertório de lendas, mitos e fórmulas mágicas da sua avó. Contudo, não são apenas fantasias nostálgicas que pertencem a um passado distante. São respostas a uma realidade que está também presente em toda a obra de Márquez.

Há a realidade de ‘La Violencia’, a longa guerra civil colombiana que sacrificou mais de 200 mil vidas – um tempo em que todas as formas de vida civil foram simplesmente suspensas, e a única forma de política era a alternância arranjada entre liberais e conservadores na presidência da república. “A Hora do Mal” retrata esse interminável “estado de sítio”, quando a única mudança era a deterioração de uma sociedade, simbolizada pelo dente em deterioração do prefeito da cidade. O dentista da cidade, cujo filho é um líder das forças revolucionárias, não tenta aliviar a dor do prefeito. Quando a trégua é suspensa , um personagem expressa alívio porque ass “coisas haviam voltado ao normal”.

Os ditadores militares, de Stroessner a Somoza, são representados no personagem central de O Outono do Patriarca. Ele tortura seus oponentes, assassina as crianças que possam expor suas loterias fraudadas, vende partes da colheita a negociantes americanos e emprega um dublê para escutar as fofocas nas ruas. Em tal mundo, não era sábio falar, exceto por metáforas; no entanto, as pessoas contavam estórias, reescreviam a sua história e pintavam um mundo diferente.

O palco das novelas de Márquez é uma comunidade fictícia chamada Macondo. Por um lado era um paraíso onde ninguém envelhecia ou se tornava impotente. Essa é a América Latina como os colonizadores europeus a imaginavam. Mas para os habitantes da comunidade, não havia escapatória da utopia. Para onde quer que se voltassem haviam florestas e pântanos impenetráveis, montanhas ou mares. O mundo podia invadi-la, mas ninguém podia deixá-la. Folhas Mortas conta a chegada de uma companhia norte-americana de bananas. A companhia entra na cidade como um furacão, constrói um gueto para os funcionários norte-americanos, prostitui todas as mulheres jovens da cidade, exaure as bananeiras, e então deixa a cidade tão repentinamente quanto chegou, deixando atrás de si uma trilha de devastação. Os trabalhadores dos bananais de Cem Anos de Solidão são massacrados e seus corpos “desaparecidos” – uma das poucas contribuições da América Latina para a linguagem universal. No dia seguinte uma praga de esquecimento “apaga” a sua existência – como os 500 estudantes assassinados no México às vésperas dos Jogos Olímpicos de 1968. Mas a memória popular não é esvaziada tão facilmente – e nela a lembrança dos mortos é preservada e passada de geração a geração.

O isolamento de Macondo é ao mesmo tempo fictício e real.Os novos desenvolvimentos na tecnologia e na vida social dos centros metropolitanos chegam de modo parcial e ilógico no mundo colonial. No começo de Cem Anos de Solidão um cigano, Melquíades, chega em Macondo. Ele traz coisas extraordinárias em suas visitas anuais – dentes falsos, gelo, máquinas maravilhosas. O coronel Aureliano Buendia, patriarca dessa curiosa utopia, assiste a esses truques com espanto. Ele havia passado anos à procura da pedra filosofal que pudesse transformar chumbo em ouro e trazer-lhe o segredo da vida. Quando ele vê o cigano ele se dá conta de que a pedra já havia sido encontrada, mas mantida fora do alcance dos habitantes de Macondo.

Deixada de fora da história, Macondo é condenada a ser uma espécie de paródia de um outro mundo que ela só pode imaginar, mas nunca alcançar. Os dentes falsos, o gelo, assim como o trem que chega sem aviso um dia, parecem milagres porque a lógica do desenvolvimento social e econômico que os produziu não é visível para os habitantes da cidade. O progresso em si nunca chega a Macondo, somente os bens de consumo que são o produto das mudanças. Nas favelas da América Latina os garotos anseiam por um tênis Nike ou um vislumbre de Madonna. Todos têm aparelhos de TV, mas milhões não possuem água tratada!

A comunidade de Macondo está presa entre um passado ao qual não pode retornar e um futuro que não consegue modelar. Está também presa entre dois tipos de linguagem e de imaginação. De um lado, a cultura popular que transmite a experiência dos despossuídos através de mitos e estórias que preservam a sua história; de outro, a história oficial que nega a sua experiência. Em Crônica de uma Morte Anunciada nem mesmo o conhecimento de um acontecimento futuro pode contribuir para evitá-lo. O que a comunidade enxerga como sendo seu destino é, na verdade, conseqüência de forças materiais que operam fora do alcance de seus olhos. A Igreja não possui explicações para oferecer – a água benta está cheia de ratos mortos (em A Má Hora); a burocracia esconde por detrás de montanhas de documentos não lidos (em Crônica); e a vida política está indefinidamente suspensa. Assim, as pessoas esperam – como o coronel que espera por sua pensão (Ninguém Escreve ao Coronel).

O “realismo mágico” de Márquez testemunha a vitalidade de uma consciência popular que pode ser vista além de uma realidade aprisionante e preserva um espírito de resistência em suas canções, suas piadas, seus mitos, que continuamente imaginam um mundo virado do avesso. Ao final de Cem Anos de Solidão Macondo entra em colapso e desaparece; mas a sua (his)tória é deixada, para inspirar os que vêm depois. Se Márquez sempre escreve sobre a história do modo como ela ecoa na compreensão popular, um dia a sua literatura proporcionará os meios não apenas para ridicularizar ou parodiar a história dos poderosos, mas para colocar os que foram marginalizados por tanto tempo no coração mesmo da história.

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