O imperialismo e a economia política global – Alex Callinicos

Este texto publicado na revista teórica britânica Intenational Socialism Journal em 2005, portantoantes da eclosão da crise econômica global, aborda a questão crucial do imperialismo, estabelecendo uma polêmica com as teses de Panitch e Gindin que consideram ultrapassada a teoria marxista clássica sobre o tema, subestimando particularmente a importância das competições interimperialistas.

Alex Callinicos critica os  argumentos apresentados por esses dois autores e antecipa ideias que poucos depois seriam trabalhados em sua monumental Imperialism and Global Political Economy, obra ainda inédita no Brasil. A importância e a atualidade desse debate nos parece evidente, como demonstra a crise recente no Leste europeu, envolvendo a Ucrânia.

O imperialismo e a economia política global

Alex Callinicos

Tornou-se um cliché afirmar que as ideias de império e imperialismo renasceram nos primeiros anos do século XXI. As principais razões desse renascimento são, certamente, a primazia global dos Estados Unidos e a arrogância com que a administração Bush tem alardeado essa preeminência, sobretudo no campo militar. Os marxistas devem estar bem preparados para responder a esse desenvolvimento, dada a importância do conceito de imperialismo não interior do marxismo. Em particular, a teoria marxista do imperialismo se distingue por não tratar o império simplesmente como uma forma trans-histórica de dominação política, como é exemplo a concisa definição de imperialismo de Michael Doyle como “o controle efetivo, formal ou informal, de uma sociedade subordinada por uma sociedade imperial”. O marxismo, diferentemente, situa o imperialismo moderno no contexto do desenvolvimento histórico do modo de produção capitalista.[1]

É claro que existem diferentes versões deste empreendimento intelectual, que busca relacionar as relações geopolíticas ao processo de acumulação de capital de forma sistemática. [2] A variante na qual pretendo concentrar-me foi desenvolvida durante a primeira guerra mundial, particularmente por Lenin em ‘Imperialismo, fase superior do capitalismo’ (1916) e por Bukharin em ‘Imperialismo e a Economia Mundial1 (1917). Essa variante, à qual denominarei daqui em diante como a teoria marxista clássica do imperialismo, exposta com maior rigor por Bukharin, afirma que o capitalismo em sua etapa imperialista é definida por duas tendências potencialmente conflitantes: (1) a internacionalização da produção, circulação e investimentos e (2) a interpenetração do capital privado e do Estado-nação. Por conseguinte, uma economia mundial crescentemente integrada torna-se a arena para a competição entre capitais que tende agora a tomar a forma de conflitos geopolíticos entre Estados. Desde esta perspectiva, a primeira e a segunda guerras mundiais foram conflitos interimperialistas que refletiram antagonismos não coração do capitalismo em sus etapa imperialista.

A teoria do imperialismo, particularmente nas mãos de Bukharin, padeceu de sérios defeitos – notadamente uma tendência a ver o Estado como um mero instrumento do capital, uma dependência da teoria das crises de Rudolf Hilferding, que as reduz aos efeitos de desequilíbrios entre diferentes ramos da produção, e a suposição de que a tendência em direção ao capitalismo de Estado era um fato consumado.[3] Contudo, despojada destes aspectos e integrada a uma teorização rigorosa das crises do capitalismo, a teoria clássica é, ao meu ver, um instrumento indispensável para a compreensão do mundo contemporâneo.

Deste ponto de vista o imperialismo moderno surge como o resultado da fusão de duas formas anteriormente distintas de competição, como ocorreu não final do século XIX: a competição econômica entre capitais; a competição geopolítica entre Estados.

Um ou dois séculos antes essas duas lógicas competitivas eram distintas, enraizadas em diferentes modos de produção: de um lado, a competição econômica não nascente sistema mundial capitalista, de outro, a competição geopolítica não que Robert Brenner denomina o processo de “acumulação política” – a expansão militar e a construção do Estado – característica do feudalismo que conduziu à formação do sistema estatal europeu.[4] O imperialismo representa o momento em que estas duas lógicas se tornaram integradas. A competição geopolítica já não pode continuar sem os recursos econômicos que só poderiam ser gerados dentro do marco das relações capitalistas de produção; mas os capitais cada vez mais envolvidos nas redes globais de comércio e investimento passam a depender das diferentes formas de apoio proporcionados pelos seus Estados nacionais, abarcando desde tarifas e subsídios até a utilização do poder militar. Outra maneira de dizer é que a luta competitiva entre o que Marx chamou nos Grundrisse de “muitos capitais” passou a assumir duas formas, econômica e geopolítica.[5]

David Harvey expressa uma ideia bastante parecida quando chama de “imperialismo capitalista” à “fusão contraditória” das duas lógicas de poder, as quais ele denomina (seguindo a Giovanni Arrighi) capitalista e territorial:

A relação entre estas duas lógicas deve, portanto, ser vista como problemática e frequentemente contraditória (quer dizer, dialética), em lugar de funcional ou parcial. Esta relação dialética põe o cenário para uma análise do imperialismo capitalista em termos da interação dessas duas lógicas de poder, distintas mas entrelaçadas. O problema para a análise concreta das situações atuais é conservar simultaneamente os dois lados dessa dialética e não cair em uma forma de argumentação somente política ou predominantemente econômica.[6]

Outros escritores, particularmente Walden Bello, Peter Gowan, Chris Harman, John Rees e Claude Serfati, tem reivindicado, em termos gerais, um enfoque semelhante.[7] Contudo, muitos teóricos radicais contemporâneos sustentam que a teoria marxista clássica do imperialismo já não é pertinente. Hardt e Negri afirmam que as rivalidades interimperialistas foram superadas na rede transnacional de poder do Império.[8]

Mas uma crítica da teoria marxista clássica, muito mais elaborada e empiricamente fundamentada, tem sido desenvolvida nos últimos anos por Leo Panitch e Sam Gindin.[9] Uma crítica que merece nossa atenção, uma vez que é parte de um esforço mais amplo de transformar nossa compreensão do imperialismo norte-americano e influenciar a esquerda radical. Portanto, este artigo dedica-se a avaliar essa crítica e a análise alternativa que procura sustentar. O interesse particular deste debate está não fato de que, enquanto a reafirmação do poder global estadunidense pela administração Bush é vista amplamente como a refutação da teoria de Hardt e Negri (que anuncia a superação dos antagonismos nacionais sob o Império), Panitch e Gindin vão ao extremo oposto, argumentando que a era da globalização demonstrou a consolidação do “império informal” dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, partindo de premissas diferentes das de Hardt e Negri, chegam à mesma conclusão de que a competição geopolítica foi amplamente superada não capitalismo contemporâneo.

De acordo com Panitch e Gindin:

As teorias clássicas do imperialismo desenvolvidas nesse período, desde Hobson a Lênin, estavam fundadas em uma teorização das crises e das fases econômicas do capitalismo. Este foi um erro fundamental que, desde então, tem impedido um entendimento adequado da questão. As teorias clássicas eram defeituosas em sua leitura histórica do imperialismo, em seu tratamento da dinâmica de acumulação do capital e em sua tendência a elevar um momento conjuntural de rivalidade interimperial ao nível de uma lei imutável da globalização capitalista. (GCAE, 24-25)

Subjacente a esses erros há um fracasso em apreciar a importância de conceituar o imperialismo como uma compreensão apropriada do “papel relativamente autônomo [dos Estados] de manter a ordem social e assegurar as condições para a acumulação de capital… O imperialismo capitalista, portanto, deve ser entendido através de uma extensão da teoria capitalista do Estado, e não como uma derivação direta da teoria econômica das fases ou da crise. E tal teoria necessita compreender não apenas a rivalidade interimperial, e a supremacia conjuntural de um estado imperial determinado, mas também a penetração estrutural dos antigos rivais por parte de um estado imperial em particular…” (GCAE, 26)

A chave para a análise do imperialismo de Panitch e Gindin está na reiterada expressão “um Estado imperial”. Para eles, tomar seriamente aos Estados significa, em vez de algo como “um anel para governar a todos” de J.R.R. Tolkien, reconhecer o predomínio de um Estado em particular. Com maior precisão, seu argumento pode ser interpretado da seguinte maneira:[10]

1. Seguindo a Poulantzas, Panitch e Gindin asseguram que a era da pós-guerra caracterizou-se pela “internacionalização do Estado, entendida como a aceitação por parte do estado de responsabilizar-se pelo manejo da ordem capitalista doméstica de modo tal que contribuísse ao manejo da ordem capitalista internacional” (GCAE, p. 40). Os Estados Unidos utilizaram o sistema de alianças da Guerra Fria e as instituições financeiras internacionais de Bretton Woods para construir uma ordem capitalista global na qual as economias da Europa Ocidental e Japão não apenas foram abertas ao capital norte-americano, mas em que o Estado e as corporações transnacionais estadunidenses puderam penetrar e reorganizar sistematicamente sob sua liderança as classes dominantes dessas zonas do capitalismo avançado. “Com o capital norte-americano atuando como uma força social dentro de cada estado europeu, o capital local tendeu a ser “desarticulado” e não mais representado por uma burguesia nacional coerente e independente.” (GCAE, 42)[11]

2. Esta ordem veio abaixo com a crise econômica e monetária da década de 1970. Panitch e Gindin dependem de uma versão do que Robert Brenner chamou de “teorias ofertistas das crise”: em outras palavras, consideram que as recessões, a inflação e a instabilidade monetária da década de 70 tem sua origem na força relativa que o trabalho organizado construiu durante o auge do pós-Guerra, o que permitiu incrementar os salários e, assim, levar à queda da taxa de lucro. Desta maneira, eles descrevem “a resistência da classe trabalhadora tanto um fator fundamental na causa da crise quanto um objetivo de sua solução ao final da década de 70 e princípios dos anos 80”.[12] “O “ponto de inflexão” crítico em matéria de orientação política veio em 1979 com o “shock de Volcker” – o programa auto-imposto de ajuste estrutural do estado norte-americano.” (GCAE, 44) A forte subida nas taxas de juro e as restrições impositivas sobre a base monetária anunciadas por Paul Volcker, Presidente do Conselho do Banco Central, em outubro de 1970 foram a versão norte-americana da ofensiva monetarista que Margaret Thatcher impôs simultaneamente na Grã Bretanha. Isto levou a uma redução brusca do peso da economia norte-americana e esse fato, argumentam Panitch e Gindin, acelerou o processo de reestruturação industrial que rompeu o poder do trabalho organizado e atraiu o capital de volta aos Estados Unidos. A recuperação dos lucros proporcionou o pano de fundo para a “reconstituição” da ordem global sobre uma base neoliberal, integrando mais fortemente as classes dominantes dos países avançados sob a liderança norte-americana, através de instituições como o G7 e o Fundo Monetário Internacional e da hegemonia econômica global das finanças. Uma mudança que reforçou o predomínio do capitalismo estadunidense.

3. Panitch e Gindin afirmam que a estrutura criada no início dos anos 80 se mantem até hoje. Em todo caso, é mais forte agora do que antes. Não somente a União Soviética se foi, mas, “distintamente do período anterior, que se caracterizava pela força econômica relativa da Europa e do Japão, o momento histórico atual mostra, pelo contrário, sua relativa debilidade” (GCAE, p. 47). E, ademais, é enganoso caracterizar a competição econômica no mundo capitalista avançado como um caso de “rivalidade interimperialista”. Isto não só exagera a importância da competição, que ocorre no contexto de uma ordem econômica neoliberal global dominada pelos Estados Unidos, mas também a implicação de que essas tensões econômicas possam se traduzir em confrontos geopolíticos, inclusive rivalidades militares, é falsa. Os intentos da União Europeia de desenvolver suas capacidades militares são pouco convincentes e são dependentes da OTAN, enquanto o Japão segue altamente confiante nos mercados e na proteção norte-americanos.

A conclusão que Panitch e Gindin obtém desta análise não é a de nos convidar, diante das evidências, a concluirmos que tudo anda bem com a ordem imperial contemporânea:

Há de fato uma complexidade sistêmica no capitalismo global de hoje que inclui instabilidades e crises, inclusive nos países centrais. De todo modo, isto tem de ser visto não tanto em termos das antigas tendências às crises estruturais e seus desenlaces, mas como as dimensões quotidianas do funcionamento do capitalismo contemporâneo e, de fato, como sustentamos previamente, inclusive de seu êxito. (GCAE, 50-51)

Bem, penso que o problema é um pouco mais do que uma “complexidade sistêmica”. Permitam-me tomar três passos para identificar os equívocos no argumento de Panitch e Gindin. Em primeiro lugar, a adesão à teoria ofertista das crises – identificada com (2) – é um movimento crucial. O que esta teoria faz é tornar os movimentos da economia capitalista dependente dos da luta de classes. Daí que uma vez que a correlação de forças entre as classes tenha mudado em favor do capital – como de fato ocorreu no período entre 1975 e 1985 não só nos Estados Unidos, mas em todo o capitalismo avançado – a consequência ineludível foi uma recuperação dos lucros e o término da crise. Isto diferencia Panitch e Gindin daqueles que, como Brenner e Harvey, sustentam (corretamente, segundo meu ponto de vista) que o capitalismo global continua padecendo das crises de lucratividade e de sobreacumulação que tiveram início em meados da década de 1970.

Panitch e Gindin criticam “as teorias marxistas tradicionais das crises estruturais” porque “elas tendem às vezes a fetichizar as crises no sentido de abstraí-las da história”. Eles elaboram seu próprio enfoque alternativo desta maneira:

Isto não significa que já não seja útil falar de contradições inerentes ao capitalismo, mas devemos ter cuidado para não dar demasiada importância às suas consequências a menos que elas tomem a forma de contradições de classe que aumentem os desafios ao capital (em termos de se pode adaptar-se ou responder) e ao trabalho (em termos de se pode desenvolver a capacidade política de aproveitar as oportunidades proporcionadas). Devemos dispensar uma noção de “crise” como algo que leva ao capitalismo a entrar em colapso por si só; nossas teorias das crises devem ser politizadas para integrar as respostas de ambos os atores, os Estados e as classes.[13]

Esta passagem é uma mescla estranha de truísmo, caricatura implícita e erro potencial. Truísmo: é claro, o capitalismo não “entrará em colapso por si só”. Mas –tenha sido verdade ou não no passado –, nomeie um economista político marxista contemporâneo sério que pense de outro modo (a suposição de que exista é a caricatura). Mas para Panitch e Gindin os atores (“os Estados e as classes”) não só reagem a auges e crises, eles as fazem. As teorias ofertistas das crises estão centradas nos agentes, já que explicam o ciclo econômico em termos das capacidades relativas de auto-organização dos atores coletivos de classe. Pelo contrário, ambas, a teoria das crises que Marx desenvolveu no Tomo III de O Capital e a teoria modificada exposta recentemente por Brenner, explicam as crises de sobreacumulação a partir da tendência estrutural de queda da taxa de lucro, que não pode ser alterada pela vontade coletiva das classes em conflito, ainda que, é claro, a forma como as classes respondem aos efeitos desta tendência seja crucial para definir as soluções para as crises.[14]

Do meu ponto de vista, Panitch e Gindin se equivocam ao sustentar uma teoria super politizada das crises e ao afirmar que o capitalismo global em geral, e o norte-americano em particular, tenham superado a crise de lucratividade que se desenvolveu na década de 1970. Não tenho tempo nem espaço para discutir este tema aqui: Brenner já o fez em sua resposta a um trabalho produzido por Panitch e Gindin junto com um de seus colaboradores.[15] Os trabalhos de Brenner, Harvey e outros marxistas como Gérard Duménil e Fred Moseley nos fornecem evidência abundante para refutar as afirmações de Panitch e de Gindin. Se esses argumentos são corretos, as implicações são muito sérias para Panitch e Gindin. Seu relato do capitalismo do pós-Guerra atribui primazia a um só ator – o Estado norte-americano – que pode modelar e depois remodelar o mundo como seu império informal praticamente sem restrições, tanto por causa do seu poder em relação aos outros atores quanto do poder dos Estados e classes capitalistas em determinar coletivamente o destino da economia mundial. Mas se as tendências ao auge e às crises são a consequência de realidades estruturais – em particular, a competição relativamente descentralizada e anárquica entre capitais – que não são docilmente manejáveis por meio de intervenções coletivas, mesmo que sejam os Estados capitalistas mais poderosos, Estados Unidos incluído, então a capacidade de ação desses Estados são muito mais limitados do que pensam Panitch e Gindin. Seria útil comparar seus trabalhos com os Harvey, que em seu “O Novo Imperialismo” busca integrar a estratégia geopolítica dos Estados Unidos sob George W. Bush com os efeitos permanentes do que Brenner chama de “o longo declínio” (de fato, a principal concepção da economia política marxista de Harvey em “Os Limites do Capital [1982] já concluía com uma discussão sobre as rivalidades interimperialistas contemporâneas).

Panitch e Gindin insistem em dar um peso apropriado ao Estado enquanto ator relativamente autônomo. Assim, escrevem: “Aqueles que interpretaram a penetração comercial japonesa nos mercados norte-americanos e seus massivos investimentos diretos nos Estados Unidos ao longo da década de 1980 em termos de competição interimperial, revelaram uma perspectiva economicista enganosa.” (GAE, 50) Tanto quanto este tipo de comentário implica em uma rejeição das concepções instrumentalistas do Estado que o tratam como mero instrumento nas mãos de grandes empresas, é uma afirmação válida. Mas, mais uma vez, não traz nenhuma novidade. Nas últimas décadas, marxistas tem procurado desenvolver teorias sobre o Estado que atribuem um peso apropriado ao seu papel enquanto ator independente.[16] Ademais, este tipo de entendimento está presente nas principais versões contemporâneas da teoria marxista clássica do imperialismo. Harvey, como está claro na passagem citada no início deste trabalho, concebe a relação entre as lógicas do poder territorial e capitalista como uma relação dialética, em que potencialmente as duas lógicas se contradizem mutuamente. De forma semelhante, concebo o imperialismo como a intersecção da competição econômica e geopolítica em parte para evitar precisamente a ideia de que a última seja um epifenômeno da primeira.[17] Panitch e Gindin poderiam objetar que, ao estabelecer o desenvolvimento do imperialismo capitalista no contexto das tendências estruturais à crise do modo de produção capitalista, Harvey e eu estamos dando primazia à economia em última instância. Mas, se a primazia econômica não figurar em algum lugar na discussão, qual é o sentido de considerar-se marxista?

Em terceiro lugar, e finalmente, que dizer da interpretação do imperialismo contemporâneo de Panitch e Gindin enquanto uma reprodução estável e ampliada do império norte-americano informal? Novamente aqui há um elemento importante de verdade em seu argumento. É inegável que existe uma relação assimétrica entre os Estados Unidos e os demais capitalismos, incluindo os avançados: Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, etc. Ademais, as críticas de Panitch e Gindin à ideia de que as rivalidades interimperialistas persistem é uma útil correção à afirmação equivocada que, por exemplo, eu fiz em escritos anteriores, de que o final da Guerra Fria testemunharia um retorno da competição econômica e geopolítica fluida e potencialmente desastrosa entre as grandes potências que prevaleceu durante a era do imperialismo clássico entre 1870 e 1945.[18] Em retrospecto, esta afirmação confundiu dois níveis de determinação. É inerente à natureza do imperialismo que envolva a competição econômica e geopolítica entre uma pluralidade de grandes Estados capitalistas. Mas disto não se segue que esta competição deve necessariamente tomar a forma de conflito, militar em última instância, entre um número relativamente pequeno de grandes potências ou coalizões de grandes potências, como sucedeu na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. Ademais, a ideia de um retorno às rivalidades entre grandes potências como as de 1870-1945, ainda que (como argumentarei adiante) contenha um elemento importante de verdade, exposta de maneira incorreta implicou em uma mera repetição de padrões históricos anteriores sem levar em conta os efeitos das formas concretas assumidas pela competição econômica e geopolítica no intervalo da era da Guerra Fria.

Desta maneira, a realização histórica do Estado norte-americano durante a década de 1940 foi a construção de um espaço econômico e geopolítico transnacional que unificou todo o mundo capitalista avançado sob sua liderança: grande parte do material citado por Panitch e Gindin documenta este processo. Uma das consequências deste acordo foi que o capital e as mercadorias fluíram com liberdade crescente no interior desse espaço para benefício, como também demonstram Panitch e Gindin, dos bancos e das corporações transnacionais dos Estados Unidos. Outra foi o que chamei de dissociação parcial da competição econômica e geopolítica: em outras palavras, como resultado da integração do capitalismo avançado em um único bloco geopolítico e ideológico “ocidental”, as rivalidades econômicas entre os capitais não tiveram a mesma força para transformar-se em confrontos militares, como ocorrera no início da era do imperialismo clássico, quando a Alemanha surgiu como um rival industrial e naval à hegemonia britânica.

Panitch e Gindin estão certos em ver essas conquistas como resultado de uma estratégia consciente da classe dominante norte-americana, como numerosos estudos tem confirmado. Mas são pouco sensíveis às crescentes pressões às quais estiveram expostas como resultado de dois processos sobrepostos. O primeiro é o impacto da crise estrutural de lucratividade e a superacumulação no longo prazo que, em maior medida, foi uma consequência do surgimento do Japão e da Alemanha como os principais concorrentes dos Estados Unidos a partir da década de 1960.[19] O segundo é o desenvolvimento de tendências centrífugas dentro do bloco geopolítico ocidental. Estas tendências, ainda que de longa duração (e de fato parcialmente relacionadas com o primeiro processo), foram reforçadas com o colapso em 1989-91 da divisão do mundo criada pela Guerra Fria, fato que terminou por remover a razão mais óbvia para o sistema de alianças que o capitalismo avançado havia estabelecido sob a hegemonia dos Estados Unidos. O fato de que o espaço econômico e geopolítico transnacional construído na década de 1940 tenha se tornado genuinamente global, em lugar de desintegrar-se após a Guerra Fria, não foi algo inevitável em nenhum sentido. Sua extensão foi o resultado de uma política intervencionista criada pelo Estado norte-americano, particularmente sob a administração do Presidente Clinton, por exemplo, ao tirar vantagem das guerras nos Bálcãs para forçar através da OTAN e a expansão da União Europeia em termos que preservava o papel dos Estados Unidos como principal potência militar e política líder na Eurásia, e ao fortalecer o papel das instituições de Bretton Woods para impor o Consenso de Washington neoliberal em termos favoráveis ao modelo anglo-americano de capitalismo de livre mercado. [20]

Mas o fato de que o espaço dominado pelos Estados Unidos não tenha se fragmentado não significa que não existam sérias tensões em seu interior, ou que mantê-lo intacto não exija um esforço continuo e desgastante por parte do Estado norte-americano. Tudo isso foi colocado na berlinda de modo dramático pela crise sobre o Iraque.[21] A discussão sobre Iraque de Panitch e de Gindin é um de os aspectos menos convincentes de todos os seus argumentos. De acordo com eles, a guerra foi um caso do problema mais geral causado por Estados “desonestos” e “fracassados” ao império norte-americano, e a divisão entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, por um lado, e entre a França e Alemanha, por outro, “tem pouco a ver com ‘rivalidades’ econômicas”, refletindo em vez disso a preferência destes últimos Estados por formas de intervenção multilaterais. (GCAE, 57)

O problema desta linha de argumentação é que não diz nada acerca da racionalidade estratégica por trás da guerra contra o Iraque. Contudo, uma consulta aos documentos chave que refletem a perspectiva neoconservadora que aparentemente exerceu influência crescente na política global estadunidense sob os governos de Bush pai e filho – o anteprojeto Defense Planning Guidance de março de 1992, o material produzido pelo Project for the New American Century sob Clinton, e The National Security Strategy of the United States of America de setembro de 2002 -, revela que há uma preocupação comum a todos esses documentos: impedir o surgimento de competidores “pares”, isto é, precisamente o que, de acordo a Panitch e Gindin, não deveria existir. Uma passagem do último destes textos é suficiente: “Nossas forças serão suficientemente poderosas para dissuadir adversários potenciais de perseguir um fortalecimento militar na esperança de sobrepujar ou igualar o poder dos Estados Unidos.”[22]

Além disso, é importante entender que, por mais excêntrica ou discutível que possa parecer a visão de mundo neoconservadora em relação à mais ampla elite da Segurança Nacional dos Estados Unidos, a preocupação não está com o tratamento do problema dos competidores potencialmente iguais. Se tomarmos os trabalhos de políticos intelectuais – à parte os conservadores – em alguns casos hostis ou pelo menos críticos da aventura no Iraque, – por exemplo, Kissinger, Zbigniew Brzezinski, Philip Bobbitt, Joseph Nye, e John Mearsheimer -, encontraremos a mesma preocupação com o futuro da hegemonia dos Estados Unidos diante de uma variedade de potências que poderiam desafiá-la pelo menos em nível regional.[23]

Marx afirmou que se a essência e a aparência dos fenômenos coincidissem a ciência seria supérflua. Toda essa importante análise estratégica poderia ser simplesmente conversa fiada, sob a qual se encontraria a realidade de um império norte-americano sólido e invencível. Pessoalmente acho mais econômico, todavia, tomar este material fielmente e trata-lo como evidência da antiga preocupação da grande estratégia estadunidense de impedir a aparição de uma Grande Potência hostil ou uma coalizão na Eurásia continental. Isto confirma a interpretação da guerra do Iraque, defendida por mim e por Harvey, de que a ocupação não só removeria um regime há muito tempo indesejado pelos Estados Unidos, mas também serviria como advertência a todos os Estados sobre o preço de desafiar o poder militar norte-americano e, ao consolidar esse poder no Oriente Médio, proporcionar a Washington o controle do que Harvey chama “a torneira global do petróleo” de que os rivais em potencial na Europa e na Ásia Oriental são particularmente dependentes.[24]

A conquista de Iraque não foi, assim, simplesmente um ataque preventivo dos Estados Unidos, menos contra Saddam Hussein do que as outras potências, mas o desenrolar da crise tornou dramaticamente visíveis as tensões internas no bloco ocidental. Os primeiros meses de 2003 foram notáveis na história da aliança transatlântica, com a França, Alemanha e a Bélgica bloqueando o uso dos recursos da OTAN para a invasão do Iraque, enquanto Washington mobilizava os Estados do leste europeu recém-integrados à União Europeia contra a “Velha Europa”. É claro que tem sido feitos consideráveis esforços desde a queda de Bagdá, particularmente desde a reeleição de Bush, para cicatrizar as feridas entre os Estados Unidos e os principais Estados da Europa continental. Mas, sem dúvida, existem limites definitivos. De um lado, se algo tem sido reforçado na administração é seu compromisso retórico de disseminar a democracia a ferro e fogo. De outro lado, contrariando as previsões de Washington, Londres e de um setor significativo de marxistas de esquerda, a França e a Alemanha continuam resistindo à pressão norte-americana para participarem na ocupação do Iraque. Na realidade, a tendência aponta para a direção oposta, com os “novos” Estados europeus que enviaram tropas ao Iraque, desesperados por uma saída que lhes permita retirar suas tropas do Iraque.

Por trás disso, é claro, está o fracasso da própria ocupação. Apesar dos numerosos anúncios de um novo amanhecer, mais recentemente nas eleições de janeiro do 2005, os Estados Unidos enfrentam a oposição de uma grande maioria do povo iraquiano contrária à sua presença no país, além da resistência armada de uma minoria resoluta e bastante arraigada. O resultado tem sido um sinal de alerta ao ainda poderoso exército norte-americano: a esmagadora superioridade militar não garante o controle sobre uma população numerosa, dispersa e predominantemente hostil.[25] Panitch e Gindin enxergam na verdade a crise no Iraque destacando “o perigo colocado para a legitimidade mais ampla dos outros estados capitalistas, agora que estão situados nos marcos do imperialismo norte-americano que é tão manifesto.” (GCAE, 73) Giovanni Arrighi vai além, sugerindo que “enquanto as dificuldades no Vietnã precipitaram o ‘sinal de crise’ da hegemonia dos Estados Unidos, em retrospecto as dificuldades dos Estados Unidos no Iraque serão vistas como a causa de sua ‘crise terminal’”, marcando a transição à ‘dominação sem hegemonia’, em que a preeminência global de Estados Unidos repousaria unicamente no poderio militar, perdendo o consenso de outras classes capitalistas que também haviam considerado a ocupação como seus interesses.[26]

Mesmo se Arrighi estiver certo ao sugerir que a hegemonia dos Estados Unidos está se “desfazendo” é importante apontar as suas implicações com cuidado. Regressemos ao tema das rivalidades interimperialistas. Claude Serfati proporcionou uma boa explicação de por que, em seu ponto de vista, “não existe nenhuma possibilidade de as rivalidades econômicas intercapitalistas entre os países da zona transatlântica terminarem em confrontos militares.”[27] As razões que ele aponta são tanto positivas quanto negativas. Negativamente, a distância entre o poder militar dos Estados Unidos e dos demais Estados, individualmente e combinados, é demasiado grande para criar “efeitos -limite” (threshold effects) muito fortes, impedindo qualquer Estado (ou, mais realisticamente, um bloco de Estados, tal como a União Europeia) a desenvolver capacidades militares comparáveis às dos Estados Unidos. Positivamente, o grau de interdependência entre as principais economias capitalistas lhes dá incentivos convincentes para cooperar, e significa que a hegemonia estadunidense é a fonte de “bens públicos” que beneficiam a todos.

Tudo isto está bem, e pode-se adicionar outras razões específicas para sustentar que a competição econômica dentro do bloco ocidental não necessita traduzir-se em um conflito militar. As tensões transatlânticas alcançaram seu nível mais alto quando, nos primeiros meses de 2003, a administração Bush adotou aparentemente uma política não para incentivar uma maior integração europeia (como tradicionalmente havia sido a estratégia dos EUA), mas de dividir para governar. Esta mudança deu um forte incentivo à França e Alemanha para ampliarem sua autonomia diante dos EUA, mas ao mesmo tempo tornou-lhes mais difícil logra-la, dada a existência de um bloco de Estados da União Europeia mais próximos de Washington e liderados pela Grã-Bretanha, cuja cooperação seria essencial para qualquer tentativa séria de aumentar as capacidades militares europeias.[28] A derrota da Constituição Europeia nos referendos na França e Holanda em maio do 2005 reacendeu os conflitos entre a “Nova” e a “Velha” Europa, desta feita em torno da política econômica interna, com um revigorizado Tony Blair liderando a “Nova” Europa para impor as “reformas” neoliberais mais rapidamente. Todavia, seria insensato ignorar a emergência do que Serfati descreve como o “alter-imperialismo” da União Europeia e o crescente esforço que, como ele mostra, está sendo desenvolvido na Política de Segurança e Defesa europeias.[29]

Ademais, seria um erro subestimar a realidade e o potencial desestabilizador dos conflitos entre os Estados capitalistas avançados. As rivalidades econômicas entre as corporações transnacionais, cujos investimentos e mercados estão concentrados em um dos três pontos da tríade do G7 – América do Norte, Europa Ocidental e Japão – e que dependem do apoio estatal para suas lutas competitivas, continuam sendo um traço estrutural da política econômica global contemporânea.[30] Um exemplo óbvio disso são as graves e endêmicas tensões comerciais entre os Estados Unidos e a União Europeia: a disputa atual sobre os subsídios estatais à Boeing e à Airbus, respectivamente, parece especialmente dura e difícil de resolver. Além disso, o papel cumprido pelos EUA na América Latina na promoção de políticas neoliberais que abriram ao capital estrangeiro mercados até então relativamente protegidos, teve, segundo Paul Cammack, o efeito irônico de beneficiar mais as transnacionais europeias do que ao capitalismo norte-americano, apesar de seu suposto domínio da região. Este caso ilustra como as atividades norte-americanas para prover “bens públicos” para o benefício dos capitalismos avançados geralmente podem se tornar na desvantagem do capitalismo norte-americano em particular. Como todos os fenômenos humanos, o imperialismo dos EUA está sujeito à lei das consequências imprevistas.[31]

Mas talvez a disputa transatlântica mais séria desde a invasão do Iraque tenha sido sobre os planos da União Europeia de pôr um fim ao embargo de armas imposto à China após o massacre da Praça da Paz Celestial em junho de 1989. Políticos e analistas estadunidenses tenderam a descrever o assunto como uma questão de europeus provincianos e obcecados por dinheiro, incapazes de ver o panorama geopolítico mais amplo. Mas não parece ser este o caso. Não há dúvida de que uma razão importante para a proposta foi o interesse em conseguir um melhor acesso ao país que se tornou o motor da economia mundial. Mas o objetivo do presidente francês, Jacques Chirac, parece ter sido francamente geopolítico – encontrar no poder crescente da China um contrapeso à hegemonia norte-americana. Uma recente avaliação da CIA foi ainda mais longe, prevendo: “Uma aliança União Europeia-China, ainda que improvável, não é algo impensável.”[32]

Um fato ainda mais surpreendente relacionado à disputa sobre o fim do embargo armamentista (proposta sob intensa pressão dos Estados Unidos) foi que os críticos norte-americanos basearam sua objeção afirmando que uma guerra entre Estados Unidos e a China “ainda que seja improvável, não é [também] impensável.” Tal asserção não foi feita simplesmente por membros do lobby de Taiwan ou republicanos inimigos ferrenhos da China. Michael O’Hanlon, da Brookings Institution – uma instituição considerada sensata e moderada – escreveu recentemente: “Há realmente o risco de uma guerra China-Estados Unidos em torno de Taiwan, que pode fluir e refluir mês a mês, mas que permanece bastante real. E qualquer decisão europeia de terminar o embargo poderia tornar qualquer guerra mais provável e mais custosa em vidas e recursos.”[33]

Comentários desta natureza põem em xeque qualquer previsão de que o curso do desenvolvimento capitalista no futuro será pacifico. Panitch e Gindin reconhecem a possibilidade de que a China possa constituir-se em um contraexemplo à sua análise geral:

E mesmo quando a China possa eventualmente surgir como um polo de poder interimperial, levaria muitas décadas para alcançar semelhante estatuto. O fato de certos setores do estado norte-americano estarem preocupados em certificarem-se de que seu poder “unipolar” seja usado hoje para prevenir o possível surgimento de rivais imperiais no dia de amanhã, não pode ser utilizado como evidência de que tais rivais já existam. (GCAE, 50)

Esta polarização entre presente e futuro subestima seriamente a fluidez da geopolítica contemporânea. A disputa sobre o fim do embargo de armas europeu dificilmente sugere que a ameaça militar chinesa seja vista como algo situado a décadas de distância. Nos últimos meses vários oficiais seniores da Segurança Nacional dos Estados Unidos, desde Porter Gross, diretor da Central de Inteligência, até escalões inferiores, tem advertido sobre a ameaça estratégica representada pela China enfatizando, em particular, a rápida modernização das forças navais e aéreas de Beijing. O jornal Financial Times reporta: “Os responsáveis pela formulação das políticas de Washington estão questionando a afirmação de que um desafio chinês ao domínio militar norte-americano na região da Ásia-Pacífico ocorrerá décadas adiante.”[34] O relatório anual do Pentágono sobre o exército chinês é um documento comprometedor, afirmando, por um lado, que a capacidade atual do Exército de Libertação Popular (ELP) de “projetar [seu] poder militar convencional para além de sua periferia permanece limitada”, e, por outro lado, advertindo que, “se as tendências atuais persistirem, as capacidades do ELP poderiam estabelecer, no longo prazo, uma ameaça crível aos outros exércitos modernos que operam na região.”[35] Mesmo se tais temores forem exagerados (a CIA não é exatamente a mais confiável fonte de inteligência após 11/9 e a não existência das armas de destruição em massa no Iraque), sempre existe o perigo de que as medidas tomadas pelos Estados Unidos para impedir que a China chegue a se tornar uma ameaça possam simplesmente proporcionar aos governantes chineses um incentivo maior para ampliar rapidamente suas capacidades militares.

Panitch e Gindin também são displicentes quanto ao papel cada vez mais importante dos Bancos Centrais da China e de outros Estados do Leste Asiático no financiamento do déficit fiscal e comercial dos Estados Unidos: “Sugerir, como o faz Arrighi, que estamos diante de uma mudança do equilíbrio regional de poder regional porque os possuidores dos certificados do Tesouro de Estados Unidos estão agora primordialmente na Ásia, é confundir as distribuição de ativos com a distribuição de poder.”[36] Aqui é preciso fazer algumas distinções mais cuidadosas do que as deles. Em primeiro lugar, é sem dúvida um sinal da força econômica e política do capitalismo norte-americano – em particular, da vantagem comparativa que possui de poder expedir livremente, sem qualquer tipo de lastro, a principal moeda de reserva do mundo e assim criar novos meios de pagamento – que tenha sido capaz de financiar o déficit por meio de uma entrada massiva de capital vinda do resto do mundo. Mas disto não se segue que devamos subscrever a teoria declarada pelo vice-presidente Dick Cheney quando afirmou a Paul O”Neill, então Secretário do Tesouro dos Estados Unidos: “Reagan provou que os déficits não importam.”[37]

A teoria de Cheney implica que os Estados Unidos poderiam facilmente continuar com um déficit comercial que, pelas tendências atuais, se elevará de 6 por cento do PIB a 10 por cento em princípios da próxima década. Seria mais fácil crer nisso se o influxo de capital que financia o déficit fosse atraído por lucros mais elevados do os obtidos em outras partes. Mas na realidade, o oposto pode ser verdadeiro, a julgar pelo fato de que as grandes corporações recebem rendimentos mais altos sobre seus investimentos estrangeiros diretos do que de seus ativos dentro dos Estados Unidos.[38] Não há dúvida de que Estados Unidos possuem outros interesses econômicos que os de puros lucros, por exemplo, a segurança e mobilidade do capital. Mas o papel, já comentado, dos Bancos Centrais asiáticos no financiamento do déficit põe em relevo o papel de considerações mais políticas o mais político-econômicas nessa política: por exemplo, evitando a dependência sobre o capital estrangeiro que teve um impacto devastador durante a crise de 1977-78 e sustentando as moedas asiáticas em um nível competitivo contra o dólar, e permitindo deste modo a manutenção do modelo econômico de altas exportações sobre o que está baseado o capitalismo do Leste Asiático. Neste contexto, a campanha atual nos Estados Unidos e na União Europeia para uma reavaliação do renminbi, tem um quê de “brincar com fogo”.[39]

De uma perspectiva histórica mais ampla, parece simplesmente perverso negar um significado econômico e geopolítico mais amplo ao papel da China, em particular, e do capitalismo do Leste Asiático, em geral, no financiamento do déficit dos Estados Unidos. A análise de Arrighi da crise de hegemonia dos Estados Unidos tem como pano de fundo uma teoria cíclica da história muito mais ampla, em que as potências capitalistas ganham e perdem hegemonia de acordo com padrões fixos e definidos.[40] Não é preciso aceitar este tipo de teoria para reconhecer que foi um momento histórico significativo quando a Grã-Bretanha chegou a estar endividada financeiramente com os Estados Unidos durante a I Guerra Mundial, mesmo se foram necessários outros trinta anos para que isto se traduzisse em um deslocamento definitivo de um pelo outro na posição de poder capitalista líder. Ainda que descartemos qualquer deslocamento em favor da China em detrimento dos EUA, as profundas tensões concentradas no Leste Asiático não podem ser ignoradas.

O boom chinês tem cumprido um papel importante na reorientação da política econômica global, na medida em que a China tornou-se o maior fornecedor de bens manufaturados baratos aos Estados Unidos e o resto do mundo capitalista avançado, da mesma forma que é um comprador chave de bens intermediários do Japão, Coréia do Sul e Estados Unidos, além das matérias primas do Oriente Médio, América Latina e África.[41] Ademais, como já vimos, a China e os outros Estados do Leste Asiático agora fortemente ligados economicamente a ela, tornaram-se os financiadores da expansão continuada do capitalismo norte-americano. Simultaneamente, a China se tornou também um para-raios para as tensões geopolíticas, suplantou o Japão como o objeto principal da agitação protecionista nos Estados Unidos, e tem sido identificada pelo Pentágono e a CIA como a Grande Potência mais provável de ser alvo de uma guerra pelos Estados Unidos.[42]

As contradições que agora se concentram na China são, assim, sintomáticas do estado atual da economia política global. Não de uma incorporação estável do capitalismo mundial pelo império norte-americano informal, mas sim da fragilidade do processo de acumulação global e da geopolítica na atualidade. Devemos esperar – e atuar para assegurar – que esta fragilidade não se transforme em um caminho demasiado brutal e destrutivo.

Notas

 [1] M. Doyle, Empires (Ithaca NY, 1986), p. 30. Este artigo foi originalmente enviado à Conferência “Korean Economy: Marxist perspectives” realizado no Institute for Social Sciences, Gyeongsang National University, Jinju, South Korea, no dia 20 de maio de2005, com apoio da Korean Research Foundation Grant (KRF-2003-005-B00006).

[2] Ver A. Callinicos, ‘Marxism and Global Governance’, en D. Held e A. McGrew, eds., Governing Globalization (Cambridge, 2002).

[3]A. Callinicos, ‘Imperialism, Capitalism, and the State Today’, International Socialism nº 35 (1987), pp. 84-88.

[4]R. Brenner, ‘The Social Basis of Economic Development’, em J. Roemer (ed.), Analytical Marxism (Cambridge, 1986). Para uma tentativa fracassada de utilização do conceito de acumulação política de Brenner, ver B. Teschke, The Myth of 1648 (Londres, 2003). Muitos dos seguidores e críticos de Brenner compartilham a suposição de que se o sistema estatal surgiu antes do modo capitalista de produção ter se tornado dominante, então não pode agora ser intrínseco a esse modo de produção. Mas isso é confundir gênese e estrutura: o sistema estatal tomou forma inicialmente no início da Era Moderna de transição do feudalismo para o capitalismo, mas foi transformado quando o modo capitalista de produção tornou-se dominante e é agora uma dimensão constitutiva desse modo de produção. Para discussões sobre temas relacionados, ver A. Callinicos, ‘Bourgeois Revolutions and Historical Materialism’, International Socialism nº 43 (1989), ‘Marxism and the International’, British Journal of Politics and International Relations nº6 (2004).

[5]Desenvolvi esta perspectiva em A. Callinicos, Making History (2ª ed., Leiden, 2004), pp. 179-99, “Marxism and Imperialism Today”, International Socialism, (2) 50 (1991), “Periodizing Capitalism and Analysing Imperialism”, en R. Albritton et al., eds., Phases of Capitalist Development (Houndmills, 2001), An Anti-Capitalist Manifesto (Cambridge, 2003), pp. 50-65, e The New Mandarins of American Power (Cambridge, 2003), esp. cap. 5.

[6]D Harvey, The New Imperialism (Oxford, 2003) [“O Novo Imperialismo”, título da edição brasileira, N;doT.], pp26, 30. A grande obra de Arrighi é The Long Twentieth Century (Londres, 1994) [“O longo século XX”, título da edição brasileira, N.doT.].

[7]W Bello, Dilemmas of Domination (New York, 2005); P Gowan, The Global Gamble (Londres, 1999); C Harman, ‘Analyzing Imperialism’, International Socialism nº 99 ( 2003); J Rees, ‘Imperialism: Globalization, the State, and War’, International Socialism nº 93 (2001); e C Serfati, Impérialisme et militarism ( Lausanne, 2004).

[8]Ver as respostas críticas coletadas em G Balakrishnan (ed), Debating Empire (Londres, 2003), e A Boron, Empire and Imperialism (Londres, 2005).

[9]L Panitch e S Gindin, Capitalismo Global e Império Norte-Americano, O Novo Desafio Imperial Socialist Register 2004, CLACSO (Buenos Aires, 2008), As citações deste texto são da versão em português, e doravante será indicada como CGIN. E ‘Finance and American Empire’, em L Panitch and C Leys (eds.), The Empire Reloaded, Socialist Register 2005 (Londres, 2004).

[10] Panitch e Gindin fazem várias afirmações sobre a história do imperialismo e da teoria clássica – algumas corretas, outras não –, porém não tenho tempo ou espaço para discutí-las aqui.

[11] Sobre a influência de Poulantzas nesta análise, ver N Poulantzas, Les Classes sociales en capitalisme aujourd’hui (Paris, 1974), cap. 1, e L Panitch, ‘The New Imperial State’, New Left Review (II) 2 (2000), especialmente pp. 8-10.

[12]L Panitch and S Gindin, ‘Finance and American Empire’, pp. 81 n72. R Brenner, ‘The Economics of Global Turbulence’, New Left Review (I) 229 (1998) é, entre outras coisas, uma crítica devastadora deste tipo de teoria das crises.

[13]L Panitch e S Gindin, ‘Finance and American Empire’, p. 74.

[14] Para uma abordagem comparativa dessas duas teorias, ver A Callinicos, ‘Capitalism, Crisis, and Profits’, Historical Materialism 4 (1999).

[15]R Brenner, ‘The Capitalist Economy, 1945-2000: A Reply to Konings and to Panitch and Gindin’, em D Coates (ed), Varieties of Capitalism, Varieties of Approaches (Basingstoke, 2005).

[16] Para duas das mais importantes contribuições, ver R Miliband, ‘State Power and Class Interests’, New Left Review (I) 138 (1983), e C Harman, ‘The State and Capitalism Today’, International Socialism 51 (Summer 1991).

[17]A Callinicos, The New Mandarins of American Power, pp. 104-106.

[18]A Callinicos, ‘Marxism and Imperialism Today’, pp. 27-31, e The Revenge of History (Cambridge, 1991) [“A Vingança da História”, edição brasileira, 1991], pp67-82.
[19]C Harman, Explaining the Crisis (Londres, 1984), e R Brenner, ‘The Economics of Global Turbulence’.

[20] A melhor abordagem da estratégia dos EUA diante das crises é proporcionada por Gowan: ver especialmente The Global Gamble e ‘The Euro-Atlantic Origins of NATO’s Attack on Yugoslavia’, in T. Ali (ed), Masters of the Universe (Londres, 2000). Seu tratamento é superior ao de Panitch and Gindin porque apresenta a crise econômica e financeira dos anos 1970s e do final da Guerra Fria como momentos de descontinuidade que ameaçaram a hegemonia norte-americana e enfatiza que a rivalidade real ou potencial da Europa e do Japão é uma dimensão importante desses desafios.

[21] Análises mais detalhadas sobre as causas e consequências da Guerra do Iraque: A Callinicos, The New Mandarins of American Power, e ‘Iraq: Fulcrum of World Politics’, Third World Quarterly 26 (2005).

[22]The National Security Strategy of the United States of America, Setembro de 2002, http://www.whitehouse.gov, p30.

[23]H Kissinger, Diplomacy (New York, 1996); Z Brzezinski, The Global Chessboard (New York, 1997), e The Choice (New York, 2004); J Nye, The Paradox of American Power (Oxford, 2002); P Bobbitt, The Shield of Achilles (Londres, 2002); e J Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics (New York, 2001).

[24]D Harvey, The New Imperialism, p. 19; ver também pp. 25, 201-202.

[25]) M Mann, Incoherent Empire (Londres, 2003).

[26]G Arrighi, ‘Hegemony Unravelling’, I, New Left Review (II) 32 (2005), p. 57.

[27] C Serfati, Impérialisme et militarisme, p. 184.

[28]A Callinicos, The New Mandarins of American Power, pp. 119-127.

[29] C Serfati, Impérialisme et militarisme, cap. 8 and 9.

[30] Essa proposição é defendida vigorosamente por Peter Gowan em um texto inédito, ‘Industrial Dynamics and Interstate Relations in the Core’.

[31]P Cammack, ‘“Signs of the Times”: Capitalism, Competitiveness, and the New Face of Empire in Latin America’, in L Panitch and C Leys (eds), The Empire Reloaded. A crescente presença econômica chinesa e européia na América Latina teve o efeito de ampliar a margem de manobra de Estados como o Brasil e a Venezuela em relação a Washington. Ver, por examplo, R Lapper, ‘Latin Lessons’, Financial Times, 17 May 2005.

[32]D Dombey e P Spiegel, ‘Up in Arms’, Financial Times, 10 February 2005.

[33]M O’Hanlon, ‘The Risk of War over Taiwan is Real’, Financial Times, 2 May 2005.

[34]V Mallet, ‘Strait Ahead?’, Financial Times, 7 April 2005.

[35] Financial Times, 20 e 21 de Julho, 2005.

[36]) L Panitch and S Gindin, ‘Finance and American Empire’, p. 73. Arrighi documenta o crescent poder econômico e financeiro do Leste Asiático mais recentemente em ‘Hegemony Unravelling’, I, pp61-80.

[37]R Suskind, The Price of Loyalty (Londres, 2004), p291.

[38]N Ferguson, Colossus (Londres, 2004), p281. Quem duvida dos reais problemas postos pelo deficit norte-americano deveria consultar a excelente série de artigos escritos por Martin Wolf, publicados em Financial Times nos dias 1, 8 e 22 de Dezembro, 2004.

Ver, por exemplo, N Roubini, ‘Ten Reasons Why China Should Move Its Peg and Pull the Plug on the US Reckless Policies’, March 2005, http://www.stern.nyu/ globalmacro. A decisão da China, tomada em Julho de 2005, de revalorizar o renminbi em 2,1 por cento e permitir a que flutue suavemente em relação a um conjunto de moedas provavelmente não eliminará essas pressões.

[40]G Arrighi, The Long Twentieth Century,; G Arrighi, B Silver et al, Chaos and Governance in the Modern World System (Minneapolis, 1999); G Arrighi, ‘Hegemony Unravelling’, II, New Left Review(II) 33 (2005).

[41] Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett oferecem uma excelente análise do lugar ocupado pela China na economia mundial em ‘China and the Dynamics of Transnational Capital Accumulation’, paper apresentado na Conferência ‘Korean Economy: Marxist Perspectives’.

[42] O caso de Japão sublinha a importância de não reduzir as relações geopolíticas às econômicas. A difícil recuperação japonesa da longa depressão dos anos 90 de Japão dependeu, de maneira crítica, do boom chinês, mas a agressiva postura nacionalista do governo Koizumi (simbolizada pelos conflitos sobre relacionados ao histórico de guerras de Japão) envolveu o envio de tropas ao Iraque e, mais significativamente, alinhando-se com a estratégia de Washington de conter militarmente a China. Ver, por exemplo, McCormack, “Remilitarizing Japan”, New Left Review, (II) 29 (2004). O alinhamento geopolítico do Japão com os Estados Unidos poderia parecer a confirmação da análise de Panitch e de Gindin, mas é provável que no longo prazo seu efeito seja alimentar as tensões que eles minimizam.

 

 

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